Total de visualizações de página

Crônicas da Cidade dos Mortos - Wazinga Capítulo V

Ao narrar seu encontro com Malala, Voz Cavernosa pareceu emocionar-se. Ao ouvir sua voz ligeiramente trêmula, eu consegui perceber que sua origem era inequivocamente humana. Era a primeira vez que isso acontecia, pois até então, eu tinha a certeza quase absoluta de que estava lidando com uma criatura gerada no inferno.
Nossas sessões de entrevistas eram feitas no cemitério. Logo depois que os portões se fechavam, encontrávamo-nos diante da Tumba. Como eu pertencia ao mundo dos vivos, não tinha acesso ao seu interior. Uma condição temporária, dizia ele, com a sua mordacidade habitual.
De minha parte, embora tenha concordado em escrever a história dele, não tinha nenhuma pressa em mudar de plano existencial, nem mesmo para ter minha passagem permitida naquele portal. Ainda hoje, tenho arrepios só de olhar aquelas gárgulas sinistras que ainda guarnecem a entrada da Tumba.

Aquele desconforto, ante a visão da Tumba, perdurou durante todos os encontros com Wazinga, mas ele parecia não se importar com isso. Na verdade, acho que até se divertia, tal era sua insistência em nos encontrarmos naquele ali. Isso desagradava Berenice ainda mais. Desde o início, ela não via com bons olhos aquela empreitada. Aquele arremedo da besta-fera, com sua aura sombria, ainda estava bem nítido na memória dela. Era-lhe era difícil compreender meu interesse na história dele. Confesso que, a princípio, a proposta de me envolver novamente com assuntos do mundo dos mortos não me agradou, mas de cada vez, o relato de Voz Cavernosa despertava meu interesse cada vez mais.
Ainda faltava o detalhe da máquina de escrever sobrenatural, mas ele resolveu isso também. Na lateral da Tumba havia um pequeno vestíbulo, para o qual fui conduzido com inusitada delicadeza. A máquina estava lá, sobre uma pequena escrivaninha em estilo rococó. Tudo ali cheirava mofo, mas tentei não me importar com isso. Felizmente eu não era alérgico aos ácaros e fungos que certamente estavam ali a me espreitar.
À medida em que eu me absorvia na história de Wazinga, percebia nuances em sua natureza que haviam escapado em nossos primeiros contatos. É inegável que sua narrativa exercia uma atração irresistível para mim, para desgosto de Berenice. Isso me exigiu algumas concessões, a fim de preservar a paz em minha vida familiar. Tive que prometer que meu envolvimento com o mundo dos mortos acabaria com aquele último trabalho, pelo menos enquanto ainda estivesse vivo, é claro. Essa pequena reticências não era compartilhada por minha amada, naturalmente. Desde que que recuperamos nossa história, a vida era tudo que lhe interessava. Essa convicção se tornou ainda mais arraigada desde que se confirmara sua gravidez. Isso me parecia perfeitamente compreensível, devo dizer.
A inadequação que Berenice demonstrara em sua vida anterior se devia sobretudo à ausência de sua contraparte espiritual, ou sua alma gêmea, para ser mais claro. Para minha boa ventura, ela precisa tanto de mim, quanto eu dela, para ser completa e feliz. Ainda tínhamos uma longa jornada, sabíamos disso, mas pouco importava, desde que a fizéssemos juntos.
Que me perdoe o leitor esse pequeno parêntese em minha narrativa. Ele foi necessário para explicitar minha mudança na percepção da natureza de Wazinga. Esse mesmo sentimento de plenitude que me invadia ao lembrar de Berenice, eu percebia agora em Voz Cavernosa, quando falava de sua Malala. Quem diria que aquele demônio ainda tinha coração?
Tanto tinha que reclamou do tratamento que eu havia dado à sua história. A narrativa em terceira pessoa não o havia agradado. Carecia de “alma”, segundo ele. Eu nem conseguia compreender o que ele queria dizer com essa observação, mas a história era dele. Argumentei que a narrativa em terceira pessoa era justamente o que tornava o texto mais impessoal e objetivo.
- Não quero um relato impessoal. – Ele me disse. – Você deve escrever como se minhas palavras fossem suas.
- Você sabe o risco que corre com essa mudança de ponto de vista, não sabe?
De imediato, o demônio apenas riu e desviou o olhar. Havia algo ali que não foi expresso em palavras.
- Apenas escreva. Coloque todo o sentimento que você teria se estivesse contando a sua história. Aproveite para treinar, o seu dia no tribunal das almas também chegará.
A menção ao dia em que eu também enfrentaria o julgamento de minha alma fora proposital e não me surpreendeu. Voz Cavernosa gostava de provocar. O que me deixou espantado é que ele realmente estava se preparando para ser julgado.
- Pensei que você estivesse além do tribunal das almas. Você nem mesmo...
- Parecia ter uma? – Ele completou minha pergunta com seu sarcasmo habitual. – Na verdade tenho, mas foi vendida há muito tempo. Falta só... Entregar!
Não sei se aquela declaração realmente me surpreendeu. O relato de sua origem humana, e a ambição que o movia, já havia me levado a intuir que sua jornada no mundo dos mortais havia extrapolado qualquer limite possível para um homem comum.
- Por que? – Perguntei.
Ele ergueu uma de suas espessas sobrancelhas, como se não tivesse entendido minha pergunta. É claro que tinha. Mesmo assim expliquei.
- Por que você vai se submeter ao tribunal das almas? Quero dizer... Você tem outros recursos, não tem?
- Tenho. Mas até mesmo para mim uma jornada deve chegar ao fim.
Eu ia lhe encher de perguntas, mas ele me calou com um gesto de impaciência.
- Chega de perguntas. Vamos continuar minha história, mas mude o ponto de vista para a primeira pessoa.
- Ainda acho que uma narrativa em terceira pessoa seria mais adequada para o fim a que se destina.
A referência ao “fim” e “destino” não foi muito oportuna, sei disso, mas eu era muito cioso de tudo que escrevia. Pensei que o tivesse irritado, mas ele apenas me olhou com aquele olhar jocoso.
- Essa história não lhe pertence, escriba. – Ele retrucou, como se tivesse lido meu pensamento. – Esqueceu?
- Tudo o que escrevo me pertence. – Teimei.
O demônio riu de minha impertinência e, por um momento, pensei que fosse me trucidar, mas acabou cedendo parcialmente. Ficou combinado que em certos trechos, ou mesmo em algum capítulo, eu poderia usar a terceira pessoa, segundo meu próprio critério, mas sem exageros. Faltou saber o que ele entenderia como exageros, mas enfim, tínhamos um acordo, para minha surpresa.
Minha experiência de negociação com Wazinga sempre tinha sido frustrante. De algum modo ele sempre me tapeava, até que eu lhe dei o troco por ocasião do julgamento da alma de Estela, mas aquilo também me custou caro. Suponho que ele também não tenha engolido minha recusa à sua oferta para que me juntasse à sua trupe infernal.
Isso me levava a pensar que o demônio tinha seus motivos para ceder alguma coisa. Talvez ele precisasse de mim, afinal de contas. Seja como for, mesmo a contragosto, escrevi quase toda a sua história utilizando o ponto de vista da primeira pessoa.
Creio que neste ponto, o leitor já tenha se cansado de digressão, mas gostaria de ressaltar um ponto que me parece importante para a compreensão de certos fatos mais adiante. A narrativa prossegue em primeira pessoa, como ele me pediu tão gentilmente. Pouco acostumado com essa nova faceta do demônio, ainda me demorei a cismar por muito tempo a respeito de seus reais motivos para aquela mudança abrupta de comportamento. Alguma coisa estava acontecendo com ele, sem dúvida. Entretanto, eu ainda não tinha a menor ideia do que pudesse ser. Esses fatos iriam ser tornar claro mais adiante. Vamos à história de Wazinga, então.


Minhas primeiras experiências em terras africanas não foram muito auspiciosas. Eu havia perdido meu investimento em Malala e presenciara a morte do capitão do Santa Helena, de quem nutria certa admiração e com quem esperava compartilhar algumas aventuras lucrativas. Todavia, apesar daqueles acontecimentos nada animadores, eu persistia na firme convicção de que meu meu futuro estava firmemente ligado ao continente africano, com todas as contradições advindas do colonialismo europeu.
O santa Helena permanecia atracado no cais, sob a guarda de alguns marinheiros sobreviventes. Sem capitão à bordo e sem o imediato, que havia perecido também no ataque dos homens de N’Kima Mokomo, a embarcação aguardava providências de seus arrendatários, ou da Companhia da Índias Ocidentais, da qual a a nau pertencia. Isso demandaria ainda algum tempo, pois somente uma semana depois a notícia do ataque seguiu para Portugal, à bordo de outro navio negreiro.
Quanto à mim, senti por bem desfrutar da hospitalidade do bom padre Francisco e me abriguei provisoriamente na missão da Companhia de Jesus, até conseguir traçar novos planos. Não podia correr o risco de dilapidar o pouco capital que dispunha. Entretanto, confiava que o vento quente, que soprava das regiões áridas, me indicasse um novo caminho. Não acreditava que os deuses dos ladrões e mercenários houvessem me abandonado à própria sorte. Até então, eu não era inclinado à devaneios de natureza mística, dada a minha própria vivência nos meandros da Igreja Católica. As práticas dos seus dirigentes e sacerdotes, pelo menos no meu tempo, me levaram cedo a questionar os dogmas da fé. Contudo, eu tinha uma convicção inexplicável de que algo que me fosse favorável ainda aconteceria.
Enquanto isso não ocorria, tratei de conhecer melhor a região onde me encontrava. Tendo o padre Francisco como mentor, iniciei-me no promissor mercado de escravos. Em pouco tempo, havíamos recuperado o número de peças perdidas no assalto de N´kima Mokomo. À lembrança dela era inevitável não pensar em sua contraparte: Malala! Sim, falar desse modo beirava à insanidade, mas não conseguia pensar em ambas como sendo a mesma mulher. Por muito tempo essa dúvida persistiu.
Alguns meses se passaram, sem nenhuma definição quanto ao destino do Santa Helena. De forma inexplicável, os investidores que o arrendaram à Companhia das Índias Ocidentais não deram mais notícias. A embarcação continuou atracada no cais, com o que restava de sua tripulação. Quis a providência divina, ou os deuses que governavam a vida dos indivíduos de minha estirpe, que a Companhia de Jesus se responsabilizasse pelas necessidades dos homens que estavam à bordo cuidando da equipagem. Naturalmente, Padre Francisco esperava ser ressarcido daquelas despesas de alguma forma, enquanto que eu tecia planos para o Santa Helena por minha própria conta.
Apelando para o espírito pragmático do padre Francisco, o convenci a preparar o Santa Helena para navegar por nossa conta. Era preciso levar os cativos até o mercado de escravos na costa brasileira, antes que houvesse alguma perda para novos ataques de N´kima Mokomo ou doenças. Tínhamos apenas o equivalente à meia carga da embarcação, mas os custos de manutenção eram altos e precisámos fazer o capital investido girar.
Depois de convencido das vantagens do meu plano, padre Francisco tratou das providências para a jornada ao Brasil de forma diligente e admiravelmente rápida. Em pouco tempo, já tínhamos um imediato com os indispensáveis conhecimentos de navegação. A tripulação se completou com alguns negros livres, de confiança do jesuíta. O bom padre se revelou bastante astuto em se precaver de algum infortúnio. No meu entender, essa era uma providência desnecessária. Ele tinha a mim para zelar por seus interesses. Não que eu fosse exatamente um anjo de bondade, mas sabia reconhecer o quanto nossa sociedade poderia ser benéfica para ambos. De qualquer modo, aqueles homens poderiam ser úteis. O tráfico de escravos para o Brasil não era exatamente um passeio pelo Mediterrâneo.
Com todas as providências sendo tomadas à contento, supus que estaríamos prontos para partir em alguns dias. Enquanto eu cuidava do Santa Helena, com o auxílio de sua tripulação original, Padre Francisco se esmerava em conseguir mais carga para a viagem.
Em nossa pressa, tínhamos em mente zarpar antes que algo pudesse impedir nossos planos acontecesse. Malgrado nossos esforços, isso aconteceu um dia antes da partida. Ela voltou! N´kima Mokomo havia retornado com todos os seus sanguinários seguidores.
Depois de tantos meses, eu já supunha que jamais voltaria a vê-la, mas ali estava ela, diante da rampa que eu descia. A mulher me fitava atentamente com aqueles olhos de pantera, que eu já conhecia tão bem. Atrás dela, uma multidão de negros seminus e armados até os dentes também olhavam para mim. Sem saber de suas intenções, pensei em me jogar no rio infestado de crocodilos, mas felizmente preferi correr o risco com ela.
- Eu querer falar com você. – Ela disse, naquele português estropiado.
Eu ainda estava vivo, então supus que aquilo era um bom sinal e me aproximei. Então vi outro possível bom sinal; ela usava o colar de contas que eu lhe dera.
- O que quer?
- Negociar. Trouxe escravos para vender.
Só então notei um grupo de negros acorrentados uns aos outros. Aquelas peças podiam muito bem ter sido os negros que foram arrebatados do padre Francisco, mas isso parecia não fazer diferença para ela. Bom, também não fariam para mim.
Procurando não demonstrar nenhum temor, passei por sua guarda pretoriana e fui examinar os cativos. Não tinha muito o que ver, dado meu desconhecimento do assunto, mas confiei que ela teria trazido boas peças, a julgar pelo aspecto de cada um. Pareciam negros saudáveis, capazes de sobreviver à travessia do atlântico até o nordeste brasileiro.
- O que você quer por eles?
- Você!
Eu não sabia que podia ser tão valioso, mas o inusitado da proposta indicava que parecia uma pilhéria, exceto por um detalhe: ela estava séria.
- Você me quer como escravo?
- Não. Você não me pertencer. Eu querer você ao meu lado.
As surpresas dela ainda não haviam terminado. Ou muito me enganava, ou eu tinha sido pedido em casamento. Lembrei de nossa última conversa, quando eu lhe dei o colar e a fiz pensar que queria casar com ela.
- Você não me queria antes. O que mudou?
- Eu ter duas ... – Ela parou de falar, enquanto procurava palavras que expressassem o que queria dizer.
- Razões?
- Isso! – Ela conseguiu sorrir ligeiramente. – Você diferente. Me trata como igual.
Eu ponderei aquilo. Não costumo ser gentil com as mulheres, de um modo geral. Porém, desde o primeiro momento que a vi, ainda acorrentada, percebi que ela possuía uma altivez surpreendente para uma cativa. Ela era única, sem a menor sombra de dúvida. Isso certamente conduziu minha atitude em relação àquela mulher.
- Você disse ter dois motivos. Qual é o outro?
- Os espíritos dizem que devemos ficar juntos.
Eu não tinha a menor ideia do que aquilo significava, nem planejava uma união com mulher alguma, mesmo que fosse uma guerreira africana. No entanto, quem sou eu para duvidar dos espíritos? Além do mais, tinha minha própria intuição a esse respeito. Essas coisas de destino, sabem? Se não sabem, pouco importa. Ainda em Lisboa, quando subi à bordo do Santa Helena, sabia que tinha um fado a cumprir. Uma impressão que se tornou ainda mais forte, quando ouvi falar dela pela primeira vez. Naquela ocasião não sabia seu nome comum. Apenas tinha ouvido o nome pelo qual era conhecida a lendária guerreira: N´kima Mokomo. Malala e eu nos unimos naquela noite, sob as bênçãos não muito entusiasmada do padre Francisco. Ficamos juntos apenas por uma noite. Eu ainda não sabia, mas teria razões para lamentar ter partido no dia seguinte. Poderia ter desfrutado um pouco mais da companhia de minha princesa de ébano. Ainda hoje, passados tantos séculos, ainda guardo na memória o seu cheiro de canela e seu gosto.  Sua magnífica nudez, banhada pela luz do luar não me deixava dúvidas de que ela seria única. Naquele momento, não era N´kima Mokomo que estava diante de mim a me olhar de forma tão doce. Era Malala! Isso era tudo que eu precisava saber.
Antes do raiar do dia iríamos nos separamos mais uma vez. Era o momento de iniciar minha viagem ao Brasil. Ela preferiu ficar e continuar suas escaramuças contra os outros povos africanos, em busca de pilhagens e mais escravos. Muito tempo depois é que percebi que havia uma lógica em seus ataques, os quais visavam mais o branco invasor do seu mundo do que as tribos rivais. Apesar disso, por alguma razão que desconheço, ou talvez pela vontade dos deuses daquele mundo, ela não me incluía na categoria a qual dirigia tanto ódio, apesar da cor da minha pele.
Na minha lembrança da partida ficou seu olhar. Aquele olhar tão expressivo e cheio de promessas pousavam confiantes em mim. Sabíamos que muito tempo se passaria até nos uníssemos novamente, mas os desígnios dos deuses dela estavam a nosso favor. O tempo não mudaria a sede que tínhamos um do outro. Esse sentimento estranho, tão intenso que me arrebatava, não fazia parte do cinismo habitual de minha mente europeia. Eu estava mudando de uma forma que jamais imaginara ser possível. Até mesmo o ceticismo frio e distante estava a ceder para uma outra forma de me relacionar com o mundo, permeada de uma natureza mística que me envolvia e preenchia todo o meu ser. Disso tudo estava a emergir um outro homem. O branco europeu não mais existia.