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Voz Cavernosa - Parte 2

Ele era português de nascimento, mas isso pouco lhe importava. Bento era o seu nome, mas ele pouco ligava para isso também. Wazinga, o demônio, era como preferia ser chamado. Esse era o seu nome de guerra num dialeto obscuro do interior africano, mas reconhecido em toda a África. Também era conhecido assim nos navios negreiros que costumavam encher os porões com escravos, na costa de Angola, no século XVII. De todos os traficantes de escravos para o Brasil-colônia, ele era de longe o mais cruel e violento. Em sua busca incansável por acumulação de riqueza, causava terror até mesmo entre seus aliados ocasionais.
 Dizia-se, nos rincões remotos da África Negra, que Wazinga era iniciado em certos cultos dedicados aos deuses do caos e da escuridão. Se isso tinha algum fundo de verdade, seria difícil dizer. O fato é que os boatos que o precediam em suas incursões, o dotavam de uma aura sobrenatural, que impunha o medo onde quer que fosse.

Em sua sanha por capturar homens nascidos livres, para convertê-los escravos destinados aos produtores de cana de açúcar do Novo Mundo, Wazinga não conhecia limites. Não foram poucas as aldeias arrasadas pelo bando de carniceiros que estava sob seu comando. Em sua conta se atribuía um número incalculável de assassinatos, estupros e, até mesmo, a prática de canibalismo e sacrifícios humanos, segundo alguns cronistas da época. Contudo, essas fontes carecem de credibilidade, dado o costume que tinham em exagerar os fatos e distorcê-los em favor de suas narrativas mirabolantes, ou interesses daqueles a quem serviam.
No primeiro quarto do século XVII, a fama de Wazinga se estendia por todos os quadrantes do continente africano e costa da América, desde o Brasil até o sul dos Estados Unidos. Também era muito conhecido em Portugal, cujos menestréis cantavam seus feitos na corte, para deleite das cortesãs entediadas, e desdém dos nobres que orbitavam em torno de Dom João V, que reinava em terras lusitanas na época em que se situa esta narrativa.
No entanto, apesar de toda a mítica que se formou em torno de seu nome, e seus feitos, Wazinga um dia sumiu. Por volta de 1730, ele desapareceu de repente das rotas dos navios negreiros. Na costa de Angola ninguém mais sabia de seu paradeiro. Era como se tivesse sumido no ar, sem deixar rastros.
O sumiço misterioso do traficante de escravos contribuiu para aumentar ainda mais as lendas que se criaram em torno dele. Entre elas dizia-se que tinha realmente um pacto com o diabo. Talvez fosse verdade. Isso poderia explicar muitas coisas a seu respeito. Contudo, o que realmente aconteceu tinha uma explicação bem mais prosaica. Wazinga havia feito muitos inimigos na Europa, e sua cabeça foi colocada a prêmio pelo rei de Portugal. Dizia-se que isso se devia à pressão exercida pela Igreja Católica, que não via com bons olhos sua intromissão em certos negócios ligados à escravização de índios no Brasil.
Para escapar das perseguições, ele mudou-se secretamente para o interior da Colônia, com um pequeno séquito de parentes e uma centena de escravos escolhidos à dedo. Seu objetivo, além de escapar do longo braço da coroa portuguesa, era também os garimpos de ouro em Minas Gerais e Mato Grosso, que haviam consolidado um novo ciclo econômico na região. Após uma longa jornada, por rotas até então desconhecidas, ele estabeleceu-se nas cercanias do pantanal mato-grossense e logo impôs seu domínio aos nativos e os poucos brancos que ali viviam.
Durante vinte anos, ele ergueu um pequeno reino escondido na mata, onde tornou-se um déspota quase absoluto. Sua riqueza advinha não apenas do garimpo, do qual era dono de muitas lavras, mas também do contrabando e sonegação de impostos à coroa portuguesa. Tais atividades, é claro, não passaram desapercebidas. As autoridades do Brasil-colônia, à mando de Dom João V, movimentaram um grupo de bandeirantes à procura do arraial de Wazinga, embora sua existência fosse, para muitos, apenas uma lenda.
Contudo, as engrenagens do destino preparavam outro caminho para ele. Apesar da riqueza já acumulada, e das ameaças que pairavam sobre seu pequeno feudo, seu temperamento continuava hostil e cada vez mais violento. Nada escapava do seu controle e, até mesmo sua família e parentes mais próximos não estavam livres de sua tirania. O escravos sob seu domínio comiam o pão que o diabo amassou, e estavam sujeitos à toda sorte de perversão. Wazinga engravidou quase todas as escravas que tinha. Desse seu instinto perverso não escaparam nem mesmo suas descendentes diretas, e as consequências disso foi a ocorrência eventual de nascimentos com defeitos congênitos. Esses rebentos já nasciam condenados, pois eram executados assim que surgiam para o mundo.
Por volta do vigésimo ano de sua vinda para o Brasil, o tirano contraiu uma doença misteriosa e adoeceu. Nenhuma panaceia ou ritual de cura deu conta de livrá-lo daquela moléstia. Era como se o diabo houvesse decidido cobrar sua dívida e o chamava para si. Wazinga definhou lentamente e viu a satisfação estampada nos olhos daqueles que tinham vivido sob seu jugo. Em sua mente febril, as hienas preparavam-se para o festim
Quando finalmente a morte o colheu, Wazinga estava só. Ninguém se dispôs a fazer-lhe companhia em suas últimas horas como vivente. Não havia nenhum pesar pela sua morte. Ninguém chorou por ele. Ao contrário, houve sim, muita comemoração no arraial quando isso ocorreu.
O que aconteceu durante seu passamento, só ele percebeu. A morte o manteve preso ao corpo e ele teve consciência de tudo o que lhe ocorria. Sentiu quando seu corpo esfriou e começou a enrijecer. Também ouviu seus parentes discutindo sobre a herança que deixara, enquanto o carregavam para ser enterrado. Aqueles imprestáveis ficariam com tudo que ele construíra e isso era um desgosto que ele não queria ter, mas nada podia fazer. Para onde iria, seus bens de nada lhe valeriam, mas ele tinha conseguido pregar uma última peça naquele bando de chacais. Seu ouro, a enorme quantidade de ouro que acumulara durante toda a sua vida, foi escondida no interior da mata por escravos. Os carregadores foram mortos depois, para impedir localização daquele tesouro por seus herdeiros ou qualquer um que ambicionasse encontrar sua fortuna.
Um pequeno cortejo levou o corpo de Wazinga até sua morada final, uma cova rasa no interior da mata que circundava o arraial. Ali, seu espírito ainda preso ao corpo, sentiu os vermes comerem sua carne até que nada mais restasse, além de ossos e um chorume que contaminou o solo ao seu redor. Durante anos, nada nasceria ali.
Com o fim dos seus despojos, o espírito de Wazinga finalmente se libertou e foi para o limbo, onde vagou em companhia de outras almas penadas por um tempo impossível de dimensionar. Quando achou o caminho para o mundo inferior e desceu, ele já não lembrava que tinha sido humano. Uma aura maligna se impregnou em sua alma e sua essência imortal se dissipou.
Ele foi tocado por um mal tão antigo, que já existia antes que o homem caminhasse sobre a Terra. Depois disso, sua existência eterna adquiriu um propósito. Ele seria o arauto das trevas e tangeria o rebanho de almas corrompidas até o mundo inferior. Então, deixou de se chamar Bento ou Wazinga. Ele tornou-se Belial, o Voz Cavernosa, para algumas das almas atormentadas por ele. A partir de então, tornou-se uma entidade demoníaca à serviço da escuridão.

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