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Zaphir - Capítulo I


Sobre vitória, beijos e acontecimentos insólitos.
Capítulo de degustação. A obra completa está disponível no site da Amazon.

O garoto segurava o taco sobre os ombros com aparente desenvoltura, apesar do seu porte franzino. O boné, com a aba virada para trás e a expressão atenta do olhar, não demonstravam o terrível medo que sentia de fracassar. Desajeitado, ele nunca tinha sido muito bom no jogo de taco, mas não queria decepcionar a parceira que o olhava da outra base em serena expectativa. O olhar dela era firme e tranqüilo, como sempre costumava ser. Contudo, isso não contribuía para infundir-lhe uma confiança que não sentia. Na verdade deixava-o ainda mais tenso, como se tornasse mais evidente para si próprio o contraste entre a confiança que ela demonstrava e a tremedeira que estava sentindo nos joelhos.
 De repente ele percebeu que o olhar dela havia se desviado para o lançador. Havia chegado o momento de uma desgraça praticamente anunciada. O anticlímax o fez lançar uma prece silenciosa a todos os deuses que conhecia, mesmo tendo a convicção de que deuses não se importavam com o miserável destino de um simples mortal no jogo de taco.
O Lançador deu uma cuspidela para o lado e fez uma cara de mau. Era Jorjão, um garoto forte e agressivo, e estava disposto a arrasá-lo. Ser o melhor amigo da única garota da turma tinha lá seus percalços. Sua inaptidão para os esportes e a popularidade dela, uma atleta privilegiada, tornava incompreensível aos demais a forte amizade que eles mantinham.
A bolinha veio rápida em sua direção, mas ele teve a impressão que ela vinha em câmera lenta, como se aquela situação que estava vivendo fosse parte de um filme e o diretor usasse esse recurso para tornar ainda mais evidente a sua atrapalhada atuação. O taco parecia feito de chumbo e ele o moveu com uma lentidão ainda maior do que lhe pareceu o movimento da bolinha. Ela vinha certeira, mas não em sua direção, como pensava. O alvo de sua trajetória era o marco da base, uma lata vazia de óleo de soja posicionada logo atrás dele. Tinha que rebater aquele lançamento antes que atingisse a sua base, ou perderiam a posse dos tacos. Esse foi o seu último pensamento. O seu taco cruzou o vazio e o estalo oco da bola ao bater na lata feriu seus ouvidos. Com o impacto, a lata fez uma pirueta no ar e caiu no chão, junto com a sua dignidade.
Envergonhado, ele deixou o taco cair da mão e evitou olhar para sua parceira. Os garotos menores, que assistiam ao jogo da lateral do campinho, começaram a vaiá-lo.
- Michel é mariquinha! Michel é mariquinha! – Gritavam em coro, remexendo os quadris na tentativa de imitar o que lhes parecia o jeito de andar das meninas.
- Aí, bobão! Não vai pegar a bola? – Perguntou o lançador. – Vai perder o jogo, mesmo jogando com a Gabi.
Respirando fundo, ele se afastou.
- Perdedor! – Ouviu, enquanto virava-se para buscar a bola. Ele nada respondeu. Apenas ergueu os olhos, ainda apertados para não chorar de indignação, para tentar localizar a bolinha, o instrumento de sua humilhação. Não foi necessário procurá-la, entretanto. Deu de cara com Gabriela, que o olhava sorridente com a bolinha na mão. Ela puxou seu boné sobre seus olhos e lhe deu um soco amigável no queixo.
- Não liga não. É só um jogo. – Disse-lhe. – Mas ainda podemos ganhar.
Gabriela não parecia estar decepcionada, percebeu com alívio. A péssima jogada que fez já não lhe parecia agora tão atroz. Como ela conseguia isso? Gabriela o levava do inferno ao céu, e vice-versa, com um simples olhar e umas poucas palavras. Meninas sempre lhe pareciam mágicas e enigmáticas, principalmente se eram bonitas. O que não era o caso de dela, entretanto.  Fisicamente falando não chegava a ser feia, mas era quase desprovida dos encantos femininos. Na verdade parecia mais um garoto do que uma menina, mas sempre lhe parecera que ela era especial. Com um leve suspiro afastou esses pensamentos e esperou não estar apaixonado. Já tinha problemas demais.
Era sua vez de ser o lançador. Gabriela estava posicionada atrás do rebatedor e lhe gritava palavras de encorajamento.
- Vai, Michel! Lança essa bola, que ele não é de nada.
Isso ele podia fazer. Lançar a bola não era tão difícil quanto rebatê-la, achava. Fechou um olho e mirou na cintura do garoto que o havia humilhado na jogada anterior, quando era ele o lançador. Jogar a bola contra o corpo do rebatedor tornava mais difícil acertá-la corretamente. Se ela resvalasse para trás da base, o adversário perderia a posse do taco e a possibilidade de marcar pontos. Poderia até mesmo perder o jogo, se a bolinha derrubasse a base atrás dele.
Michel respirou fundo e lançou a bola com toda a força de que era capaz. O esforço foi tão grande que o seu cotovelo estalou como um chicote. Doía tanto que ele não chegou a ver o rebatedor pular para o lado ao mesmo tempo em que brandia o taco.
Foi uma batida seca e certeira, que mudou a trajetória da bolinha e ela voltou em sua direção. Instintivamente Michel ergueu uma das mãos para proteger o rosto.
- Pega! – Gritou Gabriela no mesmo instante.
Quando a bolinha bateu na sua mão direita, ele sentiu o impacto como se fosse atingido diretamente pelo taco do adversário. Mas apesar da dor, conseguiu segurá-la.
Vitória! – Gritou ele com certo esforço.
Conseguira! Agarrar a bolinha rebatida era a jogada final, o xeque-mate, não importava quantos pontos o adversário tivesse acumulado. Não sabia como, mas tinha vencido o jogo e devolvido a humilhação sofrida.
Fitou a bolinha na mão dolorida ainda sem acreditar no que havia feito. Somente quando conseguiu tirar os olhos dela é que percebeu o silêncio à sua volta. Os garotos que momentos antes o haviam vaiado olhavam para ele com uma expressão incrédula. De repente, perfeitamente consciente do seu feito, Michel mandou uma banana para eles. Foi quando viu o rebatedor vindo em sua direção segurando o taco e com cara de poucos amigos. O grandalhão era um mau perdedor e aquilo era encrenca na certa. Michel, que não se sentia nenhum herói, achou que era o momento de uma retirada estratégica. Mentalmente traçou uma rota de fuga, mas não foi necessário executá-la.
O Grandalhão não tinha dado mais que cinco passos em sua direção, quando foi atingido por uma lata de óleo de cozinha. Não foi um grande estrago, pois a lata estava vazia. Mas aquilo era um recado, e ele sabia de quem. Voltou-se e olhou irritado para Gabriela.
- E aí? – Ela o intimou, com as mãos na cintura.
O moleque devolveu-lhe o olhar de desafio, mas não se moveu. Já tinha tentado enfrentá-la em outra ocasião e o resultado foi um olho roxo e a vergonha de apanhar de uma garota, que só não foi maior porque Gabriela era mais que uma menina. Ela era um deles e todos sabiam disso. Como se isso não bastasse, sempre tinha a turma toda a seu favor. Aquele bando de pirralhos comia na sua mão e a seguia como cachorrinho.
Após alguns segundos, que para Michel pareceram uma eternidade, o rebatedor largou o taco e saiu do campinho sob uma vaia ensurdecedora.
- Jorjão é mariquinha! Jorjão é mariquinha! Tira onda de machão, mas tem medo de menina! – Gritaram em coro, até que ele sumiu atrás da cerca de tábuas que circundava o terreno baldio onde costumavam jogar.
Michel suspirou aliviado, mas sentia-se constrangido por ter sido defendido por uma menina. Sua reputação entre os garotos, que já não era grande coisa, ia sumir de vez.
- Você não precisava ter se metido. Protestou ele, sem muita convicção, ao vê-la aproximar-se.
- Claro que não! – Respondeu ela com veemência.
Ele olhou firme para ela, à procura de algum traço de ironia em suas palavras, mas nada encontrou além do costumeiro olhar firme e resoluto.
- Mas somos parceiros, não somos?
- Sim. – respondeu ele, incerto.
- Além disso, você já tinha sido o herói do jogo. Deixe um pouco de glória para mim. – Ela falou, enquanto observava a turma se dispersar. Já era fim do dia e o sol não tardaria a se pôr no horizonte.
Ele sorriu lembrando o seu feito. Jamais conseguiria repeti-lo, mas ninguém precisava saber disso.
- Foi um grande jogo, não foi?
- Foi apenas um jogo. – Respondeu Gabriela, acostumada com vitórias como aquela. Mas ao perceber a expressão desapontada dele, condescendeu.
- Mas ganhamos! – Exclamou ela, dando-lhe um vigoroso tapa nas costas. – Agora vamos procurar a bolinha para você guardar de lembrança. Onde a largou?
Michel não tinha a mínima idéia. O campinho atrás da base era obstruído por um matagal cerrado. Apesar de rasteiro, em alguns locais onde havia pés de mamonas chegava a atingir dois metros de altura. Pôs-se a procurar a bolinha junto com ela, mas não acreditava que pudessem encontrá-la. Já haviam perdido muitas bolinhas ali, só recuperadas quando o dono do terreno mandava limpá-lo. Todavia, ele só fazia isso após a prefeitura ameaçá-lo com uma multa severa. Apesar disso, Gabriela não era de desistir facilmente e, um momento depois, soltou um grito de triunfo.
- Achei! – Exclamou, sem tirar os olhos de uma mancha amarela entre o verde de uma touceira de capim.
Postando-se de quatro, ela afastou a folhagem com todo cuidado para não deslocar a bolinha. Entretanto, ao tocá-la sentiu que havia algo errado. A bola estava dura e fria. Como se fosse de metal.
- Acho que me enganei. – Falou, enquanto erguia a bolinha para ver melhor. O aspecto parecia o mesmo, mas havia algo errado. Instintivamente Gabriela tentou largá-la, mas não conseguiu. Seus dedos não obedeciam.
- O que foi? – Perguntou Michel, que estava distante alguns metros.
- Não sei. – Respondeu, sentindo a bolinha vibrar na sua mão.
Foi nesse momento que algo extraordinário aconteceu. Sob o olhar incrédulo da menina, a bolinha pareceu ganhar vida. Um par de olhos surgiu e a fitou de modo insolente. Em seguida apareceu uma boca, que se abriu e mostrou-lhe a língua.
- Menina levada! – Disse a bolinha com uma expressão zangada. – Volte para Walka! Volte!
- O quê?
- Volte para Walka! – Repetiu a bolinha. – Seu tempo neste mundo acabou.
A bolinha emudeceu e voltou ao normal, uma mistura de borracha e fibra sintética, sem nenhum vestígio da boca e dos olhos que haviam surgido momentos antes. Nesse ínterim, Michel aproximou-se.
- Você parece ter visto um fantasma.
- Você ouviu?
- O quê? Nossa! Você tá pálida como um lençol. O que aconteceu?
- Não sei. Por um momento achei que a bolinha tava falando comigo.
- Fala sério! – Disse ele irônico. – Você tá parecendo o meu avô quando volta do botequim depois de beber todas.
- Esqueça. – Respondeu ela sacudindo os ombros. Era o seu jeito de dizer que o assunto estava encerrado. Sua natureza prática não tinha muita paciência com coisas que não podia explicar.
- Tome sua bola e vamos embora.
Michel a conhecia o suficiente para saber que não devia insistir. Ia pegar a bola da mão de Gabriela, quando algo lhe chamou a atenção.
-    Viu aquilo?
-    O quê?
-    O mato se mexeu. Tem alguma coisa ali.
-    Onde? Não vi nada.
-    Ali. – Insistiu. – Naquela moita.
-    Deve ser algum gato. – Disse ela, sem interesse.
Michel aproximou-se da moita e, de repente, um vento frio começou a soprar agitando o matagal. Folhas secas e outros detritos subiam em espiral dificultando a visão. Um pedaço de papel amarelo bateu na sua mão e ele o pegou num ato reflexo.
-    O que é isso? – Perguntou Gabriela.
-    Nada. É só um panfleto. – Respondeu, forçando os olhos para ler. – É sobre a inauguração de um sebo na rua do mercado velho.
-    Que lugar estranho para uma livraria. Lá só tem lixo amontoado e ratos. Ninguém mais passa por aquela rua.
-    Aqui diz que os primeiros visitantes ganham um brinde. A inauguração é hoje. Vamos lá?
-    Tá doido? A minha mãe me mata se eu andar naquele lugar. E a sua também!
-    Por favor, Gabi. A gente vai rapidinho. Ninguém precisa ficar sabendo.
-    Não! Não tô a fim de encrenca.
-    Vai perder a oportunidade de achar uns gibis antigos?
Michel atingira o seu ponto fraco. Sua coleção de gibis, herdada do pai, era sua paixão, e ela faria qualquer coisa para aumentá-la.
-    Tá legal. Vamos lá, mas só por um instante. Se eu não encontrar nada de bom, a gente se manda.
-    Ok!
-    Tá ficando mais frio. Acho melhor irmos de uma vez. Quero chegar à minha casa antes do anoitecer.
-    Nem fala. Minha mãe fica p. da vida quando eu me atraso para o jantar.
Gabriela sorriu descontraída. Isso ela podia entender. Horário para voltar para casa era uma implicância de todas as mães, inclusive a sua.
-    Vamos pela rua de baixo, então. Assim, cortamos caminho para a rua do mercado.
-    Tá. – Respondeu ele, com alívio.
Gabriela não disse mais nada, mas Michel sabia o que ela estava pensando e a contragosto concordou. Era melhor não correr o risco de encontrar-se com o Jorjão por algum tempo. O sujeito demoraria a se esquecer daquele jogo e a afronta que havia sofrido.
Apressados, atravessaram a tábua solta na cerca e desceram pela rua do outro lado do campinho.
Quando eles já estavam distante do matagal, o som abafado de passos leves, dissimulado pelo capim rasteiro, indicava que mais alguém, ou alguma coisa, estava ali. Pulava de um lado para o outro como se estivesse dançando.  Soltava guinchos de satisfação e rodopiava freneticamente. Então, repentinamente o redemoinho de vento ganhou força elevando-o acima do solo. Então, ele sumiu sem deixar nenhum vestígio.
Enquanto isso, os garotos chegavam finalmente à avenida principal. A rua do mercado velho ficava cerca de cinco quadras mais adiante. Gabriela caminhava em silêncio, como era de seu hábito. Michel, no entanto, ainda estava eufórico com a vitória no jogo de taco e queria conversar.
- Foi realmente um grande jogo, não foi?
- Sim. – Concordou ela de modo distraído, olhando um casal de namorados do outro lado da rua. A garota a percebeu e escondeu o rosto.
- Aquela não é a Valéria?
- Quem? – Resmungou Michel, mais interessado no seu próprio assunto.
- Aquela. – Apontou. – Ali no muro se agarrando com aquele cara.
Michel levantou os olhos e fitou o casal de namorados, que de tão agarrados, mais pareciam ser uma única pessoa.
- É ela sim. – Concordou ele. – E quem tá com ela é o Gino, não é? Aquele que você ajudou nos trabalhos de matemática.
-É! – Resmungou ela aborrecida.
- O que foi?
- Nada.
Michel ia insistir no assunto, mas o tom enfático dela já lhe era familiar e o fez desistir. Ele conhecia Gabriela há algum tempo, mas havia ocasiões em que não a compreendia. Talvez as garotas devessem vir com manual de instrução, pensava ele nesses momentos.
- Cruzes! Parece que ela quer engoli-lo inteiro. – Observou Gabriela, ao ver o longo beijo trocado pelo casal de namorados.
- Ela tá dando um beijo de língua nele.
- O quê?
- Beijo de língua! Ela tá enfiando a língua na boca do Gino. – Explicou Michel, com a convicção de um grande conhecedor do assunto. – Todo mundo na escola sabe que a Valéria gosta de dar beijo de língua.
- Que coisa nojenta! Eu é que nunca vou deixar alguém botar a língua na minha boca. – Desdenhou Gabriela. – Aquela pirralha assanhada deve pensar que já é adulta.
- Pois para mim ela já parece bastante adulta. Tem uns peitões!...
- Cale a boca! Você ainda não tem idade para ficar reparando nessas coisas. – Falou Gabriela. Exasperada, cruzou os braços sobre o próprio peito, tentando ocultar a ausência de atributos que a outra menina parecia exibir com orgulhosa desenvoltura.
- Ora, eu reparo nisso desde que era um bebê.
- Provavelmente por outra razão. Agora cale a boca e trate de andar mais depressa. Está ficando tarde.
Ela calou-se e Michel, como de costume, tentou respeitar seu silencio. Contudo, percebeu que havia contribuído de algum modo para ela ficar aborrecida e isso, mais que tudo, o desagradou.
 - Gabi? – Chamou, depois de algum tempo.
Gabriela resmungou algo que parecia perguntar o que ele queria.
- Sabe de uma coisa? Eu também nunca vou querer saber de beijo de língua. – Declarou ele, ensaiando uma cômica expressão de nojo não muito convincente.
Gabriela, alguns centímetros mais alta, o enlaçou pelo pescoço sem parar de andar.
- Repita isso quando for mais alto que eu, pirralho. – Falou, dando-lhe um beijo no rosto. Em seguida saiu correndo pela calçada, desafiando-o a alcançá-la.
- Espere para ver! – Gritou ele, respondendo ao desafio. Logo eles eram apenas manchas difusas que viraram a esquina um quilômetro adiante.
Vinte minutos depois, eles estavam diante da loja de livros usados, situada no outro lado da rua. A fachada do prédio não impressionava muito. A parede enegrecida pelo tempo deixava perceber muito pouco da pintura original, enquanto horrendas esquadrias de madeira ordinária e remendos de cimento haviam se incumbido de desfigurar quase completamente aquilo que deveria ter sido um belo sobrado num passado remoto.
No alto da fachada ainda havia vestígios da cornija que, um dia, tinha sido cuidadosamente moldada na argamassa de barro, areia e óleo de baleia. Tudo que se podia perceber agora, no entanto, era uma edificação de aspecto decadente, quase em ruínas, parecendo assombrada por espectros errantes, foragidos de um tempo melhor.
Os garotos olharam para o prédio com uma expressão indecisa. A decadência daquela parte da cidade parecia não querê-los ali. Em qualquer direção que olhassem só conseguiam perceber sinais de que não deveriam estar naquele lugar. Pessoas mal-encaradas os fitavam de maneira hostil e dissimulada. Até o vento, soprando pelas frestas dos prédios abandonados, parecia dizer-lhes para se afastarem dali. Se não fosse pela luz do dia, teriam a impressão de que vampiros e lobisomens sairiam daqueles prédios em ruínas para atacá-los a qualquer momento. Mesmo assim permaneceram onde estavam, como se houvesse algum estranho fascínio naquele lugar, que se sobrepusesse à sensação de que era melhor voltar atrás.
Finalmente, como se atendesse a um impulso, a menina murmurou algo e o garoto aquiesceu com um gesto. Em seguida, eles atravessaram a rua e se aproximaram da porta do prédio.
- Tem certeza que é aqui? – Perguntou Gabriela, olhando a porta empenada. A dúvida era pertinente. Definitivamente, aos olhos deles, aquele lugar não parecia uma livraria recém-inaugurada.
- O endereço confere. – Respondeu Michel, consultando o panfleto.
O texto, impresso em um tipo de letra rebuscado e de difícil leitura, prometia um brinde especial para quem comparecesse à inauguração e o apresentasse na entrada. Tinha também um destaque anunciando uma seção especial dedicada a gibis antigos. Justamente o que convencera Gabriela a ceder aos apelos de Michel, apesar da idéia de vir para aquele lado da cidade não ter lhe agradado muito.
- Não sei, não... A porta tá fechada. Não tem nenhuma placa, nem nada que indique que isso é uma livraria.
- Vai ver que eles não tiveram tempo de pôr placa. Olha lá! Tem um cartaz dizendo que a loja está aberta. – Gritou Michel, apontando a pequena vidraça da janela da porta.
- Cartaz? Mas eu não vi nenhum cartaz!
- Mas agora tem.
- Mas eu tenho certeza que não... Deixa prá lá! – Ela exclamou impaciente.
Michel aproximou-se da porta e olhou para dentro através dos vidros empoeirados da pequena janela gradeada. Seus olhos, entretanto, acostumados com a claridade da rua, não podiam enxergar muita coisa na penumbra do interior da loja.
- Tá escuro lá dentro.
- Vamos entrar. – Disse Gabriela, apoiando-se em suas costas.
- Não empurra pô! – Exclamou Michel, apoiando-se na porta. Ela se abriu um pouco e raspou no assoalho.
- E agora?
- Vamos entrar. – Repetiu ela, empurrando a porta. As dobradiças enferrujadas produziram um desagradável rangido metálico que mais parecia um lamento. Após um segundo de hesitação, eles entraram. Nos fundos da loja soou um gongo anunciando a presença deles.
- Pensando bem, é melhor a gente ir embora daqui. – Disse Michel, assustado com o aspecto tétrico e o cheiro de mofo do interior da loja.
- Vai amarelar agora? É só um gongo. – Retrucou Gabriela. Respirando fundo, ela perscrutou as prateleiras repletas de livros e revistas. Atrás do balcão havia pilhas de publicações em todo o espaço disponível até os fundos da loja.
- Parece que não entra ninguém aqui há séculos. – Sussurrou Michel, como se temesse acordar algum fantasma.
- Fique quieto. Parece que ouvi alguma coisa.
Aos poucos, o som de passos arrastados se tornou mais nítido.
- Tem alguém vindo para cá! – Exclamou Michel, apavorado com a possibilidade de um vampiro surgir da penumbra e pular no seu pescoço.
Com os olhos fixos no corredor formado pelas estantes empoeiradas, eles viram uma sombra se projetar, até que um anão surgiu e olhou para eles. Tinha a pele escura e grandes olhos arregalados. Na penumbra do estreito corredor, aquela criatura não parecia real.  Era uma figura estranha, que se equilibrava numa única perna. Com pulinhos rápidos, e incrivelmente ágeis, a criatura avançou pelo corredor e aproximou-se deles. A claridade esmaecida, proporcionada pela luz que penetrava pela vidraça da porta não ajudou muito o aspecto dele. Parecia ainda mais estranho do que quando estava semioculto na penumbra. Usava uma carapuça vermelha na cabeça totalmente calva. Na boca torta, de lábios grossos e desproporcionais, trazia um cachimbo fedorento, cuja brasa parecia há muito ter se apagado. Ele se aproximou do balcão com um arremedo de sorriso, que punha à mostra os dentes tortos e amarelados.
- Ora, mas que surpresa agradável! Clientes, finalmente.
- Oi. Viemos por causa do anúncio. – Disse Gabriela, esforçando-se para não rir ao ver o anão apoiar o queixo no balcão e olhar para eles com a expressão astuta de um mercador, uma cena que ela lembrava vagamente já ter visto em algum filme antigo.
- Sim, a inauguração. Infelizmente estou atrasado com os preparativos. Como vêem, ainda há muito por fazer. – Disse o anão, indicando as pilhas desordenadas de livros e revistas.
- Então voltaremos outro dia. – Falou Michel, dando meio volta.
O anão soltou um risinho esganiçado.
- Bobagem! Isso aqui nunca estará completamente ordenado mesmo. O que é um sebo, sem um pouco de poeira, ácaros e bagunça, não é mesmo? Aproximem-se garotos. Não tenham medo, não vou devorá-los.
- Promete? – Retrucou Michel, fazendo troça do próprio medo.
- Sim, sim! O médico me proibiu de comer entre as refeições.
Gabriela e Michel olharam um para o outro, não muito convencidos.
- Sejam bem vindos ao meu humilde estabelecimento.
- Quem é você? Perguntou Michel, sem muita sutileza, escondendo-se atrás de Gabriela.
- Eu me chamo Icas. Um humilde livreiro, ao seu dispor. – Declarou o anão em tom solene.
Michel percebeu o significado do anagrama, mas pensou estar imaginando coisas e preferiu ficar calado. Aquele sujeito era muito estranho e talvez fosse melhor não abusar da sorte.
- Então, meus jovens? O que posso fazer por vocês?
- Queríamos conhecer a loja. – Falou Gabriela, finalmente.
- Excelente. É sempre um prazer ver jovens interessados em ler. A leitura abre a mente, vocês sabem. Pode transportar-nos para outras épocas, outros mundos. Disse o anão com os olhos arregalados e insanos. Amedrontado, Michel recuou alguns passos.
- Entrem, entrem. – Convidou Icas, abrindo a portinhola do balcão. – Não devemos deixar os livros esperando.
- Acho que já é muito tarde. – Balbuciou Michel, sem apreciar muito a idéia de andar por entre aquelas prateleiras seguindo um anão de aspecto sinistro que, ainda por cima, parecia um saci.
- A gente volta outro dia. – Concordou Gabriela. Algo que não era muito freqüente, mas ela estava tendo um mau pressentimento. Não era de se impressionar facilmente, mas tanto o anão, quanto aquele lugar lhes causava arrepios.
- Bobagem. Só levará alguns minutos. Além do mais, vocês já se deram ao trabalho de vir até aqui, onde vão encontrar preciosidades que não existem em nenhum outro lugar. Entrem e ouçam os livros. Eles falarão com vocês, se souberem escutá-los. Mas... Isso você já sabe, não é queridinha?
Aquilo era muito estranho. Gabriela sempre fantasiara a possibilidade dos personagens dos livros que lia falarem com ela, mas nunca havia contado isso para ninguém.
- Vamos, entrem. Não tenham medo de Icas e seus livros. – Repetiu o anão em tom persuasivo.
Após uma breve hesitação, eles atenderam ao convite.
- Está bem, mas só um pouquinho. – Declarou ela, já querendo voltar atrás.
- É apenas um momento. – Prometeu o anão. –Um breve momento, mas que poderá mudar toda a sua vida... Pelo menos a vida que você conhece. – Completou Icas, soltando novamente a sua risadinha esganiçada e sinistra.
Gabriela sentiu um arrepio ao ouvir aquelas palavras, como se elas pudessem encerrar uma previsão sombria. Mudanças nem sempre eram bem vindas em sua vida, visto que algumas delas significaram perdas dolorosas. Desde a morte de seu pai, ocorrida após uma longa batalha contra um câncer linfático, jamais havia deixado de tentar controlar os acontecimentos. Tentar deter o controle das situações que vivia fazia parte de sua natureza desde que tomara consciência da fragilidade da existência.
- Aqui vocês encontrarão gibis antigos, livros e revistas de todos os lugares e de todos os tempos. – Falou Icas com a pompa de um grande mercador.
- Tem gibi de terror antigo? Perguntou Gabriela, pensando nas histórias que o seu pai lhe contava, para desgosto de sua mãe, que nunca desistia de lhe incutir o gosto pelos clássicos da literatura juvenil. Algo que conseguia eventualmente, apesar da concorrência desleal das histórias em quadrinhos, que era uma influência paterna.
- Mas claro. – Exclamou Icas, procurando uma estante com o olhar. Ao localizá-la, arrastou um tamborete e pulou sobre ele com uma agilidade que já não surpreendia. – Veja só que preciosidades. O seu pai iria adorar.
Novamente o anão agia como se conhecesse seus segredos mais íntimos. Embora estivesse pensando no seu pai, ela nada tinha falado. Ou tinha? Deve ter sido apenas coincidência, pensou. Devia estar se deixando levar pela imaginação provocada pela estranha atmosfera daquele lugar e pela presença daquele sujeitinho esquisito.
- Temos Kripta do Terror, Terror Negro, Drácula, Mirza, Frankstein, a Múmia, Lobisomem... E outros que nem eu conheço. – Falou Icas, puxando os exemplares da prateleira e pondo nas mãos de Gabriela.
- Acho que já chega. – Disse ela, temendo que ele transferisse toda a estante para suas mãos. Já tinha o bastante para despertar seu interesse. Encostou-se a uma estante e pôs-se a olhar as capas dos gibis. Sem conseguir decidir-se qual levar, lamentou ter trazido pouco dinheiro.
Aquelas revistas, com suas capas coloridas e títulos chamativos, tinham o poder de evocar-lhe momentos felizes de um passado recente, quando ela e seu pai se esparramavam pelo sofá da sala com uma pilha de gibis em uma silenciosa cumplicidade.
- Tem algum gibi do Flash Gordon? – Perguntou Michel.
Ele costumava freqüentar as sessões de leitura na casa de Gabriela. Nessas ocasiões tomou gosto pelas revistas antigas que o pai dela costumava levar para casa e, sem confessar para ninguém, tornou-se um fã entusiasmado das curvas vertiginosas de Dale Arden, descoberta nos gibis do aventureiro espacial criado por Alex Raymond em 1934.
- Naturalmente, meu jovem. – Respondeu Icas, com uma gentileza fria e calculada. – O que você não encontrar aqui, não existe em qualquer outro lugar.
Mudando de estante, o anão começou a puxar as revistas.
- Puxa! – Exclamou Michel, lendo os títulos que lhe caíam às mãos. – O Globo Juvenil, Mandrake, Ferdinando, Fantasma, Brucutu...
- Flash Gordon, você disse? Aqui está. – Disse Icas segurando a revista.
Ignorando a mão de Michel estendida, o anão começou a folhear o gibi.
- Eu gosto muito dessa história – Disse ele, com satisfação. A noiva do Flash foi raptada pelo imperador Mingo. Você gosta de Dale Arden, não gosta garoto?
- Hã? Sim. – Respondeu Michel, surpreso. O sujeito parecia ler os seus pensamentos e aquilo o incomodou.
- Que curvas! – Exclamou Icas, sem se importar com o seu constrangimento.
- E o brinde? – Perguntou Michel, mudando de assunto.
- Brinde?
- Sim. O panfleto prometia um brinde especial para quem visitasse a loja hoje.
- Ah! Sim, o brinde.
- Uma carapuça como essa seria legal. – Disse Michel, estendendo a mão para a cabeça de Icas.
- Não toque nisso! – Exclamou o anão, furioso.
Assustado, Michel encolheu-se contra a prateleira às suas costas. Entretida com uma revista de terror, Gabriela nada percebeu.
- O brinde que tenho para vocês é outro. – Falou Icas, subitamente conciliador. – Deixe-me encontrá-lo.
Com seus pulinhos ligeiros, o anão avançou pela parte escura do corredor e desapareceu atrás de uma prateleira.
- Após seiscentos anos, eu ando um pouco esquecido.
- Ele está só brincando. – Disse Gabriela, que finalmente tomou conhecimento do olhar assustado de Michel.
- E você, princesa? Não está interessada no brinde? – Perguntou Icas, retornando com uma pequena caixa plástica nas mãos.
- Claro que estou! – Exclamou ela, sem tirar os olhos da revista. – Qual é o nosso brinde? Espero que não seja um anel de plástico.
- Anel de plástico? Não, não... O que tenho para vocês é algo especial, acreditem. – Disse, e estendeu a caixinha para ela. – Aqui está o brinde, com os cumprimentos da casa.
- O que é isso? Perguntou Gabriela, sem se mover.
- O que é isso? – Repetiu Icas, com uma expressão velhaca. – Isso, minha jovem, é apenas o DVD do melhor jogo de RPG para computador jamais produzido em todos os tempos.
- Um jogo de RPG? – Gritou Michel, entusiasmado. Com um movimento rápido ele arrebatou o estojo plástico das mãos do anão, já completamente esquecido da razão de ter ficado assustado momentos antes.
- Ora! Vejo que temos um conhecedor aqui. – Disse Icas, ocultando uma breve irritação, que se desvaneceu num sorriso torto.
- Zaphir. Falou Gabriela, lendo por cima dos ombros de Michel.
- Nunca ouvi falar desse jogo. – Disse Michel, desvencilhando-se de Gabriela.
- Naturalmente. Não existe outra cópia.
- Se este jogo é tão bom, por que nunca foi comercializado? Perguntou o garoto, que entendia realmente do assunto e sonhava se tornar um criador de jogos eletrônicos.
- Porque esse não era o propósito do seu criador, acredito. Talvez ele o tenha desenvolvido para o seu próprio deleite. Quem pode saber o que se passa na cabeça desses malucos? O fato é que o sujeito nunca autorizou nenhuma cópia.
- Talvez um dia ele mude de idéia. – Disse Gabriela.
- Não creio que isso seja possível. O criador desse jogo não está interessado nas possibilidades mercantilistas deste plano existencial.
- Como este DVD veio parar em suas mãos? – Perguntou Michel.
- Ele me foi dado em troca de uma antiga dívida, digamos assim.
- Então o jogo lhe pertence. Por que você não o comercializa? Isso aqui pode valer uma fortuna.
A expressão de irritação voltou aos olhos de Icas. Sentiu vontade de destroçar o garoto, mas isso poderia por tudo a perder. Então, ainda que com certo esforço, conteve sua ira.
- Tenho minhas razões para não contrariar os desejos do criador. Sei que estou perdendo dinheiro, mas no fundo... Bem lá no fundo, sou um sentimental, sabem? E depois, a posse do DVD não me torna o possuidor do jogo, não é mesmo? Além do mais, é impossível fazer cópias dele. – Completou enfático.
Era uma explicação plausível. Contudo, Gabriela duvidava que aquele estranho anão fosse tão virtuoso quanto se esforçava por parecer, a despeito de sua fisionomia claramente velhaca.
- Tem razão. – Condescendeu, achando melhor encerrar o assunto. Escolhendo três das revistas que havia visto, ela perguntou quanto devia.
- Eu quero estas três. – Falou Michel, mostrando as revistas que havia escolhido.
- Vejamos... Nove e cinqüenta. – Respondeu Icas, após um rápido cálculo mental.
- Só? – Exclamaram quase em coro. Aquelas revistas antigas deviam valer pelo menos cinco vezes mais.
- Promoção de inauguração.
- Legal! – Exclamou Michel, escolhendo mais uma revista.
Enquanto ele pagava, Gabriela dirigiu-se para a porta. Sentia uma necessidade urgente de sair dali.
- Ei! Espere por mim. – Gritou Michel, vendo-a passar pela porta.
- Parece que sua amiguinha está com pressa. – Comentou Icas, com um sorriso torto.
- Mulheres! – Exclamou o garoto, antes de sair atrás dela.
Quando estava passando pela porta, ouviu a advertência de Icas.
- Lembre-se que não deve tentar copiar o jogo. O resultado pode ser desastroso para seu equipamento, para dizer o mínimo.
- Está bem. Respondeu Michel, que já imaginava uma forma de quebrar a trava contra cópias indevidas.
Piscando os olhos com a claridade da rua, ele foi ao encontro de Gabriela. Ela o esperava impaciente do outro lado da rua.
- O que deu em você? – Perguntou, sem entender a atitude dela.
Sem responder, ela começou a andar.
- Tem algo de sinistro nesse lugar. – Disse depois de olhar novamente o sobrado, que foi ficando para trás.
- Também senti isso, mas você não parecia tão assustada lá dentro.
- Tem coisas que eu sinto às vezes.  Coisas que você não iria compreender.
- Isso eu posso entender. O sujeito parecia um personagem de filme de terror.
- Aquele lugar todo parece ter saído de um pesadelo. Eu senti um calafrio quando entrei. Era uma sensação ruim, mas logo passou. Quando o anão trouxe o DVD, voltei a sentir a mesma coisa, só que mais forte.
- Acho que você ficou muito impressionada com o anão.
- Eu? Fala sério! Você é que estava se borrando de medo daquele duende.
- Ele parecia um saci, isso sim. Com aquela carapuça vermelha e cachimbo na boca...
- É mesmo! Ainda por cima o infeliz era perneta. Só faltava ele se chamar Saci.
- Não faltou.
- Como assim?
- Icas é saci ao contrário, não percebeu?
- Credo!
De repente um vento frio começou a agitar os galhos das árvores próximas. Eles apressaram o passo e se afastaram rapidamente da rua do mercado velho. Imersos em seus próprios pensamentos, eles seguiam em silêncio. Cada um por seus próprios motivos.
Michel recordava o jogo de taco. Para ele, nada mais importava tanto quanto o sabor daquela vitória. O fato de saber que aquela façanha dificilmente se repetiria era um mero detalhe. Esse tinha sido o seu dia de glória e nada nem ninguém lhe tiraria isso.
Gabriela caminhava com passos firmes e apressados, mas seus pensamentos também estavam longe dali. Quando criança via coisas que os outros não viam. Como ninguém acreditava no que dizia, parou de falar sobre essas coisas. À medida que foi crescendo, ela deixou de vê-las e esqueceu-se disso. Agora parecia que tudo voltava e ela estava confusa. Tinha muito em que pensar.
No horizonte, a luz do sol recortava a silhueta das colinas e lançava sombras alongadas que avançavam rapidamente ao encontro da noite que se aproximava.
Algumas quadras antes, na rua do mercado velho, o sobrado ocupado pela loja de livros usados dava a impressão de estar ainda mais velho e decadente. Sua porta, antes empenada, estava pendurada apenas por uma das dobradiças, cujos parafusos enferrujados pareciam querer sair da madeira carcomida pelos cupins e pelo tempo. Nada havia no seu interior, além de alguns trastes, poeira e lixo espalhados no assoalho apodrecido. Não havia sinal das estantes repletas de livros e revistas. Nem tampouco qualquer vestígio de Icas, o livreiro anão.
O sobrado não estava totalmente vazio, entretanto. Nos cantos quase totalmente escuros havia sombras que pareciam mover-se livremente pelas paredes, desvanecendo e dando lugar a outras que surgiam do nada, como um caleidoscópio de imagens monocromáticas. Com efeito, parecia não haver nenhuma presença física, mas algo estava ali, intangível e maligno.