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A Entidade - Parte Cinco - Final.

Apesar dos temores, Ana nem tentou resistir ao desejo que lhe consumia e entregou-se de corpo e alma ao prazer. Já não havia obstáculos morais, ou de qualquer outra natureza, a se interpor entre ela e seu amante sobrenatural. Até mesmo André já não era um empecilho. Sua existência fútil teve o fim merecido, pelo menos no entendimento dela.
Tudo aconteceu depois que ele ouviu seus gemidos noite adentro e, em determinado momento, invadiu seu quarto de arma em punho. Sentia-se traído e queria lavar sua honra com o sangue do seu amante. Como não encontrou ninguém, voltou sua ira para ela e tentou espancá-la. O ódio que sentia o impediu de perceber que Ana não estava realmente só, até que foi erguido no ar e sentiu seu pescoço ser torcido para trás por uma força sobrenatural. O estalo foi o último som que ouviu. Depois o nada. Sua alma lhe fora arrancada e atirada numa escuridão profunda e aterradora.
Três semanas se passaram desde o dia em que André deixou de existir. Ana tornou-se rapidamente uma reclusa e afastou-se até mesmo de sua amiga de todas as horas. Ela já nem se dava ao trabalho de atender suas ligações.  Preocupada, Lívia resolveu fazer-lhe uma visita para certificar-se de que estava bem.

A Entidade - Parte Quatro.

A ausência de Lívia se prolongou por vários dias, além do fim de semana. Ana interpretou isso como um sinal de que a viagem romântica de sua amiga havia se tornado algo mais gratificante. Ficou feliz por ela, mas não pôde evitar uma pontinha de ciúme, que logo foi esquecido no primeiro encontro que tiveram depois do seu retorno. Elas se reencontraram no mesmo bar onde retomaram a antiga amizade.
- Menina! Não acredito! Você teve outro sonho com o poltergeister?
- Não sei se foi um sonho. A coisa toda pareceu bem real.  
- Nossa! Queria ter sonhos assim ... – Disse Lívia, revirando os olhos.
A gargalhada que se seguiu ecoou por todo o salão do bar, num momento improvável de silêncio, entre uma música e outra.
- Ops! – Exclamou Ana, constrangida.
Lívia apenas sacudiu os ombros, mas baixou o tom de voz quando perguntou:
- Você gozou, como da outra vez? Hum ... Pela sua cara, acho que não.

Trevas - Lord Byron

Eu tive um sonho que não era em todo um sonho
O sol esplêndido extinguira-se, e as estrelas
Vagueavam escuras pelo espaço eterno,
Sem raios nem roteiro, e a enregelada terra
Girava cega e negrejante no ar sem lua;
Veio e foi-se a manhã - Veio e não trouxe o dia;
E os homens esqueceram as paixões, no horror
Dessa desolação; e os corações esfriaram

O Mestre do Terror

A história melancólica e trágica de Edgar Allan Poe

Ao lado de Machado de Assis, Poe têm sido uma das principais referências literárias para mim. A forma como mergulhou no inconsciente coletivo e descortinou os mais profundos e atávicos sentimentos humanos, em contos repletos de dor e medo, revela uma alma torturada pelas tragédias pessoais. Acredita-se que a vida atormentada do escritor tenha contribuído de forma definitiva para moldar sua obra e seus derradeiros momentos de vida. 

Encontrei este vídeo no Youtube, que traz informações preciosas da vida do escritor e que, certamente, será do agrado daqueles que admiram sua fantástica obra.


A Entidade - Parte três

O tempo passou e os encontros furtivos de Ana e Lívia se tornaram cada vez mais frequentes, numa espécie de interlúdio necessário para suportar a pasmaceira de um casamento mergulhado em um processo rápido de falência múltipla de laços emocionais e físicos. A única coisa que ainda mantinha o casamento de Ana e André era o aspecto financeiro, compartilhado durante tantos anos. Ela sabia que essa questão certamente provocaria uma longa e cansativa disputa. Mesmo assim, Ana sentia que as questões legais do divórcio logo deixariam de ser um obstáculo intransponível, quando comparadas à liberdade que desejava cada vez mais.

Crônicas da Cidade dos Mortos - Wazinga Capítulo V

Ao narrar seu encontro com Malala, Voz Cavernosa pareceu emocionar-se. Ao ouvir sua voz ligeiramente trêmula, eu consegui perceber que sua origem era inequivocamente humana. Era a primeira vez que isso acontecia, pois até então, eu tinha a certeza quase absoluta de que estava lidando com uma criatura gerada no inferno.
Nossas sessões de entrevistas eram feitas no cemitério. Logo depois que os portões se fechavam, encontrávamo-nos diante da Tumba. Como eu pertencia ao mundo dos vivos, não tinha acesso ao seu interior. Uma condição temporária, dizia ele, com a sua mordacidade habitual.
De minha parte, embora tenha concordado em escrever a história dele, não tinha nenhuma pressa em mudar de plano existencial, nem mesmo para ter minha passagem permitida naquele portal. Ainda hoje, tenho arrepios só de olhar aquelas gárgulas sinistras que ainda guarnecem a entrada da Tumba.

A Entidade - Parte dois.

Ela bem que se esforçou, mas o sono só veio uma hora depois. Ana teria dormido toda a manhã, mas foi acordada por uma carícia insistente nos seios. Ainda sonolenta ela pensou por um momento que estava tendo o mesmo sonho novamente, mas era André com sua ereção matinal, tentando excitá-la. Longe de lograr seu intento, ele apenas conseguiu irritá-la. Ana havia esperado muito daquela noite, mas depois da frustração, não estava disposta a ceder para satisfazer as necessidades fisiológicas e egoístas dele.
- Pare com isso! – Quase gritou, enquanto o empurrava. – Quero dormir.
Ele exalou o ar preso em seu pulmão, surpreso por ter sido repelido. Tinha uma vaga noção de que ela deveria estar ansiosa por uma boa trepada. Afinal já fazia algum tempo que não a procurava para isso.

Requiescat in Pace - Sinopse

Ele até que é um bom escritor, mas não consegue viver de sua literatura. Sentindo-se pressionado pela dura realidade e as contas para pagar, candidata-se a um emprego como vigia noturno de um cemitério. Apesar da estranheza inicial com a nova ocupação, o escritor percebe haver ali uma boa oportunidade de estabilizar e terminar seu último romance. Uma novela de horror gótico, na qual ele deposita toda a sua esperança de dias melhores. Mas ele teria mais que isso. Ocorre que coisas estranhas acontecem naquela necrópole, depois que os vivos se retiram e os portões de fecham. Já na primeira noite, ele presencia estarrecido um piquenique de góticos sobre as lápides sepulcrais. Conhece uma garota estranha, que gosta de passear pelo cemitério depois da meia noite, um coveiro necrófilo e um grupo ensandecido de almas penadas, liderado por um demônio muito louco, que guarda importantes segredos. Uma sequência de eventos improváveis o envolve numa longa jornada pelo mundo dos mortos, onde ele descobre coisas importantes sobre si, de uma vida anterior, que envolve também a garota estranha.

Para ler o capítulo inicial: Clique aqui

A Entidade


Tudo começou naquela noite, ela lembrava bem. Era sábado e a noite de chuva convidava à preguiça, mas Ana queria algo mais. Estava excitada e olhava para André, seu marido, cheia de esperanças. Há muito não tinham qualquer contato íntimo e isso a deixava frustrada e amarga. Então, naquela noite, Ana decidiu que seria diferente. Já havia planejado tudo horas antes.
Ainda na tarde daquele sábado, enquanto André se esfalfava no campo de peladas do clube, ela foi às compras. Escolheu uma lingerie que nunca ousara usar e caprichou nos detalhes para ter uma noite perfeita com o marido. Gastou uma pequena fortuna naquele perfume caro, que levava o nome de uma estilista famosa que admirava. Não esqueceu nem mesmo aquele creminho, para proporcionar ao marido, e a si mesma, uma noite inesquecível.
Mas à noite, André nem mesmo olhou para ela, entretido em ver televisão. Em todas as tentativas que fez para chamar-lhe a atenção, ele a olhou com tamanho desagrado, que ela foi murchando e acabou desistindo de ter sua noite de amor com o marido. Preparou-se para uma noite insone, a sufocar desejos insatisfeito.

As Sombras da Morte

Há muito não se alimentava, e já não tinha muito tempo. A cidade não estava longe, mas a aurora não tardaria a lançar seus primeiros raios de luz anunciando a manhã.
Precisava encontrar uma presa antes que o dia chegasse e pudesse descansar em algum canto sombrio, até que as trevas o chamassem novamente.  A noite escura lembrar-lhe-ia sua natureza. Ele não era propriamente um ser vivo, mas nutria-se da vida pulsante e quente que corria nas veias dos homens. Como um parasita nascido no inferno, drenava a vitalidade daqueles, cujo destino fatídico os colocava em seu caminho.
Com as pupilas dilatadas nos olhos ansiosos ele percebeu um caminhante solitário percorrendo a trilha que levava à cidade. Era um homem idoso, mas caminhava em passos largos com desenvoltura e energia, embora usasse um cajado como apoio. Ele parecia ter pressa, mas seria difícil dizer se isso se devia aos os perigos que o rondavam naquele lugar, ou simplesmente tinha a impaciência dos homens de espírito inquieto, desses que viajam com frequência e habitualmente se envolvem em longas jornadas. Naturalmente, tais conjecturas não ocorriam à criatura da noite. Seria uma frivolidade desnecessária tecer qualquer tipo de consideração a respeito daquele que estava preste a se tornar mais uma de suas vítimas. Tudo o que lhe importava era o líquido escarlate que corria nas veias daquele homem incauto. É certo que iria preferir uma presa mais jovem, se lhe fosse dado naquele momento a oportunidade de escolher, mas o tempo estava se esgotando com a proximidade da aurora.

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