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Os Lobos - Parte Um



Ele ouviu seus passos bem antes de ela se aproximar. Eram passos leves e apressados, de alguém que continha o impulso de correr a muito custo. Ela estava com medo, mas parecia não querer admitir isso para si mesma. Sua pulsação levemente acelerada indicava que seus sentidos estavam alerta, embora ainda não tivesse se dado conta da presença dele tão próxima de si.
Confiante, ele a deixou passar sem se fazer notar. Apenas aspirou seu odor e conteve, por sua vez, um suspiro de satisfação. Ela estava pronta,
como lhe tinha sido prometido. O cheiro corporal que a fêmea exalava não indicava apenas o receio que sentia por transitar naquele caminho desolado. Havia uma nota de excitação, ele percebia. Era como se ela já esperasse ser encontrada. Se ela tinha consciência de tudo isso ele não saberia dizer. Talvez seus instintos já contivessem o roteiro que era de seu destino cumprir. Essa era uma questão que não lhe importava, todavia. Tinha sua própria natureza a guiar seus passos no cumprimento da sina que lhe cabia e que, por sua vez, cruzaria a linha do destino dela em algum momento, uma vez que esse era o fado que ambos carregavam.

Ela pensou ter ouvido ruído, mas não conseguiu identificar o que seria. Nem mesmo tinha a certeza de tê-lo realmente escutado, pois seus sentidos estavam todos tão excitados que poderiam facilmente levá-la ao engano e imaginar coisas. O fato é que estava realmente assustada ao percorrer aquele caminho totalmente só. Cada sombra que via, cada arbusto que se remexia e rangia, parecia anunciar uma ameaça preste a se concretizar.
Para afastar o medo que sentia, ela começou a recitar antigos poemas aprendidos na infância, como se o som da própria voz tivesse o dom de exorcizar as ameaças que poderiam cruzar seu caminho. Entretanto, como se o destino estivesse a caçoar de seus temores, o casaco que usava prendeu-se num arbusto e ela soltou um grito abafado.
Passado o susto, ela percebeu aborrecida que havia rasgado a ponta do casaco, que se enroscara no arbusto. Ficou imaginando a bronca que levaria de sua mãe pelo descuido. O casaco tinha sido um presente de sua avó, e ela o tinha adorado desde que o vira. Tinha um lindo capuz e sua cor vermelha contrastava com os seus longos cabelos escuros, negros como a noite que havia chegado tão rapidamente.
Depois de ajeitar novamente o capuz na cabeça, ela segurou a cesta que trazia e apressou o passo. Ainda tinha um longo caminho a percorrer até chegar à casa de sua avó. Ainda não entendia o porquê de sua mãe insistir para que percorresse aquela trilha sozinha, quando seria certo que a noite a alcançaria antes de chegar ao seu destino. Certas atitudes dos adultos pareciam teimar em manterem-se afastadas de sua compreensão, mas ela intuía que havia algo mais naquela história de “levar doces para a vovozinha”. Se sua mãe estava tão preocupada com a vovó, por que diabos deixava a velhinha solitária naquela cabana no meio da floresta? Por algum motivo desconfiava que estivesse próxima de descobrir a razão disso, mas não saberia dizer se estava com medo. Em meio ao possível temor pelo desconhecido havia uma excitação que ela também não compreendia, e que parecia ter a origem em sua própria natureza. Aquela pequena jornada até a cabana da sua avó, no recôndito da floresta, parecia ter algo a ver com a busca e a compreensão de si mesma. Contudo, a percepção disso não lhe garantia que gostaria do que viesse a descobrir.
O estalo do galho seco ecoou na noite de forma tão nítida que ela não poderia deixar de perceber. Estaria sendo seguida ou o ruído foi inadvertidamente provocado por alguma criatura da floresta? O fato de haver criaturas ocultas na escuridão da noite não era de modo algum tranquilizador, mas preferia pensar que fosse apenas um animal inofensivo incomodado com a presença dela. Todavia, nem sempre o que desejamos é o que efetivamente acontece. Ela o viu quando olhou para trás mais uma vez.
Era um lobo enorme, como nunca tinha visto antes. Sua pelagem cinza conseguia contrastar com a escuridão. Ela apressou-se e rogou aos deuses antigos que o animal não estivesse caçando. Os lobos, normalmente, preferem evitar encontros com humanos, a menos que já tivessem adquirido certos hábitos gastronômicos, o que também não era incomum naquela região.

Ela não olhou mais para trás, mas percebia sua aproximação. Talvez se ignorasse sua presença e fosse em frente. Era uma esperança idiota, ela sabia. Então, sem conseguir se controlar, pôs-se a correr quando ouviu um rosnado. Apavorada, ela tropeçou e caiu de bruços na relva molhada do sereno. Já não havia mais tempo para os deuses atenderem seu clamor. Tudo o que podia fazer era se deixar levar pelo trágico destino que se anunciava.
O lobo se aproximou. Ela não se mexia e, por um segundo, ele temeu que ela tivesse se ferido na queda. Não a queria, de modo algum, machucada. Todavia, logo a fera se tranquilizou. Seus sentidos lhe diziam que a menina estava apenas assustada.
Contendo sua própria excitação, o lobo a farejou com mais vagar, desejando prolongar aquele momento. Tocou suas coxas com o focinho úmido e ela estremeceu ao sentir o contato dele em sua pele. Era esse o momento pelo qual tanto ansiava, quando seus instintos finalmente se comunicariam.
Quando ela percebeu que ele a tocava, sentiu-se desfalecer por um breve momento. Um arrepio percorreu seu corpo carregado de sensações que não poderia descrever. O medo cedia lugar a uma excitação tão intensa quanto desconhecida e ela queria mais. Ansiosa, esperou que ele a tocasse novamente. Todavia, ele se afastou, para sua consternação.
Depois de um momento, ela se virou e olhou para ele. O Lobo estava sentado a alguns metros dela e a contemplava de um modo que lhe parecia insuportavelmente distante. Ela enfrentou seu olhar, como se ambos estivessem a medir forças. Aquele instante pareceu durar uma eternidade, até que o lobo, aparentemente cansado daquele jogo, desapareceu na mata que margeava a trilha.
Ela suspirou profundamente. Passada a excitação, tentou entender o que tinha acontecido. Embora fosse jovem e inexperiente, sua própria reação diante da fera selvagem não lhe parecia algo que poderia considerar dentro dos padrões que lhe haviam sido incutidos como normais. Todavia, tinha argúcia suficiente para considerar aquela pequena jornada na floresta como algo totalmente além de qualquer parâmetro de “normalidade”. Já lhe era natural sentir que aquele encontro estranho era permeado de segredos e significados, para os quais ainda não tinha uma compreensão plena, mas intuía que sua querida vovozinha tinha as respostas que desejava. Então se levantou, ajeitou o capuz de seu casaco na cabeça e pegou a cesta de doces. Resoluta, seguiu pela trilha em passos rápidos e decididos.

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