Total de visualizações de página

A Entidade - Parte três

O tempo passou e os encontros furtivos de Ana e Lívia se tornaram cada vez mais frequentes, numa espécie de interlúdio necessário para suportar a pasmaceira de um casamento mergulhado em um processo rápido de falência múltipla de laços emocionais e físicos. A única coisa que ainda mantinha o casamento de Ana e André era o aspecto financeiro, compartilhado durante tantos anos. Ela sabia que essa questão certamente provocaria uma longa e cansativa disputa. Mesmo assim, Ana sentia que as questões legais do divórcio logo deixariam de ser um obstáculo intransponível, quando comparadas à liberdade que desejava cada vez mais.

A vontade de libertar-se não era tanto pelo envolvimento com Lívia. Não havia entre elas a intenção de entregarem-se plenamente a uma relação homo afetiva. Ambas sabiam que, além da forte amizade, o desejo que as unia se devia mais ao tédio momentâneo e à incompetência generalizada dos homens que permeavam suas vidas. Contudo, os encontros que mantinham nas tardes, antes solitárias, tinham o dom de acalmar os anseios sexuais de Ana, pelo menos por algum tempo. Ela não chegava a pensar explicitamente nesses termos, mas em algum canto de sua mente havia a convicção de que a experiência que estava vivendo era apenas um paliativo, e que algo mais estava por vir.
Quanto a André, se ele percebeu a mudança de comportamento em sua mulher, seria difícil dizer. Estava tão entretido em seu pequeno mundo, feito de futebol com os amigos e encontros com sua jovem e desinibida assistente, que pouco lhe sobrava de capacidade empática que fosse além de seu umbigo. Mesmo assim, conseguiu notar que Ana já não o aborrecia mais com suas desajeitadas tentativas românticas. Ela finalmente parecia ter entendido qual era o seu lugar naquele maldito casamento, André pensou certo dia, sem considerar a possibilidade do tsunami que se armava para abalar a estrutura de sua existência baseada no egocentrismo.
- Vai sair? – Ela perguntou um dia, de modo casual, ao vê-lo se arrumar.
- Sim. Tenho um jantar com um grupo de clientes. Se importa? – Perguntou ele, em tom provocativo.
- De modo algum. Divirta-se.
- Isso é trabalho.
- Tanto faz. – Ela respondeu de modo displicente.
Foi aí que o primeiro sinal de alerta brilhou na mente de André. Era só uma luzinha fraca e ele não percebeu. Sua mente já estava ocupada com a expectativa de um novo encontro amoroso.
Como se o destino resolvesse conspirar para o caos que se avizinhava, logo depois que André saiu, o celular de Ana tocou. Era Lívia, eufórica com o convite que recebeu para uma viagem.
- Espero que você não se importe. – Ela disse, depois de contar a novidade.
- Claro que não, mas bem que o convite podia ser para nós duas. – Ana respondeu entre risadas.
- Nossa! Como você mudou! – Retrucou Lívia, fingindo-se escandalizada. – Sabe de uma coisa? Eu até pensei nisso, mas acho que uma ménage ia ser demais para ele, pelo menos agora.
- Antes ele tem que fazer por merecer.
Depois de algumas risadas e mais frases picantes, elas se despediram.
Ana ia ficar só durante todo o fim de semana. Eventualmente, André estaria em casa, mas há muito tempo que ela já não contava com sua companhia. Talvez pudesse aproveitar para pôr em prática seu lado outsider, que estava cada vez mais atrevido.
Na sexta-feira, ela se preparou com esmero. Naquela noite, ela sairia vestida para causar e nem se preocupou em arrumar uma desculpa, certa de que o marido tinha outros planos e não a incomodaria com perguntas inoportunas. É verdade que ele tinha seus próprios planos, mas esqueceu de dizer que isso a incluía. Isso ela só percebeu quando, com desalento viu a casa ser invadida por convidados dele, antes que tivesse a oportunidade de sair.
- É só um pequeno jantar. – Ele disse, sem se preocupar com a opinião dela. – Vamos comemorar o fechamento de um grande negócio.
- Mas...
- Não se preocupe. Minha assistente já encomendou o serviço de um buffet. – Ele disse, sem dar chance a qualquer protesto. Ana o odiou por isso, e também pela intromissão daquela vadia em seu território.
- Faça como quiser. – Ela disse secamente. – Vou sair.
- Não vai, não. Todos querem conhecer minha dedicada esposa. – Ele falou, enquanto a agarrava. – Até parece que você adivinhou. Está vestida como uma vadia. Onde pensava ir? Algum bordel?
- Está bêbado?
- Só tomei um whisky... – Ele disse, quase a empurrando. – Tá bom, foram três doses, mas ainda tô lúcido. Agora você vai cumprir o seu papel de esposa apaixonada e receber meus amigos.
O tom era levemente ameaçador. Ela fingiu ceder, mas mentalmente prometia que ele pagaria caro por aquilo. Talvez a noite ainda pudesse ser divertida, Ana pensou de modo distraído, enquanto um carro de entregas parava na frente de sua casa.
O serviço de buffet foi rápido na organização do jantar e, logo depois, ela recepcionava os convidados de André, enquanto analisava disfarçadamente os homens que entravam em sua casa. A maioria estava acompanhado de suas esposas, e os desacompanhados não eram nem um pouco atraentes, ela pensou com desgosto.
O começo da noite não parecia animador, mas de repente entra um convidado que se encaixava no seu padrão de qualidade, por assim dizer. Era um sujeito alto e elegante, que parecia ter saído da imaginação de alguma escritora de romances eróticos. Só uma mulher conseguiria descrever um personagem assim, que se encaixava perfeitamente no que ela imaginava ser o tipo ideal para despertar sua libido.
O recém-chegado encarou Ana de forma um pouco mais demorada do que seria adequado, mas ela gostou disso. Estava com muita vontade de fazer alguma estripulia e ele parecia a resposta às suas preces libertinas ao santo padroeiro da sacanagem, um tal de Sade. Sem se fazer de rogada, ela correspondeu ao seu olhar e flertou abertamente com o sujeito.
- Olá. – Ele saudou com um sorriso jovial. – Sou Carlos.
- Olá, Carlos. Sou Ana. – Ela respondeu estendo a mão.
- Também está sozinha?
Antes de responder, ela olhou para André. Ele estava rindo de alguma piada suja, quando a campainha tocou e a sua assistente gostosinha apareceu na porta. Estava tão saltitante quanto uma foca amestrada, pensou Ana com uma mordacidade que não lhe era habitual. O veneno ficava por conta de ver o marido receber a garota de uma forma que lhe pareceu um tanto afetuosa demais, mas Ana não se importou. Já tinha seus planos para a noite, e isso não incluía seu marido, naturalmente. Já fazia algum tempo que não alimentava expectativas com relação ao seu casamento, que não fosse o fim dele.
- Estou completamente só. – Ela respondeu com uma voz rouca, que pretendia ser sexy e irresistível. Anos fazendo o papel de esposa dedicada a tinham deixado despreparada para a nova vida que pretendia ter.
- Então vou pegar alguma bebida para a gente, está bem?
Ela sorriu de forma encorajadora e ele se afastou, para voltar logo depois. Depois desse início, a conversa fluiu solta e amigável, mas horas passaram e mas nada do seu objeto de desejo tomar qualquer iniciativa mais ousada. À medida em que a noite avançava, eles acabaram se afastando um do outro. Ana pensou talvez ele já soubesse que ela era a mulher de André e isso pode tê-lo forçado a recuar. Afinal, alguns homens ainda conservavam certo escrúpulos, mesmo nos dias de hoje. Contudo, a razão era outra, como Ana logo descobriu. Um convidado tardio apareceu e logo despertou seu interesse. Era tão bonito quanto aquele com quem estava flertando sem muito sucesso.
Ela foi em sua direção, pensando em fazer as honras da casa, mas o recém-chegado se aproximou do primeiro homem e o abraçou de forma afetuosa e, para surpresa dela, os dois deram-se as mãos.
- Era só o que me faltava. – Ela resmungou para si mesma, enquanto se afastava. – Não acredito que flertei com um gay a noite inteira. Isso pode acabar com a autoestima de qualquer garota.
Apesar da situação, Ana não era uma mulher insegura e conseguiu manter o bom humor. Anos de indiferença de André, ao mesmo tempo em que era alvo de olhares na rua, a tinham calejado na arte do equilíbrio e da autoconfiança. Somente o amor que pensava ter pelo marido a mantiveram afastada de alguma possível aventura, até que retomou o contato com Lívia. Lívia! Sua ausência começava a incomodar.
Um rápido olhar pela sala e o jardim quase vazios indicou que a festa estava no fim. O movimento mais intenso era dos garçons do serviço de buffet, ocupados em recolher copos, pratos e talheres. André havia desaparecido e, junto com ele, sua assistente serelepe. Não havia em Ana nenhum sentimento especial por aquela constatação. Apenas lamentava a noite frustrada. Lamentava, mas não muito. Haveriam outras noites.
Depois que os últimos convidados se retiraram, Ana dispensou os garçons e fechou a casa. Estava cansada, mas ainda disposta a tirar algum proveito daquela noite frustrante. Pegou uma garrafa de champanhe e uma taça e foi para o quarto. Ainda tinha a si mesma e muita imaginação. Quando despertou para a sexualidade, acariciar-se era um prazer que se concedia em momentos diversos. Um pouco por solidão, mas na maioria das vezes era pelo prazer mesmo. Sua formação agnóstica, livre das amarras do puritanismo religioso facilitou inúmeras descobertas sensoriais e um conhecimento apurado de si mesma. Em razão disso, sabia que nunca tinha tido uma relação que fosse plena e, aos poucos, se convencera de que sua melhor parceira sexual era ela mesma. Somente Lívia fora capaz de se aproximar e tocar-lhe onde queria ser tocada. Mesmo assim, havia algo que faltava. Algo que poderia alcançar sua alma, como havia experimentado naquele sonho estranho. Esse foi o último pensamento consciente, antes de mergulhar no sono profundo, ainda desejando que o sonho se repetisse.
A sensação de peso sobre si a despertou de repente. Ana dormia nua de bruços e tentou se virar, mas não conseguiu. Alguém muito pesado impedia seus movimentos e acariciava sua nuca com a língua. Não era André e a sensação de perigo a deixou arrepiada e assustada. Estava para ser estuprada por alguém que deveria ter se escondido no quarto antes do fim da festa, mas quem faria isso? Tentou ver algum reflexo na cabeceira da cama, mas não havia nada na superfície envernizada que pude ver. Então ela ouviu uma voz rouca:
- Você me chamou, Anaaaa! Vim satisfazer seu desejooo... – Disse a voz, esticando as vogais.
Ana tentou falar, mas não conseguiu emitir nada que não fosse um grunhido assustado. Suas cordas vocais pareciam paralisadas pelo medo que sentia e ela percebeu que iria desmaiar, mas lutou contra a inconsciência. Não seria estuprada sem lutar!
Subitamente a sensação de peso sobre ela desapareceu e Ana tentou se virar, mas uma mão grande e forte a deteve.
- Nãoo! É proibidooo. – Disse a voz.
Ela tentou resistir, mas a força que a detinha era descomunal, embora não a machucasse de fato. Apenas a impedia que se virasse. Em pânico, se convenceu de que nada podia fazer, além de se submeter. Logo depois sentiu uma língua percorrendo seu corpo nu. A sensação era forte e aumentava à medida em que o toque se demorava em pontos mais sensíveis. Ana resistiu o quanto pôde, mas a sensação de pânico estava dando lugar a uma outra sensação ainda mais forte. Ela estava ficando excitada e nada podia fazer contra isso.
De repente ela sentiu a língua do agressor penetrar seu ânus e ela estremeceu com um prazer inesperado.
- M-Meu Deus! – Ela conseguiu exclamar.
A língua interrompeu seus movimentos.
- Não clameee por Eleee!
- Desculpe...
A voz rouca silenciou e ela percebeu que podia se virar. Não havia ninguém no quarto, além dela. Ainda assustada, Ana se deu conta de que não tinha sonhado. Algo realmente havia acontecido ali com ela. Ainda trêmula, levantou-se e foi para o banheiro. De repente sentiu uma necessidade premente em lavar-se.