Total de visualizações de página

Voz Cavernosa - Parte 4



Quando o Santa Helena adentrou à baía de Luanda, o fez sob uma grande tempestade. A embarcação escapara por muito pouco à fúria dos elementos em mar aberto. Todavia, os deuses africanos ainda pareciam querer livrar aquelas terras dos invasores brancos, que ali aportavam para saquear suas riquezas e escravizar aqueles que lhes davam razão de existir.
Ignorando a chuva torrencial, Bento conseguiu enxergar mais três barcos ancorados na baía. Ele olhava através da vigia de sua cabine, utilizando uma luneta fabricada na Itália por um certo Galileu Galilei. O instrumento lhe fora dado por um monge, em troca de certos favores, durante seu tempo num mosteiro.
Dois dos barcos tinham bandeira portuguesa. O terceiro ostentava a bandeira holandesa, que naquele tempo seguia Portugal por todas as suas colônias, muito por conta de uma antiga dívida contraída por Dom João V, em uma de suas infrutíferas tentativas para equilibrar as finanças da coroa portuguesa.

O Santa Helena passou pelas embarcações fundeadas e prosseguiu até encontrar a foz do rio Kwanza. Estavam próximos de Quissama, a primeira escala prevista. Faltava muito pouco para que Bento Duarte Dias pisasse em solo africano. Isso não tinha nenhum significado especial para ele, exceto pela possibilidade de escapar da lei e encontrar-se com seu destino, o qual ele não tinha a menor ideia do que fosse. Em verdade, nem mesmo sabia que havia um destino reservado para ele naquele mundo ainda tão selvagem e primitivo, na visão etnocêntrica de um europeu ainda pouco afeito à diversidade de um mundo maior do que se acreditava que fosse, até alguns séculos antes.
Todavia, ao subir à bordo do Santa Helena, o fidalgo pusera em marcha uma sequência de eventos que iam muito além de sua compreensão, e o lançariam numa jornada que atravessaria barreiras dimensionais que estavam muito além do inferno verde que podia vislumbrar com sua luneta.
- Para onde vamos? – Perguntou ao Capitão, mais por tédio do que por curiosidade.
- Quissama está logo à frente, depois da curva do rio. Devemos encontrar nossa primeira carga de escravos, supondo que Lumumba Aori ainda seja o mogunde, uma espécie de embaixador do rei Nazinga Nogola. Espero que ele ainda mantenha sua cabeça sobre os ombros. Como eu lhe disse, aqui as coisas podem mudar muito rapidamente, exceto a presença da coroa portuguesa e os jesuítas.
- Jesuítas?
- Sim. Eles já estão aqui há uns duzentos anos.
- O que os jesuítas fazem neste fim de mundo?
- Vieram salvar a alma dos selvagens africanos, por certo.
Bento não conseguiu encontrar nenhum traço de ironia naquelas palavras, mas ele sabia que o capitão do Santa Helena tinha um espírito sagaz e um humor bastante refinado para um homem do mar.
- Por certo. – Repetiu ele. – Mas suponho que os padres não se oponham ao tráfico negreiro, estou certo?
O capitão riu. Um riso curto e contido, exceto pelo brilho irônico, que relampejou em seus olhos.
- Sua suposição é correta. Na verdade, devemos encontrá-los em Libolo, nossa próxima escala. Os bons padres devem ter uma carga negros pagãos para embarcar.
Foi a vez de Bento rir.
- Pensei que a orientação da Companhia de Jesus fosse o de converter os selvagens.
- Penso que seja ainda, para alguns padres mais idealistas. Mas os jesuítas já perceberam que a conversão desses bárbaro não se dará por amor, mas pela sujeição violenta.
- Eu me pergunto por que eles ainda não foram expulsos daqui.
- Eles incomodam mais com a insistência na monogamia, numa terra em que os homens ainda preferem ter várias mulheres, e alguns padres também.
- A igreja tem o hábito de ser pragmática e flexível quando lhe convém. – Disse Bento, aparentando saber mais daquele assunto do que realmente falou.
Não havia nenhum sentimento especial em suas palavras. Era apenas uma constatação fria e impessoal, como quase tudo a que se referia. Em toda a sua existência, nunca estabeleceu uma relação afetiva com alguém que não fosse ele mesmo. Suas manifestações de afeto tinham sempre como fim cumprir seus desejos e seus objetivos, que eram habilmente calculado.
Talvez por ter passado sua infância em quase completa solidão, tendo como companhia apenas seus próprios pensamentos, Bento acostumou-se a se bastar a si mesmo. Ele era um sobrevivente, emocionalmente falando. Não se fazia de vítima, nem odiava o mundo. Todavia, que o mundo não esperasse dele coisa alguma, que não fosse estabelecida numa relação de troca. Mesmo em questões afetivas ou amorosas, ele se considerava um mercador, como qualquer prostituta das vielas escuras de Lisboa.
O Santa Helena aproximou-se do povoado de Quissama e atracou no pequeno cais. Tão rápido quanto surgiu, o temporal se extinguiu logo que a embarcação aportou. As nuvens se dissiparam e deram passagem ao sol inclemente, que não se fez de rogado e castigou os homens que esperavam o desembarque.
À frente de um pequeno séquito, Lumumba Aori abanava a si mesmo com um imenso leque de penas de avestruz. Consciente de sua posição como representante do rei, ele exibia seu melhor traje, com os adereços mais luxuosos que alguém poderia ostentar naquela região. Contudo, à despeito desses cuidados, a elegância insistia em manter-se distante daquele homem obeso e de olhar bovino, mesmo que os padrões seguissem o próprio olhar dos africanos nesse quesito.
Atrás dele se posicionavam vários guerreiros Sobas, ocasionalmente aliados dos portugueses e não muito confiáveis para os europeus, mas que mantinham antigos laços com a tribo de Lumumba, que era o representante de um rei feroz e sanguinário. Esse detalhe é o que mantinha a todos em seus devidos papéis.
Mais atrás estava um pequeno grupo formado por assistentes e serviçais, que seguravam a grossa corrente da qual pendiam correntes menores que mantinham os escravos presos em fila indiana. Havia homens e mulheres de tribos diversas. Todos ostentavam o mesmo olhar de resignação dos sem esperanças.
Ao distinguir o capitão do Santa Helena, o mogunde se adiantou com surpreendente agilidade, para sua rotunda circunferência. Após os rapapés de costume, eles entabularam o que prometia ser uma longa negociação. Livre daquelas obrigações, Bento manteve-se atento aos detalhes de tudo que via e ouvia, arquivando-os na memória para uso no futuro. Um plano estava se armando em sua mente.
- O que trazes para mim, Branco? – Indagou o Mogunde, sem rodeios.
Ele chamava os europeus de brancos com uma entonação de desprezo, que não passou despercebida ao capitão do barco, mas ele fingiu não entender. Aquela atitude era uma grosseria calculada para manter seus interlocutores em posição desvantajosa, mas os homens que estavam ali não morderam a isca.
- Isso depende do que tens, mogunde. – Respondeu o capitão, sem pestanejar.
A menção ao título de Lumumba não foi para engrandecê-lo, mas para lembrá-lo que era um simples vassalo.
Todo empertigado, Lumumba mostrou com um gesto desnecessariamente amplo a penca de escravos acorrentados e alguns vasos contendo cereais diversos e carne defumada, mais atrás.
- Não são muitos. – Disse o capitão.
- Estamos na época da colheita e também precisamos de braços. Volte na próxima estação e terá mais.
Ao fim de uma demorada barganha, a carga de escravos e as provisões foram trocadas por uma certa quantidade de barris de pólvora, chumbo e arcabuzes, além de dois tonéis com aguardente de cana, feito do Brasil.
Enquanto as negociações estavam em andamento, Bento pôs-se a examinar os escravos com interesse. Não era a primeira vez que tomava contato com homens submetidos à escravidão, mas aqueles se comportavam como gado a caminho do abatedouro. Nada havia ali que pudesse lhe despertar um interesse especial, só a costumeira indiferença pelo destino daquelas criaturas.
Ele olhou nos olhos deles, um por um. Em todos havia apenas um imenso vazio, como se já não tivessem alma. Bento lembrava vagamente dos comentários de alguns monges acerca de uma provável ausência alma de entre os gentios, tidos apenas como criaturas bárbaras e indolentes. Aqueles olhares desprovidos de expressão pareciam corroborar essa tese, exceto por uma mulher.
O fidalgo quase não há percebeu, mas seu olhar o atraiu. Ela era diferente dos outros e, apesar das correntes, tinha uma dignidade surpreendente, para quem se encontrava naquela situação. Até mesmo os trapos que vestia pareciam as vestes de uma princesa, tal era o seu porte altivo e quase arrogante. Ela estava seminua e aquilo não parecia lhe afetar, quando lhe devolveu o olhar. Naquele momento eles se reconheceram como iguais. O destino proporcionaria um caminho único para eles, pelo menos por algum tempo.
- Quem é ela? – Perguntou para o capitão, em voz baixa. Este repetiu a pergunta ao mogunde no dialeto local.
- Ele disse que ela foi capturada numa aldeia Wambesi, junto com outras peças. Disse também que ela é belicosa. Foram necessários dois homens para imobilizá-la.
- Interessante...
- Seu nome é Malala. Ficou interessado na negrinha? Posso fazer um preço especial para o senhor.
Num impulso que surpreendeu a si mesmo, o fidalgo pagou pela escrava sem regatear. Com isso, a decisão de ficar na África foi definitivamente tomada. Já havia um plano elaborado em sua mente.
O embarque dos escravos foi realizado sem maiores contratempos. Malala foi trancafiada na cabine do fidalgo ainda acorrentada. Ali ficou por horas, sentada num catre, à espera do seu destino. Horas depois, o Santa Helena desatracou e partiu rio acima, rumo ao seu próximo porto.
Já havia anoitecido quando Bento adentrou à cabine segurando um lampião e um pedaço de carne seca. Era hora de examinar sua aquisição com mais cuidado. Sem poder se movimentar muito, ela ainda estava sentada no mesmo lugar onde fora deixada. Com o olhar firme, ela seguia seus movimentos na cabine como uma pantera, esperando a oportunidade para dar o bote.
Ele sentou-se do seu lado e lhe estendeu a carne. Ela a atirou no chão, com um movimento rápido, embora estivesse faminta. Sem aviso, o fidalgo lhe desferiu um tapa tão violento, que ela foi cair exatamente onde o pedaço de carne estava.
Ela o xingou num língua desconhecida e ele fez menção de bater novamente. A mulher calou-se e voltou sua atenção para o pedaço de carne. Ainda estava tomada de fúria, mas sabia que precisava recompor suar forças.
- Acho que você não é tão estúpida, afinal. – Disse ele, levantando-se.
Ela voltou a acompanhar seus movimentos, mas não ousou levantar-se. Ainda não era o momento de mostrar suas garras. Não deixaria a fúria conduzir novamente suas reações. Bento percebia que ela o estudava, mas não se importou com isso. Ele sabia jogar aquele jogo, e já o fazia muito antes dela se tornar uma mulher adulta. Quantos ela teria? Aparentava a idade que as mulheres costumavam se casar em Portugal, uns dezessete ou dezoito anos. Talvez um pouco mais. Era difícil dizer, mas esse detalhe não importava, desde que ela pudesse cumprir os propósitos do seu plano para se estabelecer naqueles rincões.
- Fala minha língua? – Perguntou-lhe.
Ela falou-lhe algo que não compreendeu, mas supôs que estivesse lhe insultando de novo e levantou a mão.
- Eu falar sua língua. – Ela disse, por fim.
- Bom. Muito bom. – falou ele, detendo-se. – Acho que a partir de agora nós vamos nos entender. Você tem espírito, menina. Admiro isso, mas tem que me obedecer. Compreende?
- Eu entender.
- Ótimo. Cumpra minhas ordens e, talvez, um dia tenha sua liberdade de volta.
Os olhos dela brilharam e ele percebeu que acertara em cheio. Ela não tinha desistido como os outros. Lutaria por sua liberdade, se tivesse chance. Talvez pudessem se ajudar mutuamente, se ela fosse inteligente o bastante para compreender que deveria permanecer do seu lado para manter-se livre. Naquela terra, a condição de dominante ou dominado mudava a todo momento, dependendo de uma correlação de forças tão movediça quanto as areias do deserto. O único fator estável era o branco invasor e nisso consistia o maior trunfo que ele tinha, para o que pretendia fazer naquela terra hostil.
Ambos ficaram um bom tempo se estudando. Eram predadores, e não baixariam a guarda em momento algum, mas havia um pacto no silêncio que se seguiu. Uma trégua tão frágil quanto eram as alianças naquele lugar.
Naquele momento, Bento a viu pela primeira vez como mulher. Ela estava deitada de lado, numa posição desconfortável, mas parecia não se importar. Contemplou seu torso nu e deteve-se na curvatura dos pequenos seios e no movimento que faziam com a sua respiração compassada. Surpreso, ele percebeu que tinha uma ereção. Desde o encontro furtivo com a Marquesa, que o fidalgo não pensava em sexo. Na verdade, nunca havia sentido aquela excitação antes. Talvez fosse a submissão que impusera à mulher. Em muitas ocasiões, ele já tinha que não havia nada mais excitante que o poder. Contudo, parecia haver algo mais naquele desejo que crescia de forma quase incontrolável.
Sem pensar muito no que fazia, ele sentou-se ao lado mulher e tentou tocá-la, mas ela o deteve segurando suas mãos. Bento tentou desvencilhar-se, mas seu pulso parecia preso pelas garras de um grifo.
- Sem correntes. – Ela disse baixinho.
- O quê?
- Sem Correntes. - Ela repetiu, e estendeu as mãos.
O fidalgo percebeu que ela o estava testando. Se conservasse as correntes, provavelmente perderia o respeito que via em seus olhos. Se a liberasse das correntes, seria como libertar uma pantera e esperar que ela lambesse sua mão. O risco de ela querer morder sua mão era grande.
Ele era um jogador e, naquele momento, analisava todas as possibilidades. A pantera apenas esperava, sem demonstrar suas reais intenções.