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Lilith - Noite adentro Cap. II

Eu morri no início do século XIX. Mais exatamente no dia 21 de abril de 1808. Os acontecimentos que culminaram em meu triste infortúnio foram erigidos alguns dias antes, quando fui levada por meu pai à fazenda de Bartolomeu Bueno Ferraz, o homem mais poderoso do Arraial de São Vicente. Eu era o pagamento de uma antiga dívida, contraída a juros exorbitantes.
Com vinte e seis anos, eu era velha demais para o mercado do matrimônio. Na verdade, o destino desejado pelas mulheres de minha época não fazia parte de minhas ambições pessoais. Desde cedo, aprendi a afastar os pretendentes que se apresentavam, para o desgosto de meu pai, que veria com bons olhos qualquer um que o livrasse do ônus do meu sustento.
Por influência de minha mãe, desde cedo eu me apliquei nos estudos de filosofia e literatura. Enquanto era interna em um colégio católico em Lisboa, li todos os clássico que pude encontrar na biblioteca. Logo passei dos princípios da filosofia aristotélica para os poemas de Byron, Shelley e a literatura corrosiva de Jane Austen, com a qual eu tive o prazer de conviver durante uma curta temporada em Londres. Algum tempo depois, fui forçada a voltar para o Brasil, por conta de dificuldades financeiras de minha família, mas a convivência com a escritora inglesa deixou-me o habito de registrar os acontecimentos de minha vida em um diário. Naquele tempo, eu tinha um vago projeto de seguir seus passos na literatura.

Nessa época, minha mãe veio a falecer, vítima da febre amarela contraída em terras brasileiras. Esse acontecimento trágico marcou-me de forma especial e deu início à minha desdita. Sem a proteção e o empenho dela, eu tive que deixar os sonhos de lado.
Antes de seguir adiante, neste relato, é necessário que eu retome a trajetória de minha família ainda em Lisboa. Meu pai era um marquês oriundo de um ramo obscuro da dinastia de Avis, que ainda conservava algumas posses quando se casou com minha mãe. Na esperança de melhorar suas finanças, ele mudou-se com sua jovem esposa para o Brasil. Contava que na colônia haveria oportunidades de enriquecimento que não teria no velho mundo. Buscar fortuna fácil no além-mar era um sonho recorrente dos aventureiros portugueses, que rapinavam as colônias para sustentar a boa vida em Lisboa.
Quanto a mim, eu sonhava com um futuro diferente, mas não tinha a menor ideia do que seria. Apenas rejeitava o papel que me tinha sido reservado pelos costumes de então: casar, me encher de filhos, virar um bagulho e ver o marido sair para a esbórnia, não necessariamente nessa ordem. Naquele tempo, as opções para uma mulher eram escassas. Então, o destino que me esperava era esse mesmo, na melhor das hipóteses. Infelizmente, meu fado logo se revelaria ainda pior. Quis o destino que os negócios de meu pai não prosperaram como ele esperava e, em poucos anos, ficou à mercê dos agiotas. O que me leva de volta ao relato de minha jornada em direção ao meu trágico destino.
Ao chegar à fazenda do meu novo senhor, fui colocada para trabalhar com as mucamas da casa. Isso logo se revelou uma jornada de provações, em razão da hierarquia estabelecida entre elas. Para as negras mais antigas, minha pele branca era como uma afronta e uma ameaça a pesar sobre suas cabeças, pois poderia significar a possibilidade de obtenção de alguns privilégios, em detrimento delas. Então, os piores trabalhos, aqueles mais sujos e pesados, eram sempre reservados para mim.
Eu sabia que não duraria muito naquele lugar, mas esperava estupidamente que um príncipe aparecesse montado num cavalo branco, para me resgatar daquele suplício. Com efeito, alguém apareceu, mas não era o tal príncipe e não tinha cavalo. O meu pretenso salvador se chamava Jerônimo. Era um mulato nascido na fazenda, que me olhava com os olhos compridos desde que cheguei naquele lugar. Ora! A vida ali era tão dura, que eu pensei: por que não? Resolvi lhe conceder meus favores. Afinal, já não era uma mocinha e sonhava com aquilo fazia algum tempo.
Nós nos enroscávamos em qualquer oportunidade. Meu “príncipe” se revelou um mestre na arte da sacanagem, mas eu resistia em ceder completamente. Tinha planos para ele, e a promessa de concretizar a luxúria o manteria motivado. Devo dizer que isso funcionou muito bem. Tanto funcionou, que Jerônimo arquitetava nossa fuga daquele inferno. Essa era uma ideia que me agradava. Contudo, não via muitas possibilidades de sucesso naquela empreitada, apesar do meu amado ter resposta para tudo e acabar me convencendo. Seu plano consistia em alcançar um quilombo antes de sermos pegos. Era o único lugar em que um mulato e uma escrava branca poderiam ter alguma chance para viver em paz. Ele só esqueceu de me dizer que o quilombo mais próximo de nós ficava há muitas léguas de distância, no sertão da Bahia. É claro que aquela empreitada tinha tudo para dar errado.
Enquanto Jerônimo tomava providências para nossa fuga, aproveitávamos cada momento. De tanto aproveitar, quase cedi. No fim das contas consegui manter-me casta, apesar de liberar todo o resto. Por causa disso, ficamos descuidados e um dia fomos surpreendidos pelo capataz da fazenda. Esse foi o começo de nossa desdita. Levados à presença de Dom Bartolomeu, ele mandou açoitar Jerônimo até a morte. Eu nem tive tempo de lamentar. Logo depois fui levada para o porão, onde ele arrancou minhas roupas e acorrentou-me na parede com os braços erguidos. Depois ficou ali, me contemplando e sem dizer uma palavra. Ainda lembro bem do seu olhar. Havia ódio e desejo ao mesmo tempo.
Depois de um tempo que me pareceu uma eternidade, ele se aproximou e lambeu minha boca. Seu hálito rescendia a fumo de corda e cachaça. Não pude conter a repulsa e isso o enfureceu.
- Então, você prefere o negrinho? – Ele disse. Em seguida gargalhou. – O que restou do seu namorado foi atirado no chiqueiro. À essa altura já deve ter sido comido pelos porcos.
Sua voz soava estranha e distante. Eu tinha a sensação de que já não estava mais ali, mas senti quando percorreu meu corpo com sua língua pegajosa. Desgraçadamente eu gostei daquilo. Não queria, mas gostei. Enquanto o maldito se satisfazia, eu pedia perdão a Jerônimo, meu pobre príncipe. Eu deveria ter cedido aos seus desejos, mas preferi usar isso para manipulá-lo. Ironicamente, o que eu lhe neguei, foi-me tirado à força.
Durante vários dias eu fui estuprada e torturada de todas as formas possíveis, até que o meu algoz me espancou e deixou-me como morta. Fiquei pendurada pelas correntes até o outro dia. Pela manhã, eu acordei quando estava sendo carregada, mas não consegui esboçar nenhuma reação. Devem ter pensado que eu estava morta e temi que estivesse sendo levada para o curral, mas não foi para lá que me levaram.
Talvez por um ato de misericórdia, não sei com certeza, fui atirada num fosso que existia nos limites da fazenda. Ali fui deixada para morrer, mas a morte não veio. Eu penei durante vários dias e pedi para o anjo negro vir me buscar. Tanto implorei, que ouvi o som de passos se aproximando. Alguém me ergueu de forma gentil e levou-me para perto de uma fogueira. O calor me reanimou e soltei meu primeiro gemido. As dores vieram atrozes, depois disso. Eu sentia meus ossos quebrados. Estava consciente, mas não conseguia nem mesmo abrir os olhos inchados. Então ouvi a voz falando comigo. Era a voz de um homem velho.
- A menina tá morrendo, sabe disso?
- Sei. – Respondi. – Não importa. Nada mais importa.
- Nem a vingança?                                                                                                   
Aquela era uma pergunta estranha na situação em que me encontrava, mas teve o dom de despertar minha atenção.
- Como poderia fazer isso? Estou morrendo... Não estou?
- Tá sim. Não vai durar muito – Respondeu a voz. – Mas tem jeito.
Aquilo estava ficando mais esquisito, mas eu não estava em condição de reclamar. A possibilidade de vingança soava como música em meus ouvidos.
- Que jeito? – Perguntei entre um gemido e outro.
- Os espíritos da escuridão querem te dar um presente. Tu pode ter outra vida, mas não será como antes. Vai ficar entre a vida e a morte. Tu aceita?
Aquela pergunta era desnecessária. As dores estavam insuportáveis e eu sentia que o fim estava próximo.
- Depressa. – consegui murmurar.
Eu ouvi o velho entoar um cântico numa língua desconhecida, enquanto jogava ervas no fogo. Logo ficou difícil respirar, mas ele mandou que eu inalasse a fumaça. As dores cessaram e eu me senti flutuando. Por um momento achei que tinha morrido, mas isso ainda não havia acontecido.
De repente abri os olhos e vi meu corpo estendido perto da fogueira. Eu olhava de cima, como se estivesse realmente flutuando. Eu vi o velho lavar minhas feridas e depois untar meu corpo com um óleo que tinha o mesmo cheiro das ervas que estavam sendo queimadas. Aqueles preparativos ainda duraram todo o resto do dia. Enquanto fazia isso, ele continuava a entoar o cântico, mas em alguns momentos parecia apenas um murmúrio. Ao cair da noite, deixou-me só e eu continuei ali, a me olhar, como se fosse outra pessoa que estivesse estendida no chão.
O feiticeiro voltou horas depois, quando a fogueira estava quase se extinguindo. Ele trazia consigo uma das escravas da fazenda. Ela caminhava como se estivesse em transe e precisou ser conduzida. O velho a fez sentar-se perto de mim, enquanto aviva o fogo e jogava mais ervas nas chamas. Os cânticos recomeçaram e se tornaram mais altos. Eu percebi que algo surgia da escuridão. Era difícil distinguir plenamente o vulto, mas pude perceber que tinha asas. Quando se aproximou do meu corpo, a luz bruxuleante das chamas iluminaram o que parecia ser um morcego enorme. Ele tinha quase o tamanho do velho e andava saltitando.
A criatura curvou-se sobre meu rosto e eu senti uma dor intensa. Eu vi meu corpo se debater, antes de minha consciência mergulhar na escuridão. Acordei horas depois. Ainda sentia uma dor no pescoço. Eu havia sido mordida pelo bicho, mas os outros ferimentos já não existiam, assim como os osso quebrados pareciam ter sido milagrosamente recuperados. Fora a fome terrível, sentia-me tão bem quanto jamais havia me sentido antes. Eu estava viva, ou pelo menos algo parecido com isso.
Ainda especulava sobre minha nova condição, quando ouvi a risadinha do feiticeiro. O velhote estava acocorado diante de mim e me fitava com os olhinhos brilhando.
- O que aconteceu?
- Tu recebeu um presente dos espíritos da escuridão. Seu corpo foi curado e tem uma nova existência. Como tu se sente?
- Sinto-me bem, mas com muita fome.
- Precisa se alimentar. – Ele disse, enquanto apontava para a escrava.
Mesmo na penumbra, minha visão estava aguçada como nunca esteve e eu logo a reconheci. Era Quitéria, uma das mucamas da casa grande. De todas as escravas que haviam me maltratado, ela tinha sido a mais cruel.
- O que vou fazer com ela?
- Tem que se alimentar. – Ele repetiu.
De repente tudo ficou claro. Eu lembrei do que morcego fez comigo e senti minha boca salivar. A fome se tornou urgente e desesperada. Não pude mais me conter e senti minhas presas se projetarem, antes que eu atacasse a pobre mulher. Felizmente ela ainda estava em transe e não teve consciência de sua morte. Com os dentes cravados em sua garganta, eu drenei toda a sua essência vital. Devo dizer que a sensação era indescritível, quase incontrolável. Tinha algo de sensual e profano naquele ato, como o sexo sádico que meu algoz me impôs naquele porão, antes de me espancar e me deixar para morrer.
Enquanto eu sorvia o sangue de Quitéria, surgiam imagens em minha mente. Eram suas lembranças, memórias de sua breve e miserável vida. Em outra existência, teria sentido pena dela, mas aquela que tinha sido eu já não existia mais. Não era mais capaz de sentir misericórdia e, instintivamente, sabia que devia drenar até a última gota de sua. Não podia deixar nenhuma possibilidade de ressureição.  A criatura que eu havia me tornado não queria gerar descendentes. Essa era uma regra que eu mesma me impus, movida por um instinto de autopreservação, mas poderia haver uma ou outra ocasião em que não seria possível cumpri-la.
Depois daquele dia, eu me tornei uma morta-viva. Havia deixado minha humanidade para trás, mas ainda levaria algum tempo para entender todas as implicações de minha nova existência. Todavia, em meu espírito não havia nenhum arrependimento, não havia mais condição para que isso acontecesse.
Do ponto de vista humano, eu havia me tornado um monstro em minha nova natureza, mas isso já não importava. Eu não era mais humana, nem mesmo estava viva. Pelo menos não pelos padrões do mundo dos vivos.
Nos dias que se seguiram, eu explorei as possibilidades de minha nova existência. Com a ajuda do velho feiticeiro, eu descobri as habilidades que possuía. Havia me tornado mais forte, mais rápida e enxergava no escuro! De todas as capacidades que descobri, a que mais encantou foi a possibilidade de cavalgar as correntes de ar. Eu havia me tornado uma criatura alada, mas não tinha asas. Minha aparência ainda era essencialmente humana e levaria algum tempo até que a metamorfose completa fosse possível, mas nunca desejei realmente isso. De qualquer modo, essa questão não me ocupou a mente por muito tempo. Haviam outras necessidades mais urgentes a requerer minha atenção. Eu precisava me alimentar novamente.
A fome era atroz, mas eu estava decidida dar ao meu antigo dono o privilégio de alimentar-me. Afinal, ele era o grande responsável por minha atual condição. Além do mais, tínhamos contas a acertar e, dessa vez, seria eu a cobrar a dívida. É claro que haveriam juros exorbitantes também.
A saída da caverna me expôs a uma das limitações em minha nova existência. A luz solar era muito desconfortável para mim. Em razão disso, tive que esperar a noite chegar para rastrear minha presa. Eu tinha o seu cheiro ainda vívido na minha memória. Acho que nunca poderia esquecer o odor nauseabundo do fumo de corda e da cachaça que ele exalava, enquanto se refestelava em meu corpo. Seria fácil encontrá-lo.
Ao me aproximar da casa principal, me dei conta que ainda estava nua. Um resquício de pudor ainda estava presente em meu espírito, de modo que meu primeiro ato ao chegar mais perto foi assaltar o varal onde secavam as roupas da mulher de Bartolomeu. É engraçado pensar nisso agora, pois não consigo lembrar dela. A sensação é de que mulher nunca existiu. Acho que nunca a vi, realmente. Todas as escravas mencionavam a “patroa”, vez ou outra, mas ela parecia um fantasma naquela casa.
O vestido que achei no varal não era exatamente do meu tamanho, mas encontrei uma camisola de algodão que resolvia o problema da nudez com mais conforto. Isso não era tanto uma questão de pudor, como cheguei a pensar. Era apenas meu instinto de preservação agindo para que eu não me expusesse desnecessariamente. Afinal, uma mulher estranha vagando nua pela noite, dificilmente passaria despercebida por muito tempo. Por outro lado, vestida de camisola, eu também não seria um primor de discrição, mas teria tempo suficiente para fazer o que pretendia. Podia sentir que meu alvo estava por perto.
Perto da meia noite, Bartolomeu apareceu na varanda para fumar. O odor do fumo de corda era inconfundível. Até hoje ainda me excito com esse cheiro, apesar de estar atrelado às lembranças terríveis do que aconteceu comigo ali. De Jerônimo já tinha dificuldade em lembrar. Talvez fosse meu instinto de preservação agindo novamente para evitar a dor, ou então, eu deixava definitivamente minha humanidade para trás.
Sem me mover, eu observei Bartolomeu. Ele agia como se nada tivesse acontecido e isso me enfureceu, mas me contive. Pensava no que reservei para aquele crápula e me deliciei com a antecipação, o anticlímax. Pelo resto de minha existência iria apreciar o momento que antecede o ataque, quase tanto quanto cravar minhas presas na jugular de minhas vítimas. Eu sentia isso como as preliminares de um ato sexual.
Eu o vi dar uma última tragada no palheiro e apareci. Aquele que tinha sido meu algoz, tentou distinguir o vulto que apareceu para ele à luz da lua, mas tudo que percebeu foi uma mulher vestida de branco. Eu esperei que ele tentasse se aproximar e me ocultei no porão.
Por um instante temi que ele fosse um covarde e não me seguisse, mas logo ouvi seus passos. Senti minha boca salivar e tentei conter minhas presas. Ainda não era o momento dele perceber o que ia acontecer.
- Quem está aí? – Ele perguntou, enquanto tentava me ver na escuridão.
- Sou eu, senhor. – Respondi com a voz mais doce que pude emitir. – Quer brincar de novo, Quer?
- Lilith? – Ele perguntou, quase sem fala. – Mas você está...
Ele se aproximou e finalmente me vê.
- Morta? – Eu respondo de modo provocante e tiro a camisola. – Pareço morta?
- Seu corpo...
- O que tem meu corpo? Não lhe agrada mais?
- Não tem marcas. Isso está muito estranho. – Diz o homem desconfiado, mas já é tarde demais para isso. Eu avancei e o joguei contra a parede com tal violência, que ele perdeu os sentidos.
Gostaria de ter me controlado e o mantido desperto até o derradeiro momento, como ele fez comigo, mas não pude. A lembrança desse detalhe sórdido me fez olhar para as correntes.  Então, algo diabólico surgiu em minha mente. Eu já sabia o que fazer, para não frustrar meu desejo de vê-lo penar. Ainda teria minha vingança, afinal de contas.
Depois de pendurá-lo nas correntes, eu joguei um balde de água em sua cara. Isso o despertou e o deixou pronto para o segundo ato.
- O que pensa que está fazendo? – Ele perguntou com arrogância. Ainda não tinha se dado conta da situação fora do seu controle.
- Não sei. – Respondi. – O que o senhor acha que estou fazendo?
Ele finalmente se deu conta e tentou soltar-se das correntes.
- Solte-me!
- Menino Mau! Pare de se debater ou vai se ferir.
Ele tentou se soltar novamente, mas tudo que conseguiu foi esfolar a pele dos pulsos. Tive que fazer um esforço para me conter e não mordê-lo. A fome estava se tornando insuportável, mas eu queria muito mais do que apenas me alimentar.
- O que você quer? – Ele perguntou. – Tenho muito ouro guardado aqui mesmo, no porão. Você quer ouro?
- Ouro? Hum... Não tinha pensado nisso. Onde está?
- Temos um acordo?
- Talvez. Onde está esse ouro?
Ele apontou para um velho tonel com o olhar.
- Embaixo desse tonel tem um alçapão, mas você terá que me soltar para movê-lo. É muito pesado.
Eu me aproximei do tonel. Coloquei as mãos sobre ele e ergui o traseiro para o meu algoz. Confesso que senti prazer em me exibir, mas queria que o desgraçado lembrasse do que fez comigo. Isso surtiu o efeito que eu esperava.
- Meu Deus! – Exclamou ele, hipnotizado.
- Não ponha Deus nisso. Tente chamar o diabo.
- Solte-me. Você não vai conseguir mover esse tonel.
- Este tonel, você diz? – Eu perguntei, enquanto deslocava o tonel para o lado com o pé.
Ele arregalou os olhos e percebeu finalmente que havia algo errado naquela situação. Pela primeira vez eu vi o medo em seus olhos, mas eu queria mais.
- Mas que diabo...
- Ah! Finalmente o diabo! Chame-o. – Eu disse, ao mesmo tempo em que removia a tampa do buraco e recolhias alguns sacos de ouro em pó. – Vamos, chame o diabo! Você vai precisar de toda ajuda que puder conseguir.
- Você já conseguiu o ouro. Agora me solte! – Ele ordenou furioso.
- Não!
- Mas fizemos um acordo.
- Não fiz acordo nenhum. Você acha que esse ouro paga o que me fez?
- Solte-me, maldita!
- Pode gritar à vontade. Acho que ouvi alguma coisa sobre este porão ser à prova de som, não é verdade? Lembro que ninguém ouviu os meus gritos.
- Vagabunda! Vou matar você.
Eu me aproximei propositadamente e ele me agarrou com sofreguidão.
- Nossa! Como você é forte... Já estava com saudade dessa brutalidade. – Sussurrei em seu ouvido, enquanto mordia ligeiramente seus lábios. Foi difícil resistir à tentação de arrancar um pedaço, mas faltava pouco para isso acontecer de fato.
Ele gemeu quando colei meu corpo ao seu e senti sua rigidez na virilha. O maldito estava excitado. Então aquilo me deu a ideia de alterar um pouco os hábitos dos seres da minha espécie. Abaixei-lhe as calças e fiz aquilo ele queria, mas de um modo que nunca tinha feito antes, nem mesmo em Jerônimo. Quando senti que ele estava preste a chegar ao fim, deixei que minhas presas se projetassem e o decepei num único golpe. O sangue jorrou em minha boca, enquanto ele urrava de dor e pavor. Logo entraria em estado de choque, mas não parei e sorvi até a última gota. Quando acabei, ele estava morto e eu saciada.
Dessa vez não aconteceu como tinha sido com Quitéria. Suas memórias não vieram à mim da mesma forma intensa. Aquele psicopata simplesmente esquecia os atos perversos que praticava. Eu fiquei parcialmente frustrada, mas tinha me vingado. Certa vez ouvi alguém dizer que a vingança não valia à pena. Quem falou isso jamais saberia o prazer que eu senti.


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