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Voz Cavernosa - Parte 1

Depois que saí do hospital tentei levar uma vida normal. Ainda não tinha muita certeza de que minha jornada no mundo dos mortos tinha sido apenas um delírio em meio ao estado de coma pelo qual passei. De concreto, havia a presença constante e amorosa de Berenice, que se desdobrava em cuidados com a minha saúde, ainda em situação que inspirava cuidados.
Felizmente, apesar de afastado do meu trabalho noturno no cemitério, eu ainda podia escrever, e isso era tudo o que eu precisava naquele momento. Ademais, o atentado perpetrado pelo coveiro Pé Redondo contra mim foi considerado um acidente de trabalho, de modo que isso me habilitou a receber um benefício mensal da Previdência Social, enquanto durasse meu processo de recuperação. Isso me daria o fôlego financeiro que precisava para concluir minha novela gótica do jeito que eu havia imaginado.
Todavia, a vida normal que eu imaginava que teria, ao lado de minha doce Berenice, estava longe de se tornar uma realidade. Quis o destino, sempre ele, que minha história tivesse se tornado conhecida por intermédio do jornal da cidade. Não sei quem poderia tê-la divulgado, mas suspeito de alguma indiscrição do velho fauno. O fato é que logo me tornei conhecido como o sujeito que falava com os mortos. Então, mesmo sem querer, acabei me tornando um médium de algum prestígio. Ainda tenho minhas dúvidas, se estou agindo corretamente, ao assumir um papel desses diante de pessoas que procuram algum tipo de consolo.

Apesar desses questionamentos, que são recorrentes em minha consciência, devo pensar que os mortos aprovaram meu trabalho, já que não deixavam de atender ao meu chamado, mesmo fora do cemitério. O que me faz pensar também que minha suposta jornada pelo Além tinha sido mais real do que eu ousaria supor. Essa sensação iria ainda se tornar mais forte por outros motivos. 

Para que essa nova atividade não me cansasse em demasia, Berenice estabeleceu limites muito precisos para os atendimentos que eu fazia. Devo dizer, que eu não poderia desejar ao meu lado uma presença protetora mais dedicada. Se fosse necessário, ela não hesitava em agir como um pit-bull raivoso e botar os chatos, histéricos e mal intencionados pra correr. Também era muito eficiente em fazer uma triagem e escolher os casos que realmente requeriam minha atenção.

Aquela vida nada tinha de normal, mas devo confessar que não me desagradava. Era a primeira vez na vida que eu conseguia me sentir feliz e me livrar da incômoda sensação de ser um fracasso. O benefício pago pela Previdência Social durou o tempo suficiente para concluir meu livro e publicá-lo por uma pequena editora. Embora não tivesse  o marketing das grandes casas editoriais, compensava isso com muito entusiasmo e, ainda, me tratava como uma celebridade. O que, para um escritor obscuro, já estava bom demais. É certo que a minha recente notoriedade como médium também ajudou, e o livro acabou se tornando um sucesso.

Parte do público recebeu meu livro como uma obra espírita, apesar dos meus desmentidos em todas as entrevistas que dei. Eu escrevi a maior parte dele antes dos episódios recentes em minha vida. É bem verdade que a experiência sobrenatural que tive, fosse real ou imaginária, muito contribuiu para o tratamento que dei na conclusão e versão final. Seja como for, a trajetória de minha novela gótica seguiu de forma ascendente e logo chamou a atenção das grandes editoras, mas Preferi continuar com o editor que vislumbrou corretamente as possibilidades da obra
.
Algum tempo depois, um produtor de cinema apareceu em minha casa e ofereceu uma quantia inacreditável pelos direitos de filmagem de minha novela. Eu teria aceito sem hesitar, mas Berenice interferiu. No seu já famoso estilo pit-bull raivoso, ela botou o sujeito pra correr, o que me pareceu uma loucura naquela ocasião. Afinal, era um bom dinheiro e nós iríamos precisar muito, com um bebê a caminho. Mas ela estava certa, como sempre.

Não demorou muito para que outras ofertas ainda mais tentadoras aparecessem e fiquei muito feliz em deixar que ela conduzisse as negociações. Escritores, via de regra, se constituíam em péssimos negociadores. No meu caso, isso era ainda pior, já que tinha o triste hábito de depreciar meu próprio trabalho. Um velho problema de autoestima, eu acho.

Minha intuição a respeito das habilidades de Berenice na condução das negociações dos direitos sobre minha obra se mostrou acertada. Ela fechou um excelente contrato com uma grande produtora de audiovisual. O resultado disso foi um longa-metragem que seguiu a trajetória de sucesso do livro e ainda propiciou a produção de uma série para TV.

Apesar desse sucesso, eu continuei a atender as pessoas que me procuravam em busca de notícias de entes queridos recém-falecidos. Eu acreditava que a mudança na minha sorte tinha começado com isso e nada devia mudar. Também iniciei uma nova série de crônicas do outro mundo, instigado pelos espíritos que continuavam a me contar suas histórias. Então me tornei, por assim dizer, o cronista oficial das almas penadas, apesar de não ter voltado a vagar por entre os túmulos do cemitério em noites sombrias e lúgubres. Pelo menos não como vigia noturno, mas eu visitava a cidade dos mortos sempre que podia. Afinal tinha muitos amigos naquele lugar.

Foi numa dessas visitas que ele apareceu. Sim, caro leitor, ele mesmo. Em plena luz do dia eu me deparei com Voz Cavernosa sentado displicentemente sobre uma lápide já carcomida pelo tempo. Ao vê-lo ali, na claridade da manhã, ficou difícil relembrar de seu aspecto mais sombrio e perigoso.  Olhei para os lados, mas ninguém mais parecia ver aquele estranha figura, de fraque e cartola e olhar encovado.  Embora Wazinga já não me inspirasse tanto terror, não pude evitar o arrepio que percorreu minha alma naquele momento, pois tive a nítida impressão de que ele me esperava. Isso se confirmou logo depois.

- Salve, escrevinhador. – Saudou ele, com sua voz soturna. – Feliz com sua nova existência?
Nova existência? Supus que ele estivesse se referindo às mudanças recentes em minha vida e nada respondi. Apenas esperei que continuasse, o que ele não se fez de rogado, embora desconcertado com minha atitude evasiva e fria. 

- Já vi que minha presença aqui o perturbou. – Ele disse, com seu estilo velhaco e galhofeiro. – Não sei por que isso sempre acontece quando apareço para alguém. Sou um bom sujeito, afinal.
Bom sujeito? Aquela cria dos infernos podia ser tudo, menos um bom sujeito. Ele nem mesmo era humano. As lembranças que eu tinha Voz Cavernosa ainda eram permeadas pelo ranço deixado por sua manipulações no Tribunal das Almas. À essa altura, diante da presença dele, eu já tinha motivos suficientes para pensar que aquela experiência sobrenatural tinha sido real, sem mais nenhuma dúvida.

- O que você quer? – Perguntei sem rodeios. Não iria deixar aquele diabo subalterno me enrolar ou intimidar. Por mais perigoso que fosse, eu já sabia que ele não poderia fazer nada que eu não permitisse.

- Quanta animosidade! – Disse ele com um muxoxo. – Nem parece que já trabalhamos juntos, esqueceu?
- Quem me dera! Você é inesquecível.
- Sou, não sou?
Seus olhos brilharam de satisfação. Wazinga era um demônio vaidoso e nisso consistia sua fraqueza, isso era certo. Mas seria um erro subestimá-lo e eu não pretendia fazer isso.
- Diga logo o que você quer.
- Quero que conte minha história. - Ele disse num fôlego só.
- Mas já falei sobre você em uma de minhas crônicas, esqueceu? Sua história também aparece no livro que acabo de publicar.

Ele levantou-se da lápide e me rodeou como uma raposa fitando o esquilo preste a ser devorado. Confesso que não sou nenhum herói, e me inquietei com sua expressão: e era a de um predador travestido de Chapeleiro Louco.

- Aquilo foi uma bobagem. Uma pequena concessão para aguçar sua curiosidade. Você soube apenas o que eu permiti que soubesse. Mesmo assim, foi de uma forma muito resumida. Agora quero contar tudo, desde o começo.
- Por que?
- Porque chegou a hora. É o meu legado. - Ele completou, de modo misterioso. Por um momento cheguei a pensar que ele estava preparando sua despedida, mas esse pensamento era tão improvável, que o descartei no momento em que surgiu.

Ficamos mais algum tempo discutindo. Eu não queria aquela empreitada. Na verdade queria distância de Voz Cavernosa, mas ele soube manipular minha vaidade também. Não é qualquer escritor que tem a chance de biografar um demônio. Então, na volta para casa me preparei para contar a novidade para Berenice. Ela certamente não iria gostar daquilo.