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Voz Cavernosa - Parte 3




O agiota examinava o crucifixo de todos os ângulos possíveis. Era uma peça magnífica, executado em estilo rocaile, por um prestigiado ourives de Paris. Sob o olhar atento do homem, ele levou a peça até um faixo de luz solar que entrava pela janela, e a olhou através de uma lupa. Ele não saberia precisar a origem do material usado, mas supôs muito acertadamente que a peça havia sido confeccionada com ouro vindo do Brasil, assim como os diamantes e esmeraldas que a adornavam.
- Trinta moedas. – Disse o agiota, com um brilho de cobiça no olhar, que até o mais desatento dos homens perceberia.
O indivíduo que estava diante dele não era um desses tolos, que todos os dia batiam em sua porta. Era um sujeito perigoso, ele sabia. O homem o fitou com um olhar duro, que lembrava uma ave de rapina. O agiota o viu acariciar sutilmente o cabo da adaga em sua cintura e viu o perigo rondando.
- Talvez eu possa oferecer um pouco mais. – Disse conciliador, depois de fingir examinar novamente o crucifixo.
- E quanto seria esse pouco mais, embusteiro?
- O máximo que posso pagar são 60 moedas. – Falou o velho.
Ele dobrou a oferta na tentativa de se ver livre do fidalgo que estava diante de si. Era um bom avaliador de homens também, e previa problemas com aquele sujeito. Mesmo assim a peça que ele trouxera tinha um valor muito acima do valor oferecido.
O fidalgo pegou o crucifixo de suas mãos sem nada dizer.
- 70 moedas.
- 150 moedas. – Disse o homem.
- Mas isso é uma fortuna. Eu ficaria arruinado, se pagasse uma quantia dessas.
- Essa quantia ainda é bem menos da metade do valor do crucifixo. Você está tomando inutilmente o meu tempo, e ninguém me toma nada que eu não queira dar. – Retrucou o fidalgo com voz dura.
O agiota era um negociador experiente, e sabia quando era melhor ceder, para evitar prejuízos maiores.
- Está bem. Sei que vou me arrepender, mas sou um homem religioso. Esse crucifixo vai ocupar um lugar de destaque em meu oratório.
- Tenho a certeza de que sua fé fará um bom uso dessa peça. – Disse com uma mal disfarçada ironia, o fidalgo Bento Duarte Dias, de um ramo empobrecido da Casa de Avis.
Em outra situação, ele teria cortado a garganta do agiota, mas tinha que ser rápido e discreto, pois logo os soldados estariam em seu encalço. Subtrair o crucifixo da casa do Marquês de Zimbros não tinha sido a maior das afrontas que ele perpetrara naquela noite. Ainda sentia em si o suave aroma do perfume francês usado pela fogosa Marquesa, ao recebê-lo em sua alcova para uma interminável noite de prazer.
O honorável Marquês certamente pouco ligaria para o crucifixo, mas alguns dos seus diligentes serviçais viram quando Bento pulou a sacada dos seus aposentos e escafedeu-se pelo imenso jardim da propriedade, quando ele estava ausente. Certamente, o corpo esguio da jovem Marquesa era uma joia bem mais preciosa do que aquela cruz inútil, cujo desaparecimento ainda demoraria algum tempo para ser percebido.
O agiota estendeu-lhe um saco de couro com as moedas de ouro. Ele o pegou e o fez desaparecer rapidamente num dos bolsos de sua casaca. Em ato contínuo, virou-se para a porta, sem se dar ao trabalho de se despedir.
- Não vai conferir?
- Não creio que seja necessário. – Ele disse com voz enganadoramente suave. – Você não iria gostar de me ver aqui de novo.
Assim, com essas palavras amistosas, o fidalgo Bento Duarte Dias, esgueirou-se por uma estreita viela e tomou a direção do porto. Sentia que estava mais do que na hora de mudar de ares. Suas estripulias amorosas eram bem conhecidas na corte, e lhe granjearam um número razoável de inimigos, quase tanto como de admiradores. Por outro lado, a carência de recursos financeiros e escrúpulos o fez trilhar caminhos cada vez mais afastados da legalidade e o induzia a equilibrar-se perigosamente próximo das garras dos soldados do Rei.
No ano da graça de 1630, Lisboa atravessava um período economicamente complicado e dependia das colônias da África e do Brasil para manter o fausto de sua corte ociosa e perdulária. Bento via justamente nas colônias a oportunidade de afastar-se da corte e ir atrás da fortuna, que acreditava esperar por ele em algum lugar.
O Brasil era o seu objetivo, quando saiu da loja de penhores e se dirigiu ao porto. No entanto, as rodas do destino tinham outros planos para ele. Antes que conseguisse se estabelecer em terras brasileiras, havia uma outra jornada por trilhar, como ele logo iria descobrir.
O Cavalo Marinho era a taverna mais mal frequentada da zona do porto, mas ele não se importou com isso. Tinha encontro com um velho lobo do mar que lhe vendera um lugar num das caravelas que partiam rumo ao Novo Mundo.
- A Santa Helena vai levantar âncora com a maré, logo ao alvorecer. – Disse o velho marinheiro. – Você deve subir à bordo ainda esta noite, para não correr riscos.
- Está bem. Mas como vou subir à bordo? Já vi que a embarcação se mantém ancorada ao largo.
- Sim. Ela está muito carregada e o capitão receia se aproximar do porto. Eu o levarei para bordo, não se preocupe. Logo pela manhã estará singrando os mares. Seu embarque já está sendo esperado.
- Muito bem. Você receberá seu pagamento assim que eu subir à bordo.
O velho marinheiro o olhou com uma das sobrancelhas erguida. Aqueles eram tempos difíceis, e ninguém confiava em ninguém. É verdade que ele também não se lembrava de alguma outra época em que houve confiança entre os homens.
- Então peça uma jarra de vinho por sua conta, já que o meu dinheiro ainda está em seu bolso.
O fidalgo sabia reconhecer quando tinha que ceder, apesar de isso não lhe agradar. Não obstante, ele também estava com a garganta seca e aquele era um bom momento para celebrar sua partida de Lisboa.
- Que seja. – Disse, enquanto fazia um gesto para o taverneiro. – Vamos comemorar minha partida dessa latrina.
O velho marinheiro riu, deixando à amostra os dentes amarelados e apodrecidos.
- É assim que se fala. – Disse, enquanto enchia sua caneca sem nenhuma cerimônia.
O fidalgo não fez caso disso, embora tivesse uma educação refinada. Estava acostumado a conviver com todo tipo de gente e nada parecia surpreendê-lo ou causar-lhe qualquer incômodo.
- À sua saúde! – Disse Bento, erguendo sua caneca.
Por volta das três hora manhã, e algumas jarras de vinho. O fidalgo e o marinheiro saíram da taverna em direção ao cais. No caminho, o vinho ordinário no estômago de Bento parecia querer acostumá-lo ao que ia enfrentar na longa travessia marítima. Sem conseguir aguentar, ele teve a impressão que vomitou suas próprias entranhas e jurou nunca mais pôr uma gota de vinho na boca. Se iria cumprir esse juramento, é algo que ele mesmo demoraria a descobrir, posto que nos caminhos que trilharia dali por diante, os eflúvios etílicos seriam encontrados em outras bebidas, as quais ele ainda estava por descobrir.
O valor que pagara para estar à bordo, lhe concedia alguns privilégios, entre os quais as duras tarefas reservadas aos marujos. Isso lhe proporcionava a oportunidade de conhecer os rudimentos de navegação, por intermédio do capitão do navio.
Foi assim que percebeu que o Santa Helena navegava para o sul, e não para oeste, como era de se esperar. Somente depois de interpelar o capitão, é que soube que iriam primeiro para Angola pegar uma carga de escravos para o Brasil. Inadvertidamente, ele embarcara num navio negreiro. Talvez o velho marinheiro que lhe vendera um lugar no barco pensasse que a passagem pela costa africana fosse apenas um mero detalhe, ou talvez não. Honestidade era um artigo escasso numa área onde a ralé transitava. Para Bento, pouco importava, afinal de contas. O continente africano poderia ser tão bom quanto o Brasil, para iniciar uma nova vida. O que lhe interessava naquele momento era a distância que poderia alcançar dos seus inimigos, até que a sua sorte lhe desse condições para um retorno seguro, com força suficiente para esmagar seus desafetos, principalmente maridos traídos.
A embarcação em que ele estava fora arrendada à Companhia das Índias Ocidentais por um grupo de investidores de Lisboa, que a princípio miravam os artigos de luxo do oriente. Contudo, a escassez de ouro na Europa, provocada pelo alto valor dos produtos importados, os fez se voltarem para o tráfico negreiro para suprir de mão de obra escrava as lavouras de cana de açúcar no nordeste brasileiro. Os escravos podiam ser trocados em Angola por artigos produzidos em Portugal e evitava o uso das reservas financeiras em metal precioso.
- A escala no reino de Angola será curta. – Explicou Diogo Miranda de Sá, o capitão do Santa Helena. Apenas o tempo de embarcar as peças agrupadas ao longo do rio Kwanza, em Quissama e Libolo.
- O senhor conhece bem essa parte da Àfrica?
- Essa pergunta é difícil de responder. Conheço a geografia, mas não sei com quem vamos negociar. Essa é a minha quinta viagem. De cada vez que fui, a região em torno do Rio Kavanza parecia diferente. Há muitas insurreições e um grupo se sobrepõe ao outro, sem conseguir um domínio efetivo, mas há sempre escravos para trocar por nossas mercadorias.
- Talvez por isso mesmo haja escravos para negociar, não? – Bento comentou. Sua mente fervilhava com algumas possibilidades rapidamente levantadas. – Quero dizer, enquanto as tribos guerrearem entre si sempre haverá despojos de guerra.
- Sim. E quando não há, nós mesmos os capturamos, mas essa empreitada é sempre perigosa porque corremos o risco de unir as tribos contra nós. Isso já acontece em algumas regiões. Segundo eu soube, por intermédio de mercadores, há uma mulher unindo algumas tribos ao longo do rio, mais para o interior.
- Uma mulher?
- Sim, mas não é uma mulher qualquer. Dizem que tem parte com antigos deuses pagãos. Alguns acreditam que N’kima Mokomo é o próprio diabo em pessoa. Outras acham que ela é apenas uma lenda.
Mulheres sempre fizeram parte da estratégia de sobrevivência de Bento, um fidalgo desprovido de posses. Mesmo pensando que seria tolice pensar numa mulher que talvez não fosse real, ele começou achar que o seu destino talvez estivesse mesmo na África, e não no Brasil, como tinha pensado.
-De qualquer modo, a África parece um lugar apropriado para a existência de uma mulher assim, não? – Insistiu ele, pensando que o capitão do barco pudesse saber mais a respeito da mulher misteriosa.
- Não sei. Pelo que ouvi, ela é demais até para a África. Há rumores de que ela é uma mulher insaciável.
- Insaciável?
- Sexualmente falando, mas dizem que isso se aplica também à certos hábitos alimentares, mas creio que há muito exagero e fantasia nesses relatos. Os religiosos que estão nas colônias, costumam espalhar essas lorotas e em seus relatórios para a Igreja e a Coroa.
Bento conhecia muito bem essa estratégia, de espalhar boatos para justificar ou esconder certas práticas ou consequências. Era algo Que os governantes costumavam fazer amiúde. Ele nunca estivera em posição de governar, mas tinha lido Maquiavel em algum momento, por conta de uma temporada na prisão por dívidas. Nessa ocasião, um frade capuchinho lhe emprestou um exemplar de O Príncipe, para ajudá-lo a passar o tempo. A leitura daquela obra tinha se mostrado proveitosa para a compreensão dos acontecimentos de sua época. Ele não poderia imaginar que Maquiavel ainda seria bastante estudado nos séculos vindouros.
- Ela parece uma mulher muito interessante para se conhecer. – Disse ele, ao perceber que o capitão havia parado de falar.
- E muito perigosa também, se é que ela existe de fato.
- Penso que ela existe, sim. – Disse Bento, mais para si mesmo. Talvez não com os atributos sobrenaturais, mas ainda sim uma mulher poderosa, se for líder do seu povo.
- Talvez. – Concordou o capitão. – Nesse caso, não demorará muito para que a Coroa ponha sua cabeça a prêmio. Nas colônias, os líderes locais costumam ser um incômodo. O que é mais um motivo para se manter afastado dela, não concorda?
- Certamente. O senhor está coberto de razão. – Disse Bento, ocultando seus reais pensamentos. – Melhor ficar longe de tais problemas, mas essa história que o senhor me contou é fascinante e merece ser contada algum dia.
Ao ouvir isso, o semblante do capitão se iluminou.
- Creio que agora compreendo seu interesse. O senhor quer escrever a história dela, pois não?
- Sim, penso num poema épico, que relate suas façanhas para as damas da Corte. Creio que vou me recolher e fazer anotações sobre o que me contou. Não posso correr o risco de esquecer os detalhes.
Com essas palavras, o fidalgo voltou para a cabine que dividia com o capitão do Santa Helena. Ele realmente anotaria aquela conversa, mas por motivos que não dividiria com ninguém. Depois de cumprida a tarefa, ficou a imaginar como seria N’kima Mokomo, se de fato existia. A imagem de uma guerreira feroz, negra como ébano, surgiu em sua mente de uma forma tão nítida, que ele teve a impressão de que ela o chamava.
Bento era um homem prático, pouco dado a divagações relacionadas com o sobrenatural. Essa tendência lhe foi incutida aos poucos, pela convivência ocasional com monges e padres que tentaram cooptá-lo para servir a Igreja, em razão de sua situação vulnerável na juventude. O discurso permeado pela moral oportunista daqueles que se diziam representantes de Deus na Terra, não o seduziram, mas ele se serviu deles para instruir-se. Ele sabia, quase intuitivamente, que precisava do conhecimento para se sobrepor aos homens.
A sensação que experimentou, embora fugidia, o deixou em guarda. Era uma experiência nova e instigante. N’Kima Mokomo o estava chamando. Naquele momento, ele teve a certeza de que seu destino estava na África.