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Voz Cavernosa - Parte 5


Ela o olhava fixamente e seguia atentamente seus movimentos. Parecia avaliar suas chances, se resolvesse atacá-lo. Contudo, o balanço da embarcação pareceu lembrá-la que não havia uma rota de fuga segura. Então, ergueu os braços acorrentados para ele.
O fidalgo procurou as chaves no bolso da casaca. O contato do metal frio o fez hesitar. Talvez não por medo, mas pelo receio de perder o investimento. Por outro lado, queria vê-la escolher por sua própria vontade o caminho que iria trilhar dali por diante. Sua intuição lhe dizia que a melhor forma de segurá-la era deixar livre para decidir. Algo em seu olhar lhe dizia que ela pensava sobre isso naquele momento. Sem esperar mais, ele a liberou das correntes. A mulher esfregou os pulsos e pareceu sorrir. Todavia, não era um sorriso gentil. Em seu olhar havia uma leve expressão de triunfo, quando se afastou dele. Bento se maldisse por ter sido tão precipitado, mas a aposta já havia sido feita.

Com gestos lentos e graciosos, ela se livrou dos trapos que ainda cobriam parte de sua nudez e sentou-se no catre de pernas abertas, virada para ele. Mesmo na penumbra, Bento conseguia perceber sua úmida excitação.
Ante aquela visão, ele teve a certeza de que tinha feito uma boa aposta, a julgar por sua própria reação. Ela pareceu perceber toda a sua ansiosa rigidez, na forma como fechava e abria as pernas para lhe atiçar ainda mais o desejo. Malala queria aquele homem branco, mas nem mesmo ela sabia dizer o porquê daquele desejo, mas isso não importava mais. Sorriu novamente. Desta feita, ele viu em sua expressão o mesmo desejo que o fustigava. Não havia mais dúvidas. Ela o esperava impaciente.
- Vem. – Disse Malala com voz rouca.
O português se desvencilhou de suas roupas tão rápido quanto pôde. Não havia tempo para as sutilezas e os rapapés a que estava acostumado em seus encontros furtivos com as entediadas damas da corte. Ele se acomodou entre as longas pernas dela e viu sua pele negra brilhar sob a luz do lampião, quando os músculos se retesaram e ela o puxou para dentro de si, deixando escapar um longo gemido de satisfação, que se repetiu vezes sem conta, num ritmo cada vez mais frenético.
Nada poderia ter preparado o fidalgo para aquela experiência. Em cada movimento que fazia com sua pelvis, Malala o surpreendia com as novas sensações que lhe provoca. Ele sentiu-se sugado para dentro dela e teve que se conter, para prolongar aquele prazer o máximo possível. Logo depois, eles trocaram de posição e ela o cavalgou como uma deusa de ébano, e se exibiu em toda a sua gloriosa nudez e fúria. Seu corpo esguio e musculoso brilhava ao refletir a luz bruxuleante do lampião e o fez pensar que aquela maravilhosa visão havia sido gravada em sua mente para sempre.
Enquanto ele se esvaia finalmente, num gozo que parecia não ter fim, se permitiu um sorriso quase profano, ao lembrar das pálidas mulheres de Lisboa. Naquele momento mágico, Bento sentiu que já não era o mesmo. Também compreendeu que a mulher negra que estava sobre si e ronronava baixinho, enquanto movimentava suas cadeiras, jamais seria uma escrava.
Mesmo depois de tudo, quando ele pensou que havia terminado, ela não se levantou. Continuou a mexer os quadris num movimento tão sutil, que ele não perceberia, se já não estivesse dentro dela. Enquanto se movimentava, Malala entoava uma canção aprendida da deusa wakala, cujo nome lhe ungia.
Não demorou muito, para que o fidalgo sentisse novamente toda a excitação que julgara haver se esgotado no primeiro embate. Ambos estavam novamente prontos para uma nova e gloriosa batalha. Aquilo lhe era novo também, posto que costumava perder o interesse, tão logo o ardor inicial se esvaía.
Algum tempo depois, ainda enroscados um no outro, eles dormiam profundamente, como se os deuses daquele mundo lhes sorrissem em aprovação ao que surgiu entre eles na noite do dia 12 de abril de 1630. Aquele início de jornada não era bem o que o fidalgo pretendia, quando embarcou no Santa Helena, mas ele não era homem de se queixar. Bento sonhava com as riquezas que ainda iria conquistar e afastar a miséria que rondava sua vida, desde a infância no mosteiro, para onde foi mandado, por conta da insolvência de sua família. Nada mais de pequenos golpes e conquistas amorosas, que só lhe granjearam inimigos por todos os lados de Lisboa. Ele tinha aquela firme convicção que movia os portugueses pelos mares do mundo, em busca de ouro, prata e especiarias do oriente. Se tivesse que destruir, matar ou escravizar para isso, assim seria. Não seria complacente com o mundo. Já vivera o suficiente para entender a roda do destino, e ela esmagava tudo que estivesse em seu caminho.
Não era exatamente um juramento que havia feito. Pessoas como ele jamais juravam sobre coisa alguma. Mas ao embarcar naquele barco, decidiu que voltaria imensamente rico, ou jamais poria os pés novamente em sua terra natal. Não que isso fosse lhe um sacrifício. Há muito intuíra que o apego ao torrão natal era um sentimento útil apenas para aqueles que estavam no poder, cuja ideia de patriotismo servia somente para conduzir as massas ignaras para a frente de batalha, em nome de algum rei ou da Santa Madre Igreja e seus rituais de dominação.
Cedo ele tomou ciência da futilidade presente em certas crenças arraigadas no coração da plebe. Logo que se viu em condições de se conduzir no mundo, tratou de pautar sua existência por interesses mais pessoais, digamos assim.
O fidalgo acordou antes do alvorecer e tentou levantar-se sem acordar Malala, mas ao primeiro movimento dele, ela abriu os olhos e o enlaçou com braços e pernas e voltou a dormir. Aparentemente, ela o aceitava sem restrições, mas essa concessão tinha um preço que ele ainda não sabia se queria pagar. Algum tempo depois, Bento conseguiu se levantar e saiu para aliviar-se.
Estava amanhecendo. O Santa Helena aproximava-se da aldeia do povo Matamba. Sua última escala, antes de retornar ao litoral. Bento voltou para a cabine. Malala o esperava sentada no catre. Ela ainda estava nua e seu corpo oferecia um contraste estranhamente belo com a luz da manhã. Por um momento, ele se esqueceu do que pretendia fazer e ficou parado, contemplando-a embevecido. Se ela tinha consciência do efeito que causava, seria difícil presumir pela sua expressão indecifrável, o que convinha ao fidalgo. Outros assuntos, que não os prazeres da carne, reclamavam sua atenção imediata.
Ele procurou algo em seus pertences que pudesse vesti-la. Encontrou uma camisa de algodão e estendeu para ela.
- Use isto.
A negra examinou o tecido cuidadosamente. Apesar de surrada, a camisa era um artigo de lixo naquela terra. Ela olhou para ele e devolveu a camisa.
- Eu escrava. – Disse, agachando-se para pegar os trapos que usava.
- Não. – Disse ele recusando-se a pegar a camisa. – É um presente para você. A partir de agora você não é mais escrava.
Malala pareceu finalmente compreender o que ele estava dizendo. Tentou colocar a camisa, mas se atrapalhou com o colarinho e as mangas.
- Você... Ajuda? – Disse para ele, com uma expressão infantil que rapidamente se desfez.
Ele a ajudou a se vestir e, depois a contemplou. Novamente lhe veio à mente as lembranças que tinha das mulheres de sua terra. Malala possuía uma elegância tão natural, que certamente mataria de inveja as damas da corte de Lisboa, mesmo que estivesse vestindo os trapos que usava quando subiu à bordo.
- Você não é mais uma escrava, entende?
- Eu livre?
- Sim, mas é melhor que fique comigo, sabe? Para não ser feita escrava de novo. Você está longe do seu povo agora.
- Eu entende. – Ela respondeu, compreendendo rapidamente a situação. – Eu ficar com você, mas não escrava. Eu livre.
- Sim. Você é livre. – Ele disse com um sorriso. Era a primeira vez em sua vida que praticava um ato de generosidade, mesmo por interesse próprio. Aquela era uma sensação nova. Ao que parecia, sua nova vida seria cheia de muitas surpresas.
Malala ainda hesitou. Tanto os homens do seu mundo, como o branco invasor, não lhe inspiravam muita confiança, mas acabou correspondendo ao seu sorriso. Talvez, naquele momento, ela apenas optasse por ganhar tempo. Era verdade que precisava compreender melhor a forma como deveria se posicionar num mundo que se desenhava cheio de contradições, mas ficar com ele ainda lhe parecia a opção mais atraente. Aquele branco a tratava com dignidade, e isso era muito mais do que havia recebido entre seu próprio povo, apesar de ela intuir com razoável precisão, que ele tinha seus próprios motivos para isso. De qualquer modo, não se importava com as razões dele, já que tinhas as suas para guiar seus passos
Quanto ao fidalgo, era difícil evitar o fascínio que ela exercia sobre seus sentidos. Pela primeira vez ele percebeu como sua boca era bonita e a desejou novamente. Entretanto, o Santa Helena já estava atracando e não haveria tempo para novos embates amorosos. Com muito esforço, mudou o foco de sua atenção e procurou algo em sua bolsa.
Entre os pertences de Bento havia um colar de contas de cristais, arrebatado em um dos seus últimos encontros amorosos em Lisboa. Era apenas uma bijuteria. Mas tinha lá seu valor, em razão do acabamento impecável, realizado com pequenas esferas de prata no entremeio e no feche. Ele havia ficado com o colar mais como troféu, do que pelo valor intrínseco do material, mas aquela peça provaria ser de grande valor para consolidar uma aliança.
Quando mostrou o colar para Malala, ele viu seus olhos brilharem por um breve instante. Ela não se mostrava facilmente, mas foi o suficiente para ele perceber que o colar havia despertado seu interesse. Nisso, pelo menos, ela não parecia diferente das mulheres de Lisboa, ele pensou. Todavia, sua interpretação do caráter dela logo se mostraria equivocada.
Com gestos estudados, ele abriu o colar e o exibiu para ela. Malala acompanhou seus movimentos, mas não esboçou nenhuma reação, até que Bento o colocou em seu pescoço e o fechou. Quando ouviu o clique do delicado fecho, ela se permitiu soltar um pequeno suspiro, que ele interpretou como satisfação pela prenda que lhe era oferecida.
- É seu. – Ele disse, mostrando-lhe seu próprio reflexo num espelho. – Se ficar comigo e me ajudar, receberá muitos presentes.
- Eu não querer ser sua. – Ela disse.
Demorou alguns segundos para Bento perceber que Malala entendeu que estava sendo pedida em casamento, ou pelo menos, algo equivalente nos costumes dela. Se a constatação disso o afetou, ele não demonstrou. Seu temperamento pragmático o induzia a tirar o melhor proveito de todas as situações. O fato é que não tinha pensado naquela possibilidade. O casamento lhe proporcionaria uma aliança mais sólida do que seria um acordo por interesses transitórios. Tomá-la como sua mulher não o desagradaria tampouco, mas havia ainda muito o que explorar na estranha relação que se iniciava entre eles. Tudo seria possível naquele encontro de dois mundos, o que raramente se dava de modo pacífico.
O movimento no tombadilho e, depois, um tranco suave indicava que o Santa Helena havia atracado no pequeno cais.
- Você fica aqui, compreende? Espere eu voltar.
- Eu esperar.
- Muito bem. – Ele sorriu com satisfação. Ela não era estúpida, como diziam dos africanos alguns padres jesuítas que retornavam para Lisboa. Ao longo dos anos, ele lograra desenvolver um distanciamento crítico do pensamento católico, principalmente em assuntos que costumavam contrariar evidências, por mais claras que fossem.
Tratar os negros como bestas sem alma atendia aos interesses dos impérios coloniais, sem que os homens tementes a Deus incorressem em pecado. Era uma saída hipócrita, que passava ao largo dos ensinamentos de Cristo, mas os reis católicos não se importavam com isso, nem tampouco a Igreja.
O capitão do Santa Helena estava prestes a desembarcar. Em terra, uma pequena comitiva o aguardava. Era formada por um padre jesuíta, dois homens brancos e dois guerreiros jagas. Bento apressou-se em ir ao seu encontro.
- Vejo que o senhor acordou cedo. – Disse o capitão, com um sorriso levemente irônico, dando a entender que não ignorava a animada noite que ele tinha tido, nem o motivo disso.
- Onde estamos?
- Matamba. Nossa última escala. Está vendo aquele padre?
- Sim.
- É o padre Francisco Dias, membro da Companhia de Jesus. Mas não se fie muito nisso. O bom padre já percebeu que é melhor escravizar esses negros indolentes que convertê-los. Pelo menos como escravos, essas criaturas poderão gerar renda para manter a missão.
Habituado ao comportamento ambíguo das congregações católicas, em relação a essas questões mundanas, Bento deu de ombros. Também ele já via os negros como mercadorias, apesar de Malala.
- Manter a missão e a boa vida. – Respondeu o fidalgo mordaz.
O capitão riu.
- Creio que não devemos deixar o representante de Deus esperando. – Disse o comandante da embarcação. – Acompanha-me?
- Com muito gosto. – Respondeu ele.
Já em terra, o capitão apresentou O fidalgo ao padre Francisco, que não se furtou a uma boa prosa para se inteirar das últimas da corte. Fato que não passou despercebido a Bento. Para um ministro de Deus, o padre parecia muito interessado em assuntos terrenos. Aquilo lhe convinha. Satisfazer a curiosidade do padre poderia abrir-lhe um mundo de possibilidades e pouparia seus preciosos recursos.
Enquanto o capitão negociava o embarque dos escravos que o padre possuía, Bento acompanhou as tratativas com muito interesse.
- Eu esperava que seu plantel fosse maior. – Disse o capitão. Sessenta peças não compensam essa viagem toda.
- Estamos vivendo tempos difíceis, meu filho. É muito complicado manter os cativos em espera, ainda com N’kima Mokomo rondando por aí.
Ao ouvir o nome da guerreira lendária, Bento apurou os ouvidos. Aquele assunto lhe interessava, ainda que não compreendesse exatamente o porquê.
- Pensei que ela fosse apenas uma lenda. – Disse o capitão.
- Antes fosse. Aquele demônio tem atacado muitas missões. Há relatos terríveis, feito pelos poucos que escaparam à sua sanha. Ela se apossa de nossos escravos e de tudo que seu bando possa carregar. Depois some nas montanhas do interior.
- Ela está libertando os escravos? – Perguntou Bento.
- De modo algum. – Respondeu o padre, enxugando o suor de sua testa com uma manga do hábito. – Esse seria um motivo nobre, pelo menos. O boato que corre é que ela usa os melhores para engrossar suas fileiras. Depois vende aos sarracenos todos os que estiverem aptos a trabalhar. O restante ela manda matar. Mesmo assim, dizem que um negro cativo venderia sua alma para acompanhá-la.
Ao encontrar Malala, Bento havia esquecido de N’Kima Mokomo. Talvez porque ela não parecesse tão real quanto a mulher que libertara. Entretanto, as palavras do padre tiveram o dom de remetê-lo novamente à terra dos sonhos e fantasias que ele não tinha como explicar. Novamente a estranha sensação de que havia um fado a cumprir naquela terra, com aquela mulher. Isso implicava em muitas perguntas sem respostas, que provavelmente o destino responderia em algum momento.
Entre as indagações, vinha em sua mente o papel que Malala teria em sua nova vida. Sabia que ela tinha um espírito indomável e isso lhe atraía, quase tanto quanto o exotismo presente naquela ligação entre eles, tão forte e tão frágil ao mesmo tempo. Ela recusou o que pensara ser um pedido de casamento, mas o havia aceitado em seus próprios termos. Parecia-lhe que ela presava a liberdade e a autonomia mais que tudo, como ele próprio.
A negociação entre o astuto padre e o capitão avançaram e Bento prestou atenção somente aos detalhes que lhe interessavam. Detalhes esses que versavam sobre o mercado de escravos e outras coisas que pudessem ser do interesse dos mercadores. Bento saíra de Lisboa com pouco mais de cem mil cruzados. Era uma pequena fortuna, mas investi-la exigia alguns cuidados e muito conhecimento sobre aquela terra. Esse era um dos motivos para ter decidido conquistar o respeito e a confiança de Malala. Precisava dela para guiá-lo pelo que viria dali por diante.
Quando o tumulto começou, ele estava ao lado do capitão. Mal teve tempo de perceber que o homem foi trespassado por uma flecha, quando puxou sua espada da bainha. Nada podia fazer por ele, nem pelo padre. Este desapareceu rapidamente, escudado pelos guerreiros que lhe davam cobertura. Ainda sem entender, Bento derrubou um dos atacantes com um tiro certeiro de sua garrucha, mas isso o deixou vulnerável a um novo ataque, o que não demorou.
Um negro de estatura descomunal aproximou-se de Bento erguendo uma clava. Ao fazer esse movimento, permitiu um contra-ataque e Bento não hesitou, mas foi imobilizado por trás por dois homens. Foi quando a viu. N’Kima Mokomo surgiu diante dele, montada num magnífico cavalo árabe. Ela o olhou de forma enigmática e desmontou.
Dizem que vemos toda a vida passar diante de nós quando a morte se aproxima, mas Bento só conseguia ver N’kima olhando para ele fixamente, enquanto se aproximava segurando uma adaga. Fascinado, ele não conseguiu esboçar nenhuma reação
Ela ficou tão próxima que ele podia sentir sua respiração. Sem poder mexer-se, ele aguardou o golpe que lhe tiraria a vida. Mas o golpe não veio. N’kima limitou-se a lamber sua boca, num gesto inesperado. Depois soltou um grito agudo e reuniu seus guerreiros. Tão de repente quanto surgiram eles foram embora, levando os escravos e tudo que conseguiram pilhar.
Vendo-se livre, Bento mal pôde acreditar que havia sido poupado. Ele não perdeu tempo em procurar explicações para isso. De algum modo sabia que a resposta viria em algum momento.