Total de visualizações de página

O Vírus Alienígena Capítulo III

Alguns dias antes...

Seu nome seria ininteligível para os humanos, se pudessem ouvi-lo. Se ele falasse como os homens falam, sua voz soaria como um gongo, ainda que de forma modulada. Mas ele não falava. Sua comunicação se dava mentalmente, depois do contágio. Mesmo assim, só acontecia de modo a permitir sua interação com a mente do organismo invadido. Ele se tornava parte dela, e assim não era percebido.
Aquela era uma situação para o qual ele não tinha se preparado. Havia se inserido no organismo de um indivíduo racional, que não demonstrava possuir emoções. Isso nunca tinha acontecido antes. Já havia vasculhado todos os bancos de memória da criatura, e só conseguiu perceber estruturas lógicas de pensamentos, desprovidos de qualquer emoção. Era como se aquele ser fosse algum tipo de artefato biológico, sem a parte espiritual correspondente à sua essência, que normalmente deveria estar conectada à glândula onde se instalou, assim que conseguiu se locomover no emaranhado de sistemas que compunham os órgãos internos de sua vítima.

Geralmente, seres complexos e dotado de inteligência desenvolviam sequências de pensamentos emocionais baseados em conflitos gerados por egoísmo, altruísmo e outras formas de pensar relacionadas quase todas com a sobrevivência do indivíduo e sua herança genética. Isso podia acontecer também quando estivesse em risco a sobrevivência de sua espécie. Contudo, o ser cujo organismo ele invadira, parecia não possuir conflitos emocionais. Seus pensamentos eram sequências lógicas, distantes e frias, como se ele se enxergasse a si mesmo, e o mundo em que existia, a partir de outra dimensão.
Aquilo não fazia sentido, mas o indivíduo era emocionalmente inerte. Isso era um problema sério para a sobrevivência de ambos. Sem emoções não haveria do que se alimentar e ele logo morreria, levando consigo o seu hospedeiro. Em razão das conexões que já tinham sido estabelecidas, eles compartilhavam da mesma existência e não podiam mais separar-se.
Isso não deixava de ser irônico. Era de sua natureza usurpar a existência de outro ser. Entretanto, via-se na iminência de ter sua própria existência ameaçada pelo indivíduo que deveria ser sua vítima. Embora ambos não fossem sobreviver, sentia-se derrotado em seu próprio instinto de sobrevivência.
Entretido com aquele paradoxo existencial, ele quase não percebeu as contradições ocultas nas sequências de pensamentos que havia analisado. Havia algo mais no raciocínio frio e calculista de sua vítima. Por trás daqueles pensamentos perfeitamente ordenados, haviam outras sequências ocultas, quase apagadas em suas conexões neurais, como um palimpsesto reescrito obsessivamente.
Cuidadosamente, ele dirigiu sua capacidade empática para decifrar os fragmentos de pensamentos que pareciam ter sido rejeitados. Para seu deleite, os conflitos emocionais surgiram por baixo das camadas de autocontrole. Seu hospedeiro não era emocionalmente inerte, como pensara, mas renegava suas emoções com uma disciplina obsessiva pela ordem e raciocínio lógico. Desenterrar aquelas emoções tomou-lhe algum tempo e esforço, mas uma vez encontrado o caminho, nada mais poderia ser ocultado dele. Seu hospedeiro estava à mercê de sua voracidade. Ele estava com fome, muita fome.
Aos poucos a verdadeira natureza daquele ser se revelava para o vírus. Pensamentos e desejos reprimidos apareciam por baixo de camadas de repressão auto infligidas. Ele realmente tinha um controle quase sobrenatural sobre suas emoções. Dotado de uma inteligência em nível muito acima dos seres de sua espécie, o homem desenvolveu uma capacidade analítica e empática que o manteve dentro dos limites éticos e morais que conhecia. Mas ele não era aquilo que aparentava. O seu hospedeiro era um monstro tão horrendo, que lhe custava acreditar que o acaso o escolhera. Parecia-lhe, naquele momento, que o Universo havia conspirado para que eles se encontrassem. Talvez fosse do destino de ambos se fundirem numa criatura única, que fosse capaz de alterar os fundamentos cósmicos da existência. Ele faria o homem revelar verdadeira natureza e devoraria as entranhas de sua alma até nada sobrar dela, além de sua própria existência a habitar uma casca vazia.
A longa jornada pela mata já estava deixando o invasor inquieto. Havia uma forte presença incorpórea naquele lugar. Algo que se manifestava em todos os seres da floresta, inclusive em seu hospedeiro. Ele possuía uma estranha conexão com aquele lugar, embora devesse ser um estranho. Aquele nível de empatia contrariava seus interesses e era necessário encontrar uma forma de neutralizar aquela manifestação.
De um modo muito sutil, o vírus induziu alterações na psique do hospedeiro, fazendo-o perder a conexão mental que tinha com a natureza daquele lugar. O humano sentiu que a sua ligação com a floresta não mais existia, mas a percepção disso lhe veio de forma fragmentada e distante. Ele já não se importou.
Ao chegar no local que seu hospedeiro reconheceu com um posto da guarnição, o vírus percebeu elementos de contrariedade em seu hospedeiro, que tinham referência com a ausência de um mecanismo de transporte aéreo e a percepção de que havia sido ludibriado por indivíduos que deveriam ser de sua confiança.
Aos poucos, a teia de relações que orientavam a existência do homem se tornou clara, com todos os elementos narrativos que precisava para compreendê-lo em seu próprio contexto existencial. Eles estavam se tornando um só. A confirmação disso vinha em pequenos indícios que se revelavam na empatia rapidamente desenvolvida entre eles, como se um existisse para completar a existência do outro. Isso lhe era desconcertante, de certa forma. Sendo um parasita, não era de sua natureza compartilhar o que quer que fosse. Tudo o que estava programado em sua existência era usurpar de outros seres os elementos essenciais para sua existência, cujo ciclo se completava deixando para trás a casca vazia e sem vida do hospedeiro.
A mutação em sua natureza de parasita obrigava-o a se estruturar na existência do hospedeiro de uma forma mais sutil e menos agressiva. Se isso iria pôr em risco sua própria existência, ele ainda não sabia, mas havia elementos sensoriais novos para explorar, a partir das contradições emocionais que identificava no homem. Aquele espécime sublimava suas emoções, e o fazia de tal modo, que os elementos narrativos movidos pelo ódio e a raiva ficavam ocultos por grossas camadas de bloqueios psíquicos inconscientemente construídos. Era tempo de libertá-los e fazer a colheita, pensou o alienígena, ao liberar a fúria que sabia crescer no coração do sargento André, ao perceber que havia sido ludibriado pelo comandante do quartel, em cumplicidade com sua mulher adúltera. A violência liberada, ao arremessar a mesa sobre o sargento comandante da guarnição, tinha sido apenas um aperitivo. Havia muito ainda por vir, pensou o parasita, enquanto a canoa deslizava rio abaixo.
A chegada no povoado desencadeou novos desdobramentos nos bloqueios emocionais auto imposto. O hospedeiro já não cerceava suas emoções, sentiu o vírus. Na verdade, ele procurava liberá-las em qualquer oportunidade. Havia um recém-descoberto prazer sádico na violência que ele libertava, como os homens que estavam no botequim logo descobriram. Contudo, não era um estado contínuo de crescente raiva e agressividade. Havia momentos em que ele ensaiava voltar ao frio autocontrole de sempre, como se percebesse todo o horror contido no seu lado sombrio. Talvez tivesse conseguido se impor novamente os rígidos padrões emocionais que haviam pautado sua existência, percebeu o invasor alienígena, mas a criatura do espaço não permitiria. Já havia estabelecido conexões suficientes para impedir o controle das emoções pela sua vítima. Habilmente, fez o homem sentir a adrenalina fluindo em seu cérebro e ele se regozijou em cada golpe que distribuiu no botequim. Quem o visse, diria que ali estava um homem completamente insano, e ele próprio certamente concordaria com isso.
Habilmente, o vírus induziu sua vítima a rever suas memórias, em busca das emoções sublimadas. Ele sentiu e se regozijou no ódio e no rancor que se despertava no hospedeiro. A semente da vingança germinava em terreno fértil e logo frutificaria.


A escuridão era quase absoluta, mas André não se importou. Conhecia bem sua casa e podia movimentar-se no escuro. Passou pelos quartos dos filhos sem se deter e se dirigiu ao seu próprio quarto. No curto trajeto, sentia seu coração pulsar de forma acelerada. Ele ainda não sabia o que ia fazer, mas sentia que precisava surpreender a cadela de sua mulher. Isso não se devia a um desejo masoquista ou uma perversão, mas ainda precisava de uma evidência para se justificar, embora já soubesse tudo o que precisava saber.
Diante da porta ele ouviu um ruído, depois sussurros. Ela não estava sozinha, como ele já esperava. Juliano estava com ela. Eles estavam aproveitando bem a sua ausência e não esperavam que já estivesse de volta. Apertou o cabo da faca e pensou primeiro em entrar e matar os dois, mas havia muitas pontas soltas nesse plano e algo podia dar errado. Ainda sem saber o que fazer, ele ouviu o comandante geral de sua corporação se movimentar atrás da porta. Pelos ruídos, André deduziu que ele estava se vestindo. Então se afastou e foi para o pátio, onde se ocultou nas sombras.
O amante de sua mulher apareceu alguns minutos depois e passou por ele, sem perceber sua presença. O que aconteceu foi tão rápido, que mesmo André teria dificuldade em relembrar os detalhes e, provavelmente, erraria a sequência de como tudo se sucedeu. Realmente não lembraria de como puxou o cabelo de Juliano com a mão esquerda, mas poderia lembrar com exatidão de como cortou a garganta dele com movimentos rápidos. Também lembraria do êxtase experimentado ao sentir a vida dele se esvair numa poça de sangue. Tomado de surpresa, A sensação deixou André inebriado. O prazer que sentiu em destruir a vida do outro era algo inesperado. A violência nunca tinha estado presente em sua vida, assim como o ódio que sentia era algo totalmente novo e pulsante. Naquele momento, só uma pequena parte de sua mente buscava compreender aquilo. O restante queria mais sangue. Então ele entrou na casa novamente.
Quando ele entrou no quarto, a mulher já havia adormecido novamente. Ele olhou seu semblante tranquilo, sem nenhum sinal de arrependimento ou culpa. Ela parecia um anjo e, por um momento, ele conseguiu lembrar do amor que já havia sentido um dia. Foi quando uma onda de ódio o atingiu em cheio e ele a atacou. A mulher abriu os olhos, ainda sem se dar conta de que estava morrendo. Tentou falar algo, mas se afogou em seu próprio sangue e morreu olhando para ele.
Ainda ofegante, ele sentiu novamente aquele prazer incontido. Tentou controlar-se mas isso já não fazia sentido, ele não era mais o mesmo, parecia um estranho a si mesmo. De repente lembrou-se dos filhos e novamente o ódio latejava em sua mente. O horror ainda não havia terminado. Foi quando ele sentiu que algo o instigava, como se houve uma outra presença dentro de si. Então lembrou-se do estranho artefato encontrado na floresta, as sensações estranhas e a vontade de agredir e matar. Finalmente compreendeu o que tinha acontecido e sabia o que tinha que fazer.
Aos tropeções, ele vasculhou as gavetas e achou sua arma, há tanto tempo guardada e quase esquecida. Lentamente ele virou o cano da arma e apontou para si. Algo se digladiava dentro dele e quase o fez desistir, mas a lembrança dos filhos o fez pensar que não havia outra saída. Então, sem mais hesitar, ele puxou o gatilho.