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Zaphir - Cap. II

Sobre garotas, maus perdedores e mais acontecimentos insólitos.

Os dias passaram rápido. Sob a orientação e proteção de Gabriela, a existência de Michel na escola tinha se tornado um pouco mais calma. Já havia aprendido os códigos não escritos de convivência com os valentões e os evitava com mais habilidade, embora ainda contasse com ela, cuja presença era suficiente para manter os mais encrenqueiros afastados, pelo menos por algum tempo.
Certo dia ele apareceu na casa dela todo agitado. Trazia um pequeno envelope na mão e o agitou diante Gabriela quando ela abriu a porta.
- Adivinha o que é.
- Não faço a mínima ideia. – Respondeu ela impaciente. – O que é?
- Um convite para você. Também recebi um.
- Um convite para mim? – Ela arrebatou o envelope da mão dele e o abriu sem muito cuidado.
- É um convite para a festa de aniversário da Valéria. Não é legal?
- É estranho. Essa garota nunca falou comigo, apesar de a gente estar no mesmo time de vôlei da escola.
- Acho que sei por que.
- Então me explica sabidão.
- Você é uma espécie de celebridade na escola. É a estrela do time de vôlei, boa aluna, líder... É isso.
- Fala sério. – Disse ela surpresa. – Você pirou de vez. Posso contar nos dedos as pessoas que realmente gostam de mim.

- Não tô falando de gostar, mas de prestígio. É isso que ela deve tá querendo para a festa dela.
- Então ela que vá se ferrar. Não vou.
- Puxa! Eu ia até ganhar uma roupa nova para ir à festa da Valéria.

Gabriela deu de ombros.
- Você foi convidado. Por que não vai?
- Tá brincando? Só fui convidado porque sou seu amigo. Se não fosse isso seria invisível e ninguém se lembraria de mim. Muito menos uma gata daquelas.
Gabriela olhou para ele pensativa. De repente se deu conta do quanto era importante para Michel ir àquela festa. Ela o conhecia bem e tivera paciência para descobrir a pessoa especial que ele era. Algo que não se percebia à primeira vista. Normalmente era ignorado fora do seu pequeno grupo de amigos.
- Tá bom. Eu vou com você
- Yes! – Respondeu ele com entusiasmo.
A mãe de Gabriela chegou naquele momento e ficou curiosa com o entusiasmo de Michel.
- Posso saber o motivo dessa alegria toda?
- Fomos convidados para uma festa de aniversário. – Respondeu Gabriela sem muito entusiasmo.
- É da Valéria. Uma menina lá da escola. – Completou Michel.
- Que ótimo. Precisamos comprar uma roupa nova para você. – Disse a mãe de Gabriela.
- Para quê? Eu já tenho roupa suficiente.
- Uma festa de aniversário é uma ocasião especial e tenho a certeza que você gostaria de estar bonita para a ocasião.
- Não precisa mamãe. É só uma festa idiota.
- Precisa sim. Amanhã nós vamos tratar disso. – Disse a mãe entrando.
Então, mesmo contra a vontade, Gabriela preparou-se para ir a uma festa de aniversário. Seria a primeira de sua adolescência e ela já estava decidida a detestar. No dia seguinte, levada pela mãe, ela percorreu diversas lojas de um shopping. Depois de muito experimentar, ela escolheu um vestido florido de alcinha.
- Perfeito! – Exclamou sua mãe quando ela saiu do provador. – Você ficou linda.
A aprovação materna lhe inspirou um pouco mais de confiança, principalmente porque sabia que sua mãe não era de fazer falsos elogios. Nesse quesito ela era constrangedoramente franca.
- Então podemos ir para casa agora? – Perguntou ela cansada daquela maratona.
- Ainda não. Você vai precisar de sapatos que combinem com o vestido e mais algum acessório.
- Ai! – Exclamou ela com resignação.
Sua mãe riu de sua expressão entediada e, depois de pagar o vestido, puxou-a para mais uma maratona pela galeria de lojas de sapatos e acessórios.
A preparação de Michel para ir à festa de Valéria foi mais simples. Ganhou dos pais um novo par de tênis, calça jeans e camiseta de uma marca famosa. Tudo escolhido em alguns minutos em cada loja. Ao contrário das mães que tinham filhas, a mãe de Michel pôde ser prática e objetiva. A única concessão foi um corte de cabelo mais elaborado, inspirado num jogador de futebol famoso.
No dia da festa, Michel chegou à casa de Gabriela bem antes da hora marcada pela mãe dela para leva-los. Estava ansioso, mas teve que esperar quase uma hora até que ela descesse a escada pronta para sair.
Usando o vestido novo, Gabriela estava diferente da garota de camiseta, jeans surrado e tênis velho que ele costumava, encontrar quando não estavam na escola. Usava ainda um discreto colar de ametista que combinava com os pequenos brincos da mesma pedra engastados em ouro branco. Completava o conjunto um par de sapatos vermelhos de salto baixo. O modelo era mais simples do que sua mãe queria comprar, mas era gracioso e confortável como ela desejava que fosse.
- Nossa! – Exclamou ele, quando a viu descer a escada. – Você está... Quase linda.
- Isso foi quase... Um elogio, eu acho. – Respondeu ela com uma careta. – Você também não está mal, exceto por esse corte de cabelo esquisito. Parece que você levou um choque elétrico.
- É a última moda.
- Sei... Na periferia, é claro.
- Puxa! Pensei que ia arrasar.
Ela riu do seu jeito desapontado.
- Brincadeirinha! Você está ótimo assim.
Meia hora depois, a mãe de Gabriela os deixou no clube onde a festa se realizava. Antes que eles saíssem do carro, ouviram uma série de recomendações.
- Não se esqueçam de manter o celular ligado. – Disse ela por fim. – O pai de Michel virá buscar vocês, mas se quiserem vir antes, ou tiverem algum problema, me liguem. Entenderam?
- Sim mamãe. – Respondeu Gabriela com a cara de enfado comum aos adolescentes quando queriam esconder seus verdadeiros sentimentos.
Nenhum dos dois confessou, mas ambos estavam nervosos e pensaram em voltar para casa antes mesmo de entrar. Entretanto, respiraram fundo e foram em frente para o primeiro compromisso social de suas vidas. O receio inicial logo se mostrou infundado, quando a dona da festa os recebeu no hall de entrada do clube.
- Que bom que vocês vieram. – Disse ela com simpatia. – Já conhecem o clube? O salão da festa fica em frente e, ali ao lado, fica a sala dos pais, mas não se preocupem com isso. Eles logo estarão bêbados ou entediados demais para ficar controlando a gente.
Valéria pegou a mão de Gabriela e a levou para o salão. O toque de sua mão era quente e afável e fez Gabriela de repente se descontrair. Michel as seguiu um pouco atrás, depois de distrair-se olhando as meninas que chegavam. Ao entrarem ouviram os acordes iniciais de Be may baby, uma música que fez sucesso antes de seus pais nascerem.
- O tema da festa é Anos Cinquenta. Foi uma ideia de minha mãe. – Explicou Valéria. – Ela disse que foi a música que ela dançou com papai quando eles se conheceram. Pelo que sei essa música já era antiga na época dela, mas eu gostei da sugestão. Não entendo a letra, mas parece tão romântica.
- Eu gostei. – Disse Michel, imaginando se teria coragem de tirar uma menina para dançar.
Ainda segurando a mão de Gabriela, Valéria os conduziu até as mesas onde estavam seus amigos da escola.
- Agora vou receber outros convidados e dar uma circulada, mas depois eu volto. – Disse ela sorrindo. – Fiquem à vontade.
A princípio Michel não teria motivos para ficar a vontade naquele grupo. Em sua maioria era formado pelos mesmos garotos que o esnobavam na escola, mas eles pareciam diferentes do que pareciam na sala de aula. Em alguns minutos estavam relembrando com bom humor a surra que Jorjão levou de Gabriela, enquanto algumas meninas olhavam para Michel com admiração por algum motivo que ele não compreendeu, mas estava adorando.
Gabriela também estava diferente. Parecia feliz com o efeito que parecia causar nos garotos, quando dançava aquelas músicas antigas. Nem mesmo ela sabia que podia gostar tanto disso e acabou descobrindo que era bom não parecer um menino. Valéria voltou logo depois e sorriu para ela, juntou-se ao grupo da escola e caiu na dança.
O tempo passou sem que eles percebessem e o salão começo a esvaziar. Logo restava apenas o grupo da escola e a música cessou por força do regulamento do clube para festas de aniversário de adolescentes. Era o fim da festa, mas os pais presentes na sala ao lado não pareciam ter pressa de ir embora. Então alguém sugeriu que brincassem de “Salada Mista”. Era uma brincadeira onde cada fruta tinha um significado. Pera dava direito a um simples aperto de mão, uva um abraço, maçã um selinho e salada mista um beijo bastante ousado para a idade deles. Os participantes ficavam em círculo e uma das pessoas ficava no meio com o braço esticado e olhos fechados e era girada por outra. Quando o giro cessa, o participante ainda está de olhos fechados, sem saber para quem estava apontando, tinha que escolher uma das frutas ou salada mista. A pessoa que girava no centro podia se dar bem, quando acertava quem desejava ou muito mal, quando a ousadia da escolha caia sobre a pessoa errada.
A primeira a ficar no centro foi Marina, uma moreninha espevitada de olhos amendoados. Era uma das meninas que olhava Michel com insistência no início da festa. Esperta, ela memorizou sua posição antes de fechar os olhos e contou os giros que dava. Ao parar, ainda de olhos fechados, apontava certeira para ele.
Ao perceber que tinha sido escolhido, Michel começou a torcer mentalmente: “salada mista, salada mista!”.
- Maçã. – Disse ela.
Droga!”.
- Vai Marina! Pega ele! Gritaram os demais participantes em coro.
A menina se aproximou olhou-o nos olhos e deu-lhe um beijo estalado na boca, sob os aplausos da torcida organizada.
Bem, pelo menos não sou mais BV”. Pensou ele resignado. Na linguagem dos adolescentes, BV significava Boca Virgem, um atributo não muito meritório.
Mais duas pessoas foram para o círculo até que Valéria também foi sorteada. Ela girou várias vezes até que parou apontando para Gabriela.
- Salada mista. – Escolheu Valéria ousada. Ela tinha feito quinze anos e havia decidido que aquela noite seria memorável.
- Não! – Exclamou Gabriela do alto dos seus 13 anos completados há poucos meses. – Não era para mim que ela queria apontar. Eu mudei de lugar.
- Vai amarelar agora Gabriela? – Gritou um dos participantes.
Outros protestos se fizeram ouvir e Gabriela não soube o que fazer para sair daquela enrascada. Valéria se aproximou e a incentivou a continuar a brincadeira.
- É só uma brincadeira, Gabi. Não vai doer. – Ela disse com uma expressão maliciosa no olhar.
Gabriela não se moveu e ficou um momento em silêncio. Achava aquela situação esquisita e queria sumir dali, mas também não iria amarelar na frente de todo mundo.
- Tá. Vai logo com isso.
As bocas se encontraram e Gabriela sentiu a língua de Valéria se insinuando entre seus dentes. Aquilo lhe provocou uma sensação estranha, quase uma vertigem. Seu coração disparou e ela entreabriu a boca e permitiu que as línguas se encontrassem. Tudo não passou de um breve momento, mas foi o suficiente para lhe causar uma impressão profunda e de natureza desconhecida..
- Eu sabia onde você estava. – Disse Valéria baixinho, enquanto se afastava.
Gabriela não soube o que dizer. Estava confusa, mas certamente iria lembrar dessa festa durante muito tempo.
De volta à escola na segunda-feira seguinte, Michel não demorou muito para sentir que o breve interlúdio de paz já havia acabado. De algum modo, pressentia que seus problemas com os arruaceiros estavam longe de terminar.
Aquela sensação de medo ele já conhecia bem. A boca seca em contraponto às mãos frias e suadas e o coração disparado, querendo sair pela boca. Sentia-se um rato acuado naquele corredor que parecia não ter fim. Era uma sensação ruim de solidão e desamparo. Ele se odiava por isso, mas tinha que admitir que não nascera para herói. Era apenas um garoto comum, franzino e assustado com os valentões da escola.
Gostaria que Gabriela estivesse ali com ele, mas ela tinha treino de vôlei naquele horário e o ginásio de esportes ficava distante das salas de aula. Ela lhe dava confiança e uma incrível sensação de segurança quando estava próxima dele. Uma sensação que logo desaparecia quando ele não a via. Então, tudo o que sentia era o medo e a percepção de que os garotos encrenqueiros estavam à espreita para atacar, e eles estavam mesmo. Pareciam adivinhar quando ele estaria desprotegido. Adivinhar? Não, ele sabia que não era isso. Seria fácil descobrir quando Gabriela não estaria perto dele. Bastava saber que as aulas que tinham em comum aconteciam no período vespertino, Atividades complementares, como oficina de artes, aulas extras e esportes se davam no período da tarde, quando não estariam juntos. Michel tinha aulas de música. Ele tocava flauta doce, um instrumento mais fácil de carregar e esconder, depois que o seu violão foi estourado na sua cabeça pelos garotos maiores. Gabriela fazia parte do time de vôlei da escola e treinava à tarde quase todos os dias.
Todos os garotos sabiam que não deviam se meter com Gabriela, e evitavam incomodar Michel quando ela estava por perto. Alguns tinham lembranças bem dolorosas de sua ira e se esforçavam para não cometer os mesmos erros com ela, exceto a implicância costumeira com Michel. O fato de ele ser protegido por uma menina também não o ajudava e, na verdade, parecia provocar ainda mais os baderneiros de plantão. E eles eram muitos e andavam sempre em bandos. Talvez isso pudesse sugerir que não eram tão corajosos assim. Contudo, mesmo que fosse apenas um, ainda assim ele preferia evitar o confronto, ou então contar com seu anjo da guarda de sempre. Ele tinha consciência disso, mas não sabia como romper aquela dependência.
O sinal indicando o fim do intervalo soou no corredor. Michel apressou o passo na tentativa de voltar à sala de aula antes que seus algozes costumeiros aparecessem, mas foi uma esperança vã. Eles estavam na porta esperando por ele e a situação piorou ainda mais. Jorjão surgiu no fim do corredor e avançou para ele com uma expressão demoníaca no olhar. Ele era um mau perdedor, como se poderia esperar e, aparentemente, ainda não tinha esquecido a derrota no jogo de taco, nem a humilhação imposta por Gabriela, apesar de não precisar de nenhum motivo especial para castigar seu saco de pancadas preferido.
Michel calculou suas possibilidades rapidamente e logo concluiu que a única saída era fingir que esqueceu algo na cantina e retornar. Talvez conseguisse enganar aquela matilha de pittbulls. Era um plano besta, ele pensou, enquanto recuava devagar, mas era o único que tinha. De repente ouviu um grito:
- Pega ele!
Era Jorjão atiçando seus asseclas. Michel não teve alternativa. Perdeu a compostura e disparou corredor afora na direção do pátio da escola. Passou pela cantina correndo como um ladrão desesperado fugindo da polícia e enfiou-se no ginásio de esportes. Ofegante, ele viu Gabriela na quadra de vôlei, mas pedir-lhe ajuda naquele momento não era uma boa ideia. Preferia apanhar de Jorjão a expor-se ao ridículo na frente de tantas garotas. Seria perder o que lhe restava de dignidade. A única alternativa que vislumbrou foi enfiar-se no vestiário feminino. Ali, certamente, seus algozes não entrariam. O problema é que as garotas entraram logo em seguida, e Gabriela estava entre elas. Ele, então, se escondeu em uma das inúmeras privadas. Infelizmente a onda de má sorte ainda não o havia abandonado. O trinco da privada escolhida não funcionou e ele não teve como trancar a porta. Só lhe restava esperar que nenhuma das garotas escolhesse a privada onde estava. Mas a má sorte continuava insistente, como geralmente ocorria nessas situações. Gabriela veio diretamente em sua direção e entreabriu a porta o suficiente para vê-lo. A sua expressão de espanto logo cedeu espaço para um olhar cheio de ira, que parecia quere fulminá-lo. Entretanto, ela nada disse e fechou a porta.
- O que foi? – Perguntou uma das meninas, ao vê-la recuar.
- O trinco não funciona.
- E daí? Não tem mais ninguém aqui, além de nós.
Ela abanou a cabeça. Felizmente costumava ser muito reservada e ninguém estranhou quando entrou em outra privada.
Ainda suando frio, Michel subiu em cima do bacio. Não tinha outra opção além de tentar ocultar-se até que elas saissem. Não queria ser pego como o tarado que Gabriela deve ter pensado quando o viu, mas isso podia ser explicado depois. Ela certamente compreenderia..
Ele deixou uma pequena fresta para ver as garotas. Algumas já estavam tirando a roupa e Michel começou a achar que aquela situação não parecia tão má, a menos que fosse pego ali escondido.
De onde estava não podia ver todas as garotas, mas o que via já era suficiente. Embora não se sentisse muito à vontade espiando as meninas, ver garotas nuas era uma atração quase irresistível. Afinal, oportunidades como aquela não aconteciam todo dia. Na verdade, era a primeira vez que via garotas nuas e a nudez delas lhe provocava uma excitação difícil de compreender. Contudo, passado o primeiro momento, a conversa delas também chamou sua atenção.
- Sabiam que a Ana Rita tá grávida? – Perguntou uma lourinha, mal contendo a excitação que a fofoca lhe provocava.
- Ana Rita? Não é aquela da oitava série? Ela é tão quieta... Não sabia que já era tão avançadinha. – Disse outra, uma morena alta e magricela.
- Avançadinha? Aquela é uma tremenda come quieta, isso sim.
- Olha só quem fala. Não é você que anda passando o rodo na sétima série? – Retrucou outra menina para a loura.
- Jura? – Perguntaram em coro as demais garotas aproximando-se delas.
- Se juro? Nem o Jorjão escapou.
- Caraca! Aquele gordo grandão? Ele parece tão idiota.
- Ele não parece idiota. – Respondeu a loura. – Ele é um completo idiota e não é tão grande quanto pensa.
A conversa baixou o nível e Michel se surpreendeu com a disposição das garotas em falar mal dos meninos. Felizmente ele não foi incluído naquela sequência de comentários maldosos, talvez por ser pequeno demais para chamar a atenção delas. Já tinha razões suficientes para se sentir a mosca do cocô do cavalo do bandido e, às vezes, era melhor ser invisível, principalmente ali, perto de um bando de garotas peladas.
Meia hora depois, quando já estava com câimbras por estar acocorado em cima do bacio e quase ter sido descoberto diversas vezes, Michel percebeu que elas tinham silenciado. Cuidadosamente entreabriu a porta da privada para verificar. Entretanto, ele ainda não estava sozinho. Uma mão firme empurrou a porta e ele caiu sentado no bacio.
- Explique isso pirralho. – Falou Gabriela com uma cara de poucos amigos.
O tom de voz dela não deixava dúvidas. Gabriela estava zangada e ele estava em apuros.
- Bem... Você acreditaria se eu dissesse que eu entrei aqui por engano?
- Não!
- Sabia que essa desculpa não ia colar.
- Que tal a verdade? Será que devo pensar que o meu melhor amigo está se tornando um pervertido?
O tom de voz dela variou diversas vezes numa mesma frase e Michel julgou perceber um pouco de mágoa nas últimas palavras. Talvez decepção. Aquilo o afetou mais do que esperava. Preferia levar um soco de Gabriela a decepcioná-la por qualquer motivo.
- Tá bem. Eu não queria dizer que me enfiei aqui para escapar do Jorjão e sua gangue. Também não queria pedir a sua ajuda de novo, principalmente na frente das suas amigas linguarudas.
- Aquelas galinhas não são minhas amigas. – Ela disse interrompendo. – Apenas jogamos no mesmo time.
- Tá. – Concordou ele. Não se atrevia a falar muito e acabar dizendo o que não devia. Gabriela parecia estar na TPM, pensou ele, embora achasse que ela ainda não tivesse idade para isso.
- Você estava mesmo fugindo daqueles idiotas? – Ela perguntou com um leve sorriso zombeteiro.
Michel respirou fundo, aliviado. Ela já estava de bom humor novamente e isso era bom, mesmo que fosse à custa dele.
- Sim. Não queria correr o risco de perder o controle e acabar batendo neles.
- Sei... Mas você sabe que terá de enfrenta-los um dia, não sabe?
- Um dia... Talvez. Não tenho pressa em ceder ao lado negro da Força.
Ela riu com vontade.
- Enquanto isso não acontece você aproveita a situação para ver garotas peladas, não é?
- Eu não olhei para elas.
- Fala sério...
- Tá bem. Só olhei um pouquinho.
- Olhou para mim também?
- Não. Você não estava no meu campo de visão. Mas mesmo que estivesse eu não olharia. Não teria graça.
Ela o olhou de forma enigmática.
- Por que não?
E agora? O que ele deveria responder? Gabriela gostava de metê-lo em sinucas desse tipo, como se o tivesse testando.
- Não sei. Talvez porque você não estivesse se mostrando para mim, eu acho. Seria como roubar algo de você.
- Hum... Essa saída foi muito boa. Inacreditável, mas boa. E as outras garotas?
Ai meu Deus!”. Pensou ele. “Será que ela não vai parar de fazer perguntas difíceis?”.
- Com elas era diferente. Eram apenas garotas e nenhuma era você. Na verdade não as vi direito, só vi peito e bunda. Depois perdi o interesse quando ouvi a conversa delas. Não sabia que garotas podiam ser tão vulgares.
- Algumas podem ser até piores, mas na maior parte do tempo é só conversa fiada. As garotas também gostam de contar vantagens, como os meninos.
O sinal de fim de aula soou e eles se deram conta que haviam perdido a última aula do dia.
- Vamos pegar suas coisas. O Jorjão e sua turma já devem ter ido.
- Será? – Perguntou ele enquanto tentava esconder seu temor.
- Eles são sempre os primeiros a ir embora, quando não matam a última aula. E depois, acho que não vão querer provocar o seu lado negro, não é?
Ele não respondeu e Gabriela o abraçou pelo pescoço, puxando-o para fora do vestiário. Quando chegaram à cantina, já não se ouvia nada que pudesse lembrar a algazarra da saída da escola. Eles pegaram suas coisas e uma notificação para cada um por terem se ausentado da sala de aula sem permissão.
- Minha mãe vai me matar. – Disse ele consternado.
- Conte a verdade para ela. Isso não foi tão grave assim, principalmente considerando as suas notas.
- Como assim?
- Ora! Você é um CDF e sua mãe sabe disso.
- Não sou CDF.
- É sim. Admite.
- Não.
- Tá bom. Então é um Nerd.
- Assim tá melhor, eu acho.
Michel estava feliz. Tudo estava bem entre eles e isso era o que mais lhe importava, pensou enquanto seguiam para o ponto de ônibus.
No dia seguinte, o despertador do radio relógio tocou às seis da manhã. Gabriela deu um tapa no interruptor e voltou a dormir. “Mais quinze minutos”, foi o último pensamento antes que a sua consciência resvalasse novamente para o mundo dos sonhos. Contudo, o despertador não lhe deu tréguas e voltou a tocar, invadindo o quarto com o som agudo e intermitente do alarme.
- Já? – A pergunta foi seguida de um longo bocejo. Ela tinha a impressão que havia desligado o alarme alguns segundos antes. De fato isso tinha acontecido mesmo, mas havia algo errado com o despertador.
Com as pálpebras ainda pesadas de sono, Gabriela levantou a mão para dar o costumeiro tabefe no aparelho.
- Ei! Não me bata de novo! – Falou uma voz metálica, que parecia sair do rádio relógio.
Já completamente acordada, ela olhou ao seu derredor.
- Quem tá falando? – Perguntou assustada.
- Sou eu, seu despertador favorito. Agora levante, menina preguiçosa. O tempo urge e você precisa voltar para Walka.
Gabriela aproximou-se cautelosamente do aparelho Aparentemente ele parecia normal. Era um radio relógio novo e ainda estava na garantia do fabricante. Será que estava sendo vítima de uma pegadinha da emissora que estava sintonizada por acaso?
- Q-quem está falando. – Gaguejou, repetindo a pergunta e sentindo-se uma idiota.
Em resposta ouviu uma risadinha zombeteira.
- Sou o coelho maluucoo!... – Ouviu a voz ecoar em seus ouvidos.
- Tá bom! Só que Alice não mora aqui. – Falou irritada. De repente lhe ocorreu que aquilo poderia ser obra de Michel. “Eu pego aquela peste”.
- Levante-se menina! Já é tarde.
- Tarde? Tarde para quê? Não estou entendendo nada.
- Você precisa voltar para Walka. É hora de restaurar a unidade do ser.
Se aquilo era uma brincadeira, estava passando dos limites, pensou Gabriela exasperada.
- Walka? Unidade do ser? Que conversa é essa?
- Walka... Volte para Walka...
- Nunca ouvi falar. Tchau coelho, disse ela, e puxou o fio da tomada do rádio relógio.
- É tarde... – Tornou a ecoar a voz metálica, antes de emudecer completamente.
O quarto voltou a ficar em silêncio, como se nada tivesse acontecido. Gabriela levantou-se e foi para o banheiro, pensando que talvez estivesse vendo desenhos animados demais ultimamente. Não conseguia pensar em outra explicação para aquela experiência absurda. O melhor que tinha a fazer era tomar um banho e acordar de vez.
Vinte minutos depois estava em frente ao espelho embaçado pelo vapor. Tentou pentear os cabelos, mas sem conseguir concentrar-se na tarefa, parou o pente no alto da cabeça. Ainda pensava no que tinha acontecido, sem encontrar uma explicação razoável. Achava que só podia ter sido um sonho, mas sentira-se bem acordada quando o rádio relógio começou a lhe falar. Respirando fundo, puxou o pente para baixo e decidiu não pensar mais naquilo.
Olhou novamente apara sua imagem refletida no espelho e teve a impressão que ela estava se distorcendo. Pegou uma toalha de rosto e estendeu a mão para limpar o vapor condensado na superfície lisa e fria. Quando sentiu o puxão era tarde demais para recolher a mão, presa por uma garra monstruosa.
Mesmo assustada, ela olhou para o espelho. O que viu fez seu sangue gelar. A criatura que a estava segurando parecia ter saído de um pesadelo ou um jogo de vídeo game. Era um ser híbrido. Algo entre um homem e um grande símio, ou talvez um lobisomem. O monstro olhava para ela com grandes olhos vermelhos que pareciam pulsar como brasas.
- Venha para Walka menina. – Disse o demônio, com uma voz rouca.
- Largue-me! – Gritou Gabriela. Com o joelho apoiado na pia ela se contorcia e tentava desvencilhar-se daquelas garras. A Criatura a puxou mais para perto do espelho.
- Não repudie seu destino. Junte-se a mim novamente. Disse o monstro, forçando sua aproximação ainda mais.
Gabriela ficou sem fôlego debatendo-se para se desvencilhar. Quando parecia estar perdida, ouviu a voz de sua mãe.
- Gabriela! Você ainda não levantou? Vai chegar de novo atrasada no colégio.
Ainda sem fôlego, Gabriela ergueu-se num pulo. Confusa, demorou a perceber que ainda estava na cama.
- Você está pálida. Está sentindo alguma coisa?
- Acho que tive um pesadelo. – Disse incerta.
- Está tudo bem agora. Vá tomar banho e seja rápida, está bem? Michel já está esperando.
- Tá!
- Por que o seu rádio-relógio está desligado? – Perguntou a mãe, apontando para o aparelho desconectado da tomada de energia.
- Não sei. Devo ter me esquecido de ligar.
- Está bem. Agora vá para o banho, enquanto preparo seu café.
Ainda impressionada com o pesadelo, Gabriela tomou um banho rápido e, evitando olhar para o espelho, voltou para o quarto e vestiu-se. Se tivesse olhado, teria percebido um par de olhos vermelhos fitando-a por entre a névoa provocada pelo chuveiro.
Após alguns minutos, já vestida com o uniforme do colégio, ela desceu a escada e deu de cara com Michel, que a olhava impaciente.
- Até que enfim. Pensei que teria que subir para acordar você.
- Dá um tempo, tampinha. Você não leva jeito para príncipe encantado.
- Nem você para princesa. Logo, estamos no mesmo nível.
Ela conseguiu sorrir de um jeito especialmente irônico. Um tipo de sorriso que usava quando queria arrasar alguém e encerrar o assunto.
- Você não tem nível. Agora vamos tomar café.
- Ela me ama. – Respondeu ele, devolvendo a ironia.
Gabriela rosnou alguma coisa em resposta, como era de seu hábito, mas estava feliz em rever o amigo. Depois daquele pesadelo precisava ver coisas familiares. E Michel já lhe era tão familiar quanto a mobília de sua casa.
Recuperada do susto, ela se preparou para mais um dia de aula. Às vezes achava que o ano letivo era grande demais, e as férias escolares eram excessivamente curtas. Mas isso era normal, pelo menos. Normalidade era tudo que queria ter nesses dias tão estranhos.
Após o café da manhã, eles saíram caminhando pelas ruas do bairro em direção ao ponto de ônibus, enquanto nuvens escuras começaram a se formar no horizonte.
-Uau! Exclamou Michel. – Parece uma daquelas tempestades de verão.
- Mas nós estamos entrando no inverno. Que estranho...
- Bobagem. É o tempo que tá ficando maluco, mesmo. É o efeito da poluição.
- Falou a voz da sabedoria. – Disse Gabriela entrando no ônibus.
Bem acima deles a nuvem negra alterou o curso e começou a segui-los. Poderia ser apenas uma coincidência, mas o vento estava soprando no sentido contrário ao trajeto do ônibus.
Um dia se passou desde que Gabriela havia tido aquele pesadelo. Nas noites seguintes ela voltou a ter sonhos estranhos, mas sem que a criatura demoníaca voltasse a assombrá-la. Sonhava que vivia outra vida em outro mundo, mas não conseguia lembrar detalhadamente quando acordava. Nessas ocasiões sempre acordava ofegante e suando frio, mas logo depois esquecia a situação vivida no sonho e tudo voltava ao normal, ou quase.
De um modo um tanto vago, sentia que algo havia mudado em seu íntimo depois da visita ao sebo em companhia de Michel. Ele continuava insistindo para que experimentassem no computador dela o DVD que haviam recebido de brinde. O velho micro que ele tinha se revelou não ter memória suficiente e placa de vídeo adequada para os gráficos daquele jogo, mas ela se recusava a experimentar o jogo, por alguma razão que não sabia explicar.
Finalmente a última aula daquele dia estava chegando ao fim. Era aula de biologia, uma disciplina que gostava muito. Nesse dia, porém, nada parecia poder arrancá-la daquela apatia. Nem mesmo as costumeiras palhaçadas de Michel, que volta e meia lhe dirigia um olhar de interrogação, conseguiam provocar-lhe alguma reação.
- Terra chamando Gabi... Terra chamando Gabi... – Provocou ele, imitando o som metálico de uma imaginária comunicação interplanetária.
- O que você quer? – Perguntou, parando de rabiscar.
- Nada. Só queria saber se tem alguém aí. – Troçou Michel, enquanto espichava os olhos para o caderno dela.
- Engraçadinho. – Conseguiu responder Gabriela, com um meio sorriso.
- Parece que você tá em outro planeta.
- Não tenho dormido muito bem. – Disse ela bocejando.
- Sei. Por causa dos pesadelos, né? Deixe-me ver. – Pediu ele, e estendeu a mão para o caderno. Gabriela afastou-se para trás, permitindo que Michel pegasse o seu caderno. O desenho mostrava o demônio do pesadelo. Michel estremeceu ao fitar o olhar maligno e ameaçador da criatura. Aquilo parecia bem realista no traço nervoso de Gabriela.
- Puxa! Não pensei que fosse tão assustador. Achei que você estava apenas desenhando as suas corujinhas de sempre.
Gabriela tinha a mania de rabiscar corujinhas em qualquer folha de papel que estivesse à mão. Era sua maneira de concentrar-se quando raciocinava ou se esforçava para prestar atenção em aulas que não gostava.
- Mas foi o que eu desenhei. – Disse ela, pegando o caderno de volta. A visão do seu pesadelo a fez estremecer. Ali estava o demônio a fitá-la do mesmo modo que apareceu no espelho, com a boca escancarada num sorriso malévolo como se quisesse devorá-la.
- Isso não parece uma corujinha.
- É... Acho que tô ficando pirada. – Disse, fechando o caderno com violência.
Michel ia dizer algo, mas o sinal anunciando o término da aula o fez calar-se. Talvez fosse melhor conter o impulso de usar sua psicologia de bolso. Ela não parecia estar em condições nem disposta a discutir o que estava lhe acontecendo. Solidário, ele desejou que aquilo acabasse logo. Contudo, aqueles acontecimentos estranhos estavam longe de terminar.
O professor, que estava de costas e escrevia no quadro negro voltou-se para a classe. O que Gabriela viu não foi o rosto bonachão e familiar do professor de biologia, mas a carapinha esquisita de Icas, o livreiro. Ele teve tempo de lhe dirigir aquele mesmo sorriso astuto e velhaco, antes que ela piscasse os olhos e tudo voltasse ao normal.
Mais irritada do que propriamente abalada, Gabriela recolheu seus pertences e saiu da sala sem esperar por Michel. Ele pegou seus cadernos e saiu correndo atrás dela. Nos últimos dias, parecia-lhe que estava sempre fazendo isso: corria atrás de Gabriela e suas repentinas mudanças de humor. Só conseguiu alcançá-la uma quadra depois, sentada num banco da pracinha ali existente. Sentou-se ao seu lado e esperou paciente até que ela resolvesse falar.
- O que você quer?
- Eu? Nada... E você? Quer alguma coisa?
- Só queria que me deixasse em paz.
Michel nada disse. Esperou por um breve momento que ela explicasse melhor o que queria dizer, mas Gabriela permaneceu naquele silêncio obstinado. Com um suspiro, ele levantou-se e se virou para ir embora.
- Não estava falando de você. – Disse ela, por fim. – Senta aí.
- Olha Gabi...
- Eu sei. Tenho sido uma chata.
- Também. Mas não é só isso. Tá acontecendo alguma coisa com você, mas fica difícil tentar ajudar sem saber o que tá rolando, não é?
Gabriela remexeu-se no banco e chutou uma pedrinha. Se tiver que falar com alguém, melhor que seja ele, ela pensou ainda indecisa.
- Odeio quando você tem razão. – Disse num murmúrio quase inaudível.
- Então você tá encrencada, porque eu sempre tenho razão.
Ela o olhou sem dizer nada, como se o estivesse vendo pela primeira vez na vida. Subitamente soltou sua costumeira gargalhada. Acostumara-se tanto a livrá-lo de encrencas que não tinha pensado que Michel pudesse ajudá-la.
- Tá bom. Vou lhe contar tudo.
Contrariando seu hábito irrequieto, Michel ouviu tudo em silêncio. Gabriela descreveu suas alucinações, os pesadelos, a sensação de mal estar ao ter entrado no sebo e os momentos em que estranhava a própria realidade. Também falou do medo que sentia quando ele pedia para experimentarem o jogo que ganharam como brinde.
- Tudo começou quando fomos àquele sebo? – Perguntou Michel, com uma pontada de culpa ao lembrar sua insistência. Aquela história era inacreditável, mas ele sentiu que tinha que ir até o fim, se quisesse ajudá-la.
- Não. Sempre tive visões estranhas, mas ficou pior desde o dia daquele jogo de taco que nós ganhamos, lembra?
Se ele lembrava. Jamais iria se esquecer daquele jogo e da cara do Jorjão, quando conseguiu apanhar a bola rebatida por ele. Desde aquele dia evitava encontra-lo, ou correr como um louco e se esconder no banheiro feminino, como da última vez.
- O que você viu lá? – Perguntou ele, fazendo um esforço para se concentrar na história de Gabriela.
- Lembra que procuramos a bolinha depois que o jogo acabou?
- Sim. Você a achou debaixo de um pé de mamona.
- Pois então... Quando eu a peguei, a bola falou comigo.
- Como assim?
- Sei que é difícil de acreditar, mas é isso mesmo. Quando a segurei, ela abriu os olhos e uma boca surgiu. A bola olhou para mim e disse que eu tinha que voltar para um lugar que depois esqueci, mas aquele monstro do desenho falou a mesma coisa no pesadelo.
- E que lugar é esse?
- Walka. Se me perguntar onde fica isso, eu bato em você.
Ele nada disse. Sua mente fervilhava em dúvidas. A história dela era difícil de acreditar, mas as lembranças que tinha do sebo e daquele anão pareciam corroborar o relato de Gabriela. Aquele lugar tinha uma atmosfera de filme de terror e combinava perfeitamente com oque tinha ouvido dela.
- Tá bom. Não vou perguntar onde fica isso, mas tem outro lugar que nós podemos ir se quisermos descobrir alguma coisa dessa história.
- Onde?
- O sebo onde ganhamos o CD.
- Tá doido? Eu não volto naquele lugar nem amarrada.
- Eu também não quero voltar lá, mas acho que a gente vai ter que encarar essa. Aquele duende deve ter muita coisa pra contar.
- Nem pensar. Acabei de lhe contar que vi o sujeito no lugar do professor, na sala de aula. Seja lá o que ele for, deve ser perigoso. Além disso, não sabemos com o que estamos lidando, nem no que eu estou metida.
- Mas Gabi...
- Você já ajudou bastante me ouvindo. Agora é melhor ficar fora disso. – Interrompeu Gabriela, querendo mudar de assunto.
Os argumentos dela eram perfeitamente lógicos, mas ele também podia citar uma lista de razões para voltarem ao sebo. Michel não se considerava nenhum herói, mas não podia deixar de tentar ajudá-la, pois começava a acreditar que algo estranho estava realmente acontecendo com ela. Além disso, o mistério que envolvia aquela história era irresistível. Ele tinha que investigar. Se Gabriela não estivesse tão abalada certamente concordaria com isso.
- Nós podemos passar lá a caminho de casa. É só desviarmos pelo mercado velho antes de pegar o ônibus.
- Parece que você não ouviu o que eu falei.
- Ouvi sim. Por isso mesmo acho que devemos voltar lá e descobrir o que está acontecendo. Ou você quer continuar nesse inferno?
- Parece que você tem razão. Eu...
- Já sei. Você odeia isso. Vamos?
- Tá bom. Vamos. – Disse ela levantando-se.

Eles atravessaram a praça e seguiram por uma rua transversal em direção à parte baixa da cidade, onde ficava o mercado velho. No caminho, pararam num orelhão e ligaram para suas casas. Não era bom arrumarem encrenca com suas mães no meio daquela crise.
- Pronto. Minha mãe não gostou muito da história de pesquisa na biblioteca, mas acho que colou. Só exigiu que almoçássemos antes na cantina da escola. – Disse Michel, ao recolocar o fone no gancho.
- A minha também, mas agora não temos tempo.
- Mas eu tô realmente com fome. Não podemos voltar? É só um instante.
- Depois eu lhe pago um Big Mac. Vamos. – Insistiu Gabriela.
Michel resmungou um protesto, já arrependido de ter sugerido que voltassem à loja de livros usados. Apesar disso saiu trotando atrás dela, feliz com a velha disposição que Gabriela demonstrava. Ela estava reagindo como tinha que ser: uma guerreira. Guerreira! De repente o significado dessa palavra lhe pareceu um fardo excessivamente pesado para sua amiga.
Algum tempo depois, estavam em frente ao prédio onde deveriam encontrar o sebo. Era um prédio em ruínas, com a porta da frente pendurada precariamente por uma única dobradiça, cujos parafusos enferrujados pareciam querer sair da madeira carcomida pelos cupins. O reboco da fachada havia desaparecido quase que completamente de um lado, exibindo os antigos tijolos de argila esburacados pela chuva e o vento. Pareciam feridas num corpo há muito sem vida.
Estarrecidos, eles contemplaram o que restava do sobrado. O que permanecia de pé pareciam os escombros de uma época esquecida.
- Será que estamos no lugar certo? – Perguntou ele, incrédulo.
- Acho que sim. Não dá para ver o número, mas os prédios em cada lado são os mesmo, não são? Tenho certeza que viemos ao mesmo lugar.
- Isso é muito estranho. Parece que faz um século desde que esse prédio foi habitado pela última vez.
- Agora ficou mais fácil de acreditar em mim?
- Ficou. – Ele admitiu. – Mas eu já tinha outra razão para acreditar em você.
- É mesmo? Que razão? – Provocou ela, feliz por constatar que não estava imaginando coisas.
- Ora! Você não tem imaginação suficiente para inventar uma história tão maluca.
- Muito obrigada. – Retrucou Gabriela com ironia.
- De nada. – Respondeu ele no mesmo tom. – E agora? O que fazemos?
- Vamos entrar.
- Entrar ali? Ficou maluca?
- Ainda não. Mas vou ficar, se essa história não acabar.
Gabriela atravessou a rua sem esperar por ele e entrou no prédio, esgueirando-se pela porta entreaberta.
- Acho que eu é que tô ficando maluco. – Resmungou Michel para si mesmo, antes de segui-la.
No interior do prédio não havia nenhum sinal das estantes repletas de livros, nem de Icas. O piso, apodrecido e esburacado, rangia sob os passos deles, como se lamentasse a incômoda presença que perturbava a paz vinda do longo esquecimento. Quase toda a sua extensão estava repleta de detritos e pedaços do forro, que repousavam sobre uma espessa camada de poeira. Sob o umbral da porta que dava acesso à parte de trás da loja, uma enorme teia de aranha pendia dos caixilhos da forra apodrecida.
- Aqui não tem nada que ajude a gente. – Falou Michel com um desapontamento sincero. – Vamos embora?
- Ainda não. – Respondeu Gabriela, com os olhos arregalados. – Tem alguma coisa aqui, eu sinto isso.
A sensibilidade de Gabriela estava bem apurada, pois o sobrado não estava totalmente vazio, como parecia. Nos cantos quase totalmente escuros havia sombras que pareciam mover-se livremente pelas paredes, desvanecendo e dando lugar a outras que surgiam do nada, como um caleidoscópio de imagens monocromáticas. Parecia não haver nenhuma presença física, mas algo estava ali, intangível e maligno.
- Vamos embora daqui! – Implorou Michel, numa voz esganiçada pelo medo.
- Fique quieto e ouça.
Michel ficou imóvel, com a respiração suspensa.
- Não tô ouvindo nada...
Gabriela pôs o indicador nos lábios. Subitamente uma sombra se moveu num buraco do rodapé e um rato disparou por entre as pernas deles. Michel deu um salto inacreditável para o seu tamanho e caiu sentado dois metros atrás de onde estava. Levantou-se com um gemido e sacudiu a poeira. Isso lhe provocou uma série quase interminável de espirros entremeados com um novo apelo para saírem dali.
- Acho que você tem razão. – Disse Gabriela num sussurro desanimado.
De repente ouviram o rangido do assoalho apodrecido. O ruído vinha da sala dos fundos e era acompanhado pelo conhecido som de alguém dando pulinhos.
- O duende está aqui. – Falou Michel com uma voz rouca.
- Está ali atrás. Vamos!
- Não acho uma boa ideia.
- Venha! – Insistiu Gabriela, puxando-o pela manga do casaco. Eles se agacharam para passar sob a teia de aranha e espiaram para dentro de uma sala escura e vazia.
- Não tem ninguém aqui também. – Cochichou Michel.
Gabriela o ignorou e entrou na sala.
- Tem alguma coisa escrita na parede, mas não consigo enxergar.
- Espere. – Falou Michel remexendo nos bolsos. Sob o olhar interrogativo de Gabriela, puxou um chaveiro com uma pequena lanterna pendurada.
- Como é que você anda com esse tipo de coisa?
- A gente nunca sabe quando vai precisar.
- Sei...
Ela pegou a lanterna e pressionou o botão, mas nada aconteceu.
- Essa droga não funciona. Deve ser muamba do Paraguai, né?
Michel pegou a lanterna de sua mão e a bateu contra sua mão esquerda. O pequeno facho de luz iluminou fracamente a sala.
- Pronto. É só um jeitinho.
- Dê aqui. – Falou Gabriela arrebatando a lanterna de sua mão.
- Fominha!
Sem fazer conta do protesto dele, Gabriela dirigiu o facho da lanterna para a parede oposta. A luz iluminou uma frase escrita em caprichados caracteres góticos.
- A verdade está no jogo. – Murmurou Michel, lendo a frase. – O que será que isso quer dizer?
- Quer dizer que finalmente você vai experimentar aquele maldito jogo. – Respondeu Gabriela contrafeita. – Acho que isso é tudo que vamos encontrar aqui.
- E o saci?
- Se estava aqui, já foi embora. E é o que nós vamos fazer também.
Logo depois eles já estavam na rua, piscando os olhos para a claridade. Após recuperarem o fôlego, sacudiram a poeira das roupas e, sem olhar para trás, se puseram a caminho de casa.
Logo depois que eles saíram da casa, uma sombra monstruosa se projetou na parede. Era bem maior que Icas, o livreiro, mas o mesmo riso velhaco ecoou no interior do velho casarão.