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A Entidade - Parte Quatro.

A ausência de Lívia se prolongou por vários dias, além do fim de semana. Ana interpretou isso como um sinal de que a viagem romântica de sua amiga havia se tornado algo mais gratificante. Ficou feliz por ela, mas não pôde evitar uma pontinha de ciúme, que logo foi esquecido no primeiro encontro que tiveram depois do seu retorno. Elas se reencontraram no mesmo bar onde retomaram a antiga amizade.
- Menina! Não acredito! Você teve outro sonho com o poltergeister?
- Não sei se foi um sonho. A coisa toda pareceu bem real.  
- Nossa! Queria ter sonhos assim ... – Disse Lívia, revirando os olhos.
A gargalhada que se seguiu ecoou por todo o salão do bar, num momento improvável de silêncio, entre uma música e outra.
- Ops! – Exclamou Ana, constrangida.
Lívia apenas sacudiu os ombros, mas baixou o tom de voz quando perguntou:
- Você gozou, como da outra vez? Hum ... Pela sua cara, acho que não.

- Dessa vez, tive que terminar sozinha. Ele se foi, logo depois de ter me penetrado.
- Você acordou?
- Eu já estava acordada. Por isso acho que não foi um sonho. Agora que estou lhe contando, lembro de ter exclamado “Deus!”. Ele não gostou disso.
- Como você sabe?
- Ele falou. – Disse Ana, de um modo tão casual que surpreendeu a si mesma.
- O quê! O fantasma falou com você? Não acredito!
- Falou. Eu ouvi sua voz de forma bem nítida. Não estava imaginando coisas, ou vai ver que estava, sei lá. Você acha que tô ficando louca?
Lívia a olhou com uma expressão de dúvida, mas depois riu.
- Não. Isso deve ter uma explicação, não é? Uma alucinação, drogas, sei lá. O que você anda fumando?
- Fala sério...
- Desculpe. Só estava tentando descontrair você.
- Não teve graça.
- Eu sei, mas não fique brava. Acho que fiquei nervosa com a explicação que me ocorreu.
- Não enrola! Diz logo o que pensou.
Lívia não falou de imediato. Parecia pesar bem as palavras que ia proferir.
- Se você não sonhou, não estava sob o efeito de alguma droga, nem está insana, só resta uma explicação possível...
- O quê? Fala logo!
- Aquilo aconteceu. Seu fantasma existe mesmo.
- Isso eu já sei. Só faltava acreditar plenamente. Ouvindo de você fico mais tranquila.
- Então, comadre... Se é assim, relaxa e goza.
- Quem me dera! Ele sumiu.
- Também, pudera... Você tinha que falar em Deus, né?
- Não estava exatamente falando em Deus. Foi só uma interjeição, quando senti ele dentro de mim. A sensação foi fantástica. Nem posso lembrar que já fico excitada e isso tá virando uma tortura para mim. Quero meu fantasminha de volta!
- Se é que é um fantasma, realmente.
- O que você quer dizer com isso?
-Estava pensando na reação dele ao nome de Deus. Uma alma penada não deveria reagir assim, deveria?
- O que você está tentando dizer?
- Que talvez o seu fantasma não seja exatamente um espírito sacana. Pode ser que você esteja sendo possuída por um demônio.
- Demônio?
- Sim. Um incubo. Nunca ouviu falar?
- Eu sei o que é, mas isso não pode ser verdade.
- Por que não? Você admite que está tendo um caso com algum fantasma, mas não acredita em outras manifestações sobrenaturais? Não está sendo coerente, não acha?
- Tem razão. Depois da última manifestação tudo é possível.
- O que você pretende fazer agora?
- Não sei. Não tenho o número do celular dele. Acho que nunca mais acontecerá de novo, infelizmente.
- Infelizmente?
- Sim. Eu estava começando a gostar.
- Caraca! Você é doida. Mas acho que tem um modo de resolver isso. – Disse Lívia, com voz misteriosa.
- Tem? Como? Devo fazer um exorcismo de trás para frente?
- Eu já li em algum lugar que existem rituais para invocar essas entidades. Deve ter alguma coisa na internet. Por que não experimenta?
- Acho que não. Ele veio até mim espontaneamente, se é que realmente existiu. Pode ter sido fruto de minha imaginação, não é?
 Ana ficou em dúvida se Lívia estava falando sério ou se divertindo à custa dela. Na dúvida, resolveu se preservar, mas intimamente ficou interessa no ritual.
- Talvez você apenas precise de um bom amante. A falta de sexo pode mexer com a cabeça.
- Sim, claro. Já pensei nisso. Mas antes vou pedir o divórcio do cretino com quem eu me casei.
- Jura? Que maravilha! ... Nossa! Até fiquei com tesão.
Ana riu.
- Ficou nada. Agora você só pensa no seu novo caso de amor.
Lívia de repente ficou séria e pegou as mãos de Ana.
- Amantes vem e vão a todo momento. Nossa amizade é para sempre, certo?
- Certo.
- E o tesão também. Não se esqueça disso.
Então, de repente, elas sentiram que tudo estava bem. Apesar disso, Ana decidiu naquele momento que lidaria com “seu” poltergeister sozinha. Na mesma noite, pesquisou na internet tudo que se relacionasse com a experiência que tinha tido. A lista de resultado dos principais mecanismos de busca era imensa e ela levou dias separando os sites e blogs que traziam informações mais consistentes.
- Ao que parece, meu fantasminha é realmente um incubo. – Disse para si mesma, certa noite. – Isso explica a aversão ao nome de Deus.
Depois de comparar a descrição do ritual de invocação descrito em várias fontes, ela fez uma lista de coisas que iria precisar. Para sua surpresa, os itens relacionados não eram difíceis de encontrar. Em cada site havia também uma descrição detalhada do ritual.
- Uma vela vermelha, uma vela preta, incenso de canela e um grande prato raso.
Para quem estava esperando coisas como olhos de taturana e dentes de dragão vesgo, a lista não deixava de ser uma decepção, mas facilitava as coisas para ela. Tudo era tão simples, que ela duvidou que a invocação fosse realmente dar certo. Por um momento sentiu-se tola, mas foi em frente com a ideia de invocar o íncubo, ou seja lá o que fosse.
No dia seguinte, pela manhã, ela foi às compras. Aproveitaria o sumiço de André no fim de semana para fazer o ritual de invocação. Se não desse certo, pelo menos seria uma boa razão para não pensar mais naquilo.
No sábado, ainda no período da tarde, ela entregou-se a um longo ritual de preparação para o que mais parecia ser um encontro amoroso, do que propriamente a invocação de uma entidade sobrenatural. Depois de um banho de imersão, dedicou um longo tempo aos cuidados com a pele e o cabelo. Ao anoitecer já havia esgotado seu estoque de lingerie, sem conseguir escolher um conjunto que a deixasse satisfeita. Por fim, depois olhar-se no espelho, decidiu que “vestiria” apenas seu perfume favorito. Estava pronta para o que desse e viesse, pensou.
Por volta da meia-noite, já sozinha, Ana iniciou o ritual de invocação em tensa expectativa, mas nada aconteceu. Pensando ter esquecido alguma coisa, repetiu tudo. Novamente não houve nenhuma manifestação sobrenatural. Depois da quarta repetição do ritual, sem nada acontecer, ela desistiu.
Deitada nua de costas, ela aos poucos se entreteve consigo mesma. Seu corpo ansiava em ser acariciado e Ana não se fez de rogada. Tocou-se de todas as formas que conhecia, sem nenhuma pressa. Tudo o que ela desejava era prolongar o prazer até a exaustão. Então, quando o gozo estava preste a irromper, ela sentiu o peso sobre si.
- Anaaaa! – Disse uma voz em seu ouvido.
- Você veio!
Ela sentiu suas pernas serem afastadas e um pênis tocou sua vagina, mas se deteve antes da penetração, como se estivesse esperando seu consentimento.
- Venha! – Ela sussurrou, erguendo o quadril. – Entra em mim, por favor.
Ao sentir-se de repente penetrada, ela soltou um urro que misturava dor e prazer. O falo parecia ainda maior e mais rijo do que se lembrava, mas ela o recebeu sem hesitação. Dessa vez, manteve o cuidado de não proferir nenhuma palavra que pudesse afastá-lo. Apenas gemia a cada estocada, sentindo o gozo se aproximar em uma vigorosa onda de prazer, que se repetiu inúmeras vezes, até que ela quase desfaleceu, enquanto ouvia seu nome.
- Anaaaaa!
Uma forte sensação de plenitude a acometeu quando Ana percebeu que o seu parceiro sobrenatural havia-se ido, depois de preenchê-la com o seu próprio orgasmo. Quando ela acordou, horas depois, sentia-se dolorida e feliz. Seu desejo havia sido satisfeito como nunca tinha acontecido, mas queria mais, sem se importar com as consequências que poderiam advir do ato que praticara.
No início, realizava o ritual apenas quando sabia que André estaria ausente. Algum tempo depois, já não se continha. Depois que percebeu que já não precisava de rituais de invocação, batava apenas desejar, ela se entregava ao seu amante do outro mundo até mesmo deitada do lado do marido.
Não demorou muito para que André percebesse que algo estranho estava acontecendo com ela.
- Você anda tendo uns sonhos esquisitos, não é? – Ele perguntou, à mesa do café da manhã.
- Não que eu me lembre, por quê? – Ela retrucou com estudada indiferença.
- Pelos gemidos que você fez a noite passada, parecia estar transando.
- Tem razão! – Ela disse, batendo na própria testa. – Tenho um fantasma que me come toda noite. Como pude esquecer?
- Engraçadinha! – Retrucou André arrependido de ter iniciado aquela conversa.
Ana percebeu o seu desconforto e riu com prazer. A situação não tinha sido planejada, mas estava se vingando de anos de indiferença e traição.
- Não se preocupe. – Ela disse, ao fim da risada. – Afinal, fantasmas não existem, não é?
- Se existir. Tome cuidado para não engravidar do seu Gasparzinho. – Ele retrucou com sarcasmo, antes de sair da cozinha.
Ana percebeu a retirada estratégica de André para se assegurar de ter dito a última palavra, mas não se importou. Apenas deu de ombros, mas a questão da gravidez levantada pela mordacidade dele acendeu uma pequena luz de alarme em sua mente.