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A Entidade - Parte dois.

Ela bem que se esforçou, mas o sono só veio uma hora depois. Ana teria dormido toda a manhã, mas foi acordada por uma carícia insistente nos seios. Ainda sonolenta ela pensou por um momento que estava tendo o mesmo sonho novamente, mas era André com sua ereção matinal, tentando excitá-la. Longe de lograr seu intento, ele apenas conseguiu irritá-la. Ana havia esperado muito daquela noite, mas depois da frustração, não estava disposta a ceder para satisfazer as necessidades fisiológicas e egoístas dele.
- Pare com isso! – Quase gritou, enquanto o empurrava. – Quero dormir.
Ele exalou o ar preso em seu pulmão, surpreso por ter sido repelido. Tinha uma vaga noção de que ela deveria estar ansiosa por uma boa trepada. Afinal já fazia algum tempo que não a procurava para isso.

- Que ótimo! Durma, então! – Ele exclamou com desdém. – Vou comprar uma boneca inflável. Deve ter mais tesão que você.
Ana não respondeu. De repente percebeu que já não tinha paciência para ele, e tudo o que queria era realmente dormir. Talvez ele já tivesse saído quando ela acordasse, se tivesse sorte.
Com efeito, quando ela acordou, estava sozinha em casa. Era quase uma hora da tarde quando levantou-se. Não conseguiu lembrar da última vez que fez isso, ciosa que era dos horários, embora nunca houvesse ninguém a lhe cobrar por isso. André quase parava em casa. Quando estava, pouco lhe importavam os horários, se a geladeira estive abastecida de cerveja e a TV estivesse ligada.
Ana sabia que ele já deveria estar bêbado e entupido de churrasco, de modo que não perdeu tempo tentando achá-lo pelo celular. Na verdade, nem desejava isso, mas o telefone ainda seria útil. Bastou uma ligação para retomar o contato com Lívia, uma amiga do tempo de solteira que não via há muito tempo. André a detestava por alguma razão que Ana ignorava, mas acatou seu pedido de afastar-se dela. Estava cega de amor e fazia tudo o que ele queria.
No meio da tarde elas se encontraram. Depois de algumas taças de vinhos, a conversa correu livre e solta.
- Eu nem acredito que você me ligou, Ana. Depois de tanto tempo, pensei que já tinha me esquecido.
- Foi quase isso. André ficava tão irritado quando eu mencionava seu nome, que dizer a ele que ia encontrar você ou convidá-la para vir à nossa casa podia virar um pé de briga sem fim.
- E você ainda continua casada com aquela íngua.
Ana soltou uma sonora gargalhada.
- Íngua? Não tinha pensado nisso, mas acho que define bem o que sinto por ele agora.
- Antes tarde do que nunca.
- Engraçado, ele também nunca gostou de você. Todas as vezes que eu tentava saber a razão, André mudava de assunto.
- Vou botar mais lenha na fogueira, mas não me importo. Vou lhe contar a razão dessa animosidade toda contra mim. André me passou uma cantada, num momento em que você não estava perto da gente. Levou um toco e uma descompostura. Acho que não gostou muito disso.
- Ah! Miserável! Quando foi isso?
- No jantar de aniversário do seu casamento.
- Desgraçado!
- Deixa pra lá. Não vale a pena estragar o seu humor por isso.
- Tem razão, mas isso reforça o que tinha em mente.
Lívia a olhou com uma expressão cômica de curiosidade.
- Você tá com uma cara de gata querendo comer um canário.
- Faz algum tempo que penso nisso.
- Sério?
- Sim. Hoje vou dar para o primeiro que me encarar. Até vivo sonhando com isso.
- Caraca! O que aconteceu? Você sempre foi tão comportada e certinha.
- Essa noite tive um sonho inacreditável. Daqueles que a gente sonha quando ainda se é adolescente, ou... Tá muito precisada, né?
- Conta, vai. Tô precisando sentir um pouco de tesão, também. – Retrucou Lívia, já bastante curiosa.
O relato de Ana foi bastante detalhado nos acontecimentos que antecederam o sonho. Apesar da impaciência de Lívia, ela achou que a noite frustrada pela indiferença de André tinha relação com a incrível experiência onírica que se seguiu naquela noite.
- Deixa eu ver se entendi. – Disse Lívia, ainda incrédula. – Você sonhou que foi estuprada por um Poltergeist?
- Dizendo assim, parece loucura, mas foi bem real. Cheguei a gozar, se quer saber.
- Jura?
- Ainda sinto minha... Periquita. Seja o que for que me atacou no sonho, tinha um pinto enorme. Eu até pensei que era André em cima de mim, mas ouvi o seu ronco ao lado e abri os olhos apavorada. Eu já estava acordada e sentia alguém, ou alguma coisa, sobre mim, que estava me comendo. Fiquei apavorada e gritei. André acordou e ficou furioso comigo.
- O que aconteceu depois?
- Eu me levantei e fui para o banheiro, sentindo um líquido escorrer pelas minhas pernas, mas não tinha nada. Era só uma sensação. Depois que tomei banho, ainda senti uma leve carícia nos seios, mais nada.
- E André?
- Já estava dormindo quando voltei para o quarto. Depois disso tentei dormir, esperando que o sonho se repetisse, mas acordei com André tentando me comer. Isso sim, parecia um pesadelo. Foi a primeira vez, desde que nos casamos, que eu me recusei a transar com meu marido.
- Depois daqueles preparativos, achei que você ansiava por uma noite de amor com o ele.
- Isso é o mais intrigante. Depois daquele sonho, eu senti repulsa quando André me tocou.
- Eu sempre soube que André era um idiota, mas não ia adiantar falar nada, né? Você parecia tão apaixonada.
- Pensando nisso agora, acho que ele tinha um jeito de desligar meus neurônios, mas isso acabou.
Lívia a fitou com uma expressão curiosa de cumplicidade. Esse detalhe não passou despercebido à Ana, que lhe devolveu o mesmo olhar. Estavam num momento especialmente transgressor.
- Essa sua história me encheu de tesão. – Disse Lívia, sustentando seu olhar.
- Também tô em brasa.
Elas riram juntas e depois pediram outra garrafa de vinho. A conversa entre as duas continuou de uma forma inesperada e, pela primeira vez desde que se conheciam, Ana reparou na boca de Lívia.