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A História do Coveiro Pé Redondo



Texto baseado nos arquivos de Belial
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Ele estava ansioso. Suas mãos suavam mais do que de costume, e seus dentes sentiam a pressão das mandíbulas firmemente cerradas. Apesar disso, manteve-se firme no seu propósito de encontrar-se com a garota. Eles não se conheciam pessoalmente, mas ela apaixonara-se por suas cartas e concordara com o encontro.
Ele era bom com as palavras, mas sabia que isso não seria suficiente. Teria que se esforçar muito para que a garota não desistisse depois que o conhecesse pessoalmente. Com amargura, olhou o pé direito calçado com uma botina especialmente feita para ele. Tinha um defeito congênito, que o fazia se parecer mais com a pata de um bovino do que um pé humano e terminava em unhas grossas e curvas, que mais pareciam as garras de alguma criatura mítica.

Aquele pé defeituoso também havia moldado a alcunha que recebeu dos moradores da pequena cidade onde morava: Pé Redondo! Ele era chamado por esse apelido há tanto tempo, que o nome de batismo só lhe vinha à mente em ocasiões formais, quando precisava identificar-se. Fora isso, Pé Redondo era como atendia ao ser chamado.
É certo que o defeito no pé, assim como a alcunha que lhe fora imposta por alguma língua ferina do lugar, acabaram condicionando sua forma de ver o mundo ao redor. Sentia-se excluído e solitário e, na maioria das vezes até apreciava isso. Contudo, a solidão pesava em outros momentos. Quando isso acontecia, ele tentava aproximar-se das pessoas, mas não demorava para ser alvo das costumeiras chacotas. Então voltava para o seu mundo solitário. Em algumas ocasiões, suas reações eram raivosas e ele tornava-se violento. Seu porte físico avantajado tornavam essas ocasiões de fúria um risco sério de se transformarem em acontecimentos trágicos. Por conta disso, foi preso inúmeras vezes, mas sempre se safara por algum detalhe.
Agora ele estava ali, sentado à mesa de uma lanchonete, na expectativa do seu primeiro encontro romântico. Para evitar que a garota se assustasse, chegou bem antes e sentou-se para esperá-la. Enquanto ela não chegava, bebeu. Enquanto bebia, refez tudo que ia dizer para a garota. Todavia, ela se atrasou, e ele reviu mais do que tinha para rever e bebeu mais do deveria ter bebido.
Quando ela finalmente chegou, ele estava tão bêbado que, tudo o que conseguiu era ficar olhando para ela com uma expressão idiota na face. A garota logo percebeu que havia algo estranho com ele, mas mesmo assim, sentou-se. Todavia, como costuma acontecer nessas ocasiões, o que tinha para dar errado, deu! Alguém o reconheceu ali sentado e deu início à chacota.
- Olha lá, não é o Pé Redondo? – Disse o gaiato.
- É mesmo. – Respondeu um outro. – Parece que arrumou um encontro. – Será que ela já viu sua patinha?
- Vai, Pé Redondo! Mostra a sua patinha pra ela. Mostra. – Disse o sujeito, chegando perto de sua mesa.
- Quem sabe ela quer ver outra coisa. – Disse o segundo, ao mesmo tempo em que fazia um gesto obsceno.
A garota se assustou. Finalmente deu-se conta de que eles eram alvo de chacota e fez menção de levantar-se.
Pé redondo reagiu com ódio e ordenou que ela permanecesse sentada. Em seguida investiu contra os baderneiros com tamanha fúria, que só a polícia o conteve, depois de muita pancada e narizes quebrados. A lanchonete também não ficou intacta, para desespero do proprietário. Quanto à garota, ela foi suficientemente esperta para aproveitar a confusão e sumir dali. Soube-se, depois, que mudou de endereço e nunca mais foi vista na região.
Depois daquela briga, Pé Redondo foi preso e condenado por desordem, danos à propriedade alheia, resistência à prisão e tentativa de homicídio. Não era pouca coisa para o seu currículo já um tanto comprometido pelas outras ocorrências já mencionadas. Por conta disso, ele amargou na prisão por um bom tempo, até que foi liberado para trabalhar no necrotério de um hospital, por conta do seu bom comportamento. Foi aí que outra fase de sua vida se iniciou.
Certa noite, o necrotério recebeu o corpo de uma jovem que suicidou-se por envenenamento. Pé redondo estava de plantão e, durante aquela noite, passou muitas vezes pelo cadáver da jovem, por conta de seus afazeres. Em cada uma dessas passagens, uma ideia germinou em sua cabeça, até que ele parou diante da defunta. Olhou para ela e viu que era bonita e, se estivesse viva, nunca teria a coragem de aproximar-se dela. Também era certo que a jovem o repeliria sem dó nem piedade.  Porém, naquele estado, ela estava à sua mercê e nada podia fazer. Apesar disso, ele saiu muitas vezes de perto da bela defunta, ainda indeciso sobre pôr em prática o que pretendia. Esse vai e volta se prolongou por mais algum tempo, até que os anos de rejeição e solidão conseguiram minar seus escrúpulos
Depois de certificar-se que era o único ser humano vivo naquele prédio, ele começou a despi-la. Em cada peça de roupa que conseguia tirar da jovem, sua respiração se acelerava numa ansiedade crescente. Ela era ainda mais bonita do que ele esperava, e o melhor de tudo era que não iria rejeitá-lo. Finalmente teria alguém para si, mesmo que fosse por apenas uma noite. Ainda tremendo de tensa ansiedade, ele despiu-se freneticamente e acomodou-se como pôde sobre ela. A rigidez cadavérica não o incomodou, como chegou a temer. Antes parecia excitá-lo ainda mais.
Aquele ato pervertido e insano durou quase a noite toda, mas antes do amanhecer, o cadáver estava impecavelmente recomposto. Durante algum tempo, ele aquietou seu espírito e não repetiu o ato que praticara. Pé Redondo jamais se questionou sobre aquilo, mas julgava que não faria de novo. Ele estava enganado. Depois da primeira vez, os freios morais, que talvez ainda tivesse, se dissolveram.
Nos anos que se seguiram, ele voltou a praticar a necrofilia em todas as ocasiões em que a oportunidade se apresentou. Em cada uma delas, sentia-se renovado e socialmente capaz. Aquelas mulheres mortas se submetiam à sua vontade, sem jamais questioná-lo. Aos poucos ele se sentia possuir alguma espécie de poder sobre elas, como se ainda estivessem vivas, mas incapazes de resistir à sua vontade.
Com o passar do tempo, surgiram rumores sobre ele, que foram abafados pela direção do hospital. Todavia, o caráter recorrente daquelas manifestações provocou uma investigação interna, que culminou em sua demissão. Naturalmente, por interesse do próprio hospital, o processo foi conduzido de modo muito discreto. Isso livrou Pé Redondo de voltar para a cadeia. Algum tempo depois, ele tornou-se coveiro do Cemitério Municipal. A oportunidade surgiu em razão da ausência de outros interessados, mas isso pouco lhe importava.
Depois de um período em que se manteve quieto, ele voltou às suas práticas abomináveis, até que foi surpreendido pelo vigia noturno do cemitério naquela ocasião. Alguns dias depois, durante a noite, ele atacou o vigia e o deixou gravemente ferido. Com esse último ato, Pé Redondo assumia de vez um comportamento psicótico e, sem se importar com as consequências, voltou à ativa em suas práticas de necrofilia. Em sua derradeira tentativa, ele foi novamente surpreendido. Dessa vez, por um segurança armado, que não hesitou em despachá-lo para o além. Era o triste fim de Pé Redondo, cuja vida não valeu à pena ser vivida.
Como costuma acontecer com os que morrem por atos de violência ou acidente, o recém desencarnado espírito de Pé Redondo demorou a perceber que já estava morto. Nessa condição, vagou pelo limbo, até ser recolhido por Voz Cavernosa. Ele não poderia saber, mas sua dívida no inferno já estava bem elevada, por conta das mulheres mortas que molestara.
Em razão de Pé Redondo ter sido punido pelo rito sumário e atirado no poço do mundo inferior, estes registros foram feitos por mim, a posteriori, por solicitação da entidade demoníaca conhecida como Belial, cujas razões desconheço.
Por último, cumpre-me ressaltar que estas notas foram feitas com toda a impessoalidade que requer um documento desta natureza, malgrado meu próprio envolvimento no caso.