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Trevas - Lord Byron

Eu tive um sonho que não era em todo um sonho
O sol esplêndido extinguira-se, e as estrelas
Vagueavam escuras pelo espaço eterno,
Sem raios nem roteiro, e a enregelada terra
Girava cega e negrejante no ar sem lua;
Veio e foi-se a manhã - Veio e não trouxe o dia;
E os homens esqueceram as paixões, no horror
Dessa desolação; e os corações esfriaram

O Mestre do Terror

A história melancólica e trágica de Edgar Allan Poe

Ao lado de Machado de Assis, Poe têm sido uma das principais referências literárias para mim. A forma como mergulhou no inconsciente coletivo e descortinou os mais profundos e atávicos sentimentos humanos, em contos repletos de dor e medo, revela uma alma torturada pelas tragédias pessoais. Acredita-se que a vida atormentada do escritor tenha contribuído de forma definitiva para moldar sua obra e seus derradeiros momentos de vida. 

Encontrei este vídeo no Youtube, que traz informações preciosas da vida do escritor e que, certamente, será do agrado daqueles que admiram sua fantástica obra.


A Entidade - Parte três

O tempo passou e os encontros furtivos de Ana e Lívia se tornaram cada vez mais frequentes, numa espécie de interlúdio necessário para suportar a pasmaceira de um casamento mergulhado em um processo rápido de falência múltipla de laços emocionais e físicos. A única coisa que ainda mantinha o casamento de Ana e André era o aspecto financeiro, compartilhado durante tantos anos. Ela sabia que essa questão certamente provocaria uma longa e cansativa disputa. Mesmo assim, Ana sentia que as questões legais do divórcio logo deixariam de ser um obstáculo intransponível, quando comparadas à liberdade que desejava cada vez mais.

Crônicas da Cidade dos Mortos - Wazinga Capítulo V

Ao narrar seu encontro com Malala, Voz Cavernosa pareceu emocionar-se. Ao ouvir sua voz ligeiramente trêmula, eu consegui perceber que sua origem era inequivocamente humana. Era a primeira vez que isso acontecia, pois até então, eu tinha a certeza quase absoluta de que estava lidando com uma criatura gerada no inferno.
Nossas sessões de entrevistas eram feitas no cemitério. Logo depois que os portões se fechavam, encontrávamo-nos diante da Tumba. Como eu pertencia ao mundo dos vivos, não tinha acesso ao seu interior. Uma condição temporária, dizia ele, com a sua mordacidade habitual.
De minha parte, embora tenha concordado em escrever a história dele, não tinha nenhuma pressa em mudar de plano existencial, nem mesmo para ter minha passagem permitida naquele portal. Ainda hoje, tenho arrepios só de olhar aquelas gárgulas sinistras que ainda guarnecem a entrada da Tumba.

A Entidade - Parte dois.

Ela bem que se esforçou, mas o sono só veio uma hora depois. Ana teria dormido toda a manhã, mas foi acordada por uma carícia insistente nos seios. Ainda sonolenta ela pensou por um momento que estava tendo o mesmo sonho novamente, mas era André com sua ereção matinal, tentando excitá-la. Longe de lograr seu intento, ele apenas conseguiu irritá-la. Ana havia esperado muito daquela noite, mas depois da frustração, não estava disposta a ceder para satisfazer as necessidades fisiológicas e egoístas dele.
- Pare com isso! – Quase gritou, enquanto o empurrava. – Quero dormir.
Ele exalou o ar preso em seu pulmão, surpreso por ter sido repelido. Tinha uma vaga noção de que ela deveria estar ansiosa por uma boa trepada. Afinal já fazia algum tempo que não a procurava para isso.

Requiescat in Pace - Sinopse

Ele até que é um bom escritor, mas não consegue viver de sua literatura. Sentindo-se pressionado pela dura realidade e as contas para pagar, candidata-se a um emprego como vigia noturno de um cemitério. Apesar da estranheza inicial com a nova ocupação, o escritor percebe haver ali uma boa oportunidade de estabilizar e terminar seu último romance. Uma novela de horror gótico, na qual ele deposita toda a sua esperança de dias melhores. Mas ele teria mais que isso. Ocorre que coisas estranhas acontecem naquela necrópole, depois que os vivos se retiram e os portões de fecham. Já na primeira noite, ele presencia estarrecido um piquenique de góticos sobre as lápides sepulcrais. Conhece uma garota estranha, que gosta de passear pelo cemitério depois da meia noite, um coveiro necrófilo e um grupo ensandecido de almas penadas, liderado por um demônio muito louco, que guarda importantes segredos. Uma sequência de eventos improváveis o envolve numa longa jornada pelo mundo dos mortos, onde ele descobre coisas importantes sobre si, de uma vida anterior, que envolve também a garota estranha.

Para ler o capítulo inicial: Clique aqui

A Entidade


Tudo começou naquela noite, ela lembrava bem. Era sábado e a noite de chuva convidava à preguiça, mas Ana queria algo mais. Estava excitada e olhava para André, seu marido, cheia de esperanças. Há muito não tinham qualquer contato íntimo e isso a deixava frustrada e amarga. Então, naquela noite, Ana decidiu que seria diferente. Já havia planejado tudo horas antes.
Ainda na tarde daquele sábado, enquanto André se esfalfava no campo de peladas do clube, ela foi às compras. Escolheu uma lingerie que nunca ousara usar e caprichou nos detalhes para ter uma noite perfeita com o marido. Gastou uma pequena fortuna naquele perfume caro, que levava o nome de uma estilista famosa que admirava. Não esqueceu nem mesmo aquele creminho, para proporcionar ao marido, e a si mesma, uma noite inesquecível.
Mas à noite, André nem mesmo olhou para ela, entretido em ver televisão. Em todas as tentativas que fez para chamar-lhe a atenção, ele a olhou com tamanho desagrado, que ela foi murchando e acabou desistindo de ter sua noite de amor com o marido. Preparou-se para uma noite insone, a sufocar desejos insatisfeito.

As Sombras da Morte

Há muito não se alimentava, e já não tinha muito tempo. A cidade não estava longe, mas a aurora não tardaria a lançar seus primeiros raios de luz anunciando a manhã.
Precisava encontrar uma presa antes que o dia chegasse e pudesse descansar em algum canto sombrio, até que as trevas o chamassem novamente.  A noite escura lembrar-lhe-ia sua natureza. Ele não era propriamente um ser vivo, mas nutria-se da vida pulsante e quente que corria nas veias dos homens. Como um parasita nascido no inferno, drenava a vitalidade daqueles, cujo destino fatídico os colocava em seu caminho.
Com as pupilas dilatadas nos olhos ansiosos ele percebeu um caminhante solitário percorrendo a trilha que levava à cidade. Era um homem idoso, mas caminhava em passos largos com desenvoltura e energia, embora usasse um cajado como apoio. Ele parecia ter pressa, mas seria difícil dizer se isso se devia aos os perigos que o rondavam naquele lugar, ou simplesmente tinha a impaciência dos homens de espírito inquieto, desses que viajam com frequência e habitualmente se envolvem em longas jornadas. Naturalmente, tais conjecturas não ocorriam à criatura da noite. Seria uma frivolidade desnecessária tecer qualquer tipo de consideração a respeito daquele que estava preste a se tornar mais uma de suas vítimas. Tudo o que lhe importava era o líquido escarlate que corria nas veias daquele homem incauto. É certo que iria preferir uma presa mais jovem, se lhe fosse dado naquele momento a oportunidade de escolher, mas o tempo estava se esgotando com a proximidade da aurora.

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Lilith - Noite adentro Cap. II

Eu morri no início do século XIX. Mais exatamente no dia 21 de abril de 1808. Os acontecimentos que culminaram em meu triste infortúnio foram erigidos alguns dias antes, quando fui levada por meu pai à fazenda de Bartolomeu Bueno Ferraz, o homem mais poderoso do Arraial de São Vicente. Eu era o pagamento de uma antiga dívida, contraída a juros exorbitantes.
Com vinte e seis anos, eu era velha demais para o mercado do matrimônio. Na verdade, o destino desejado pelas mulheres de minha época não fazia parte de minhas ambições pessoais. Desde cedo, aprendi a afastar os pretendentes que se apresentavam, para o desgosto de meu pai, que veria com bons olhos qualquer um que o livrasse do ônus do meu sustento.
Por influência de minha mãe, desde cedo eu me apliquei nos estudos de filosofia e literatura. Enquanto era interna em um colégio católico em Lisboa, li todos os clássico que pude encontrar na biblioteca. Logo passei dos princípios da filosofia aristotélica para os poemas de Byron, Shelley e a literatura corrosiva de Jane Austen, com a qual eu tive o prazer de conviver durante uma curta temporada em Londres. Algum tempo depois, fui forçada a voltar para o Brasil, por conta de dificuldades financeiras de minha família, mas a convivência com a escritora inglesa deixou-me o habito de registrar os acontecimentos de minha vida em um diário. Naquele tempo, eu tinha um vago projeto de seguir seus passos na literatura.

Lilith - Noite adentro Cap. I



Gosto do cheiro da noite. Há nuances sutis trazidas pelo sereno e pela leve brisa noturna, que eu não poderia perceber durante o dia, com meu sentido de olfato saturado com os odores que os homens produzem em suas atividades insanas. Felizmente eu tenho hábitos noturnos. Agora mesmo, eu inspiro o ar frio e percebo que há uma assinatura diferente entre os cheiros que veem até mim. Alguém se aproxima e estimula meus outros sentidos. Percebo que é um homem. Ele está levemente bêbado e caminha só, de forma hesitante, mas não por causa do álcool em sua corrente sanguínea. Parece apenas aturdido por algum infortúnio. Apesar da bebida ingerida pelo caminhante solitário, gosto do cheiro dele!  Quase lamento o que estou preste a fazer, mas sei que é apenas resquícios da consciência daquela que outrora fui. Logo volto me concentrar e deixo minhas presas se projetarem. É hora de fazer jus à minha natureza sanguinária, algo que ganhei em uma noite sem luar. Acreditem, eu já fui humana. Hoje, porém, faço dos humanos minhas presas favoritas. Há nisso uma espécie de justiça poética, se me permitem o escorregão melodramático.