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Crônicas da Cidade dos Mortos - Versão Beta - Capítulo XII


Depois do encontro com Belial, apressei o passo para alcançar Dante. Não foi difícil. Eu o encontrei sentado sobre uma pedra, a olhar placidamente na direção de onde eu vinha. Sua expressão era uma curiosa mistura de triunfo e orgulho. Acredito que isso se devesse à decisão que tomei, frente à proposta de Belial. De minha parte, não vi motivos para tanto, uma vez que minha decisão não poderia ser outra.
- Então, caríssimo, a proposta não foi do teu agrado? – Ele perguntou. Em sua voz havia um leve tom jocoso.
Dante parecia se divertir com aquilo e, para falar a verdade, eu também. Para mim era impossível evitar a satisfação que tive em ver a cara frustrada daquele aprendiz de Belzebu. Vingar-me de Belial era o primeiro item de minha agenda, quando ele me comunicou a condenação de Berenice ao mundo inferior.
- Na verdade, a proposta dele não foi muito boa. – Eu disse, não resistindo a tentação de provocá-lo.

Fábrica de mundos

A escritora Lívia Stocco iniciou um novo projeto no YouTube, para divulgação de técnicas narrativas, ambientação,  autores independentes e seus trabalhos. Sabe-se que nós, autores independentes ( e geralmente desconhecidos) somos carentes de atenção do público, dos críticos (Argh!) e dos leitores, mais especificamente. Sem leitor a magia não se realiza e o trabalho do autor cai no terrível limbo do esquecimento. Então a iniciativa de Lívia é muito bem-vinda. Se você é um desses sonhadores, prestigie a Fábrica de Mundos e assista no YouTube a edição que fala do meu trabalho, clicando aqui: Zaphir - A Guerra dos Magos

Crônicas da Cidade dos Mortos - Versão Beta - Capítulo XI

Olhei para as portas uma centena de vezes, sem conseguir ler as placas indicativas. Novamente, elas pareciam ter sido escritas em caracteres desconhecidos para mim, mas lembro de tê-las compreendido perfeitamente em outras ocasiões. Aparentemente, Belial ainda estava se divertindo às minhas custas.
- A saída é para lá. – Disse uma voz atrás de mim.
Era Estela. Ela apontava a porta de saída da Tumba, sem atentar para a razão de minha confusão.
- Mostre-me a porta que leva ao Mundo Inferior. – Pedi.
- Mundo Inferior? Para quê?
- Vou buscá-la.
Estela me olhou sem entender. Ela ainda não sabia que Berenice tinha sido condenada à danação eterna. Logo depois sua expressão mudou e indicava que tinha compreendido ao que eu estava me referindo.

Crônicas da Cidade dos Mortos - Versão Beta - Capítulo X

O tempo passou. Talvez não no ritmo que eu estava acostumado no mundo dos vivos, mas fluía em direção aos acontecimentos futuros, como deve ser, eu acho. Era difícil compreender isso sem os referenciais da matéria, das mudanças percebidas nas coisas e em nós mesmos. Um fantasma não envelhecia nem morria, já que era basicamente um amálgama de energia psíquica e ectoplasma, unidos pelo que conhecemos como alma. Então, a alma é, por assim dizer, a essência espiritual da entidade. Essa essência é que carrega a memória e a identidade como o fantasma se percebe. É como se mantém em todos os planos existenciais por onde passa, nos sucessivos ciclos de mortes e reencarnações. Isso é tudo o que compreendi até agora da existência no além-túmulo.

Crônicas da Cidade dos Mortos - Versão Beta - Capítulo IX


Com efeito, desventuras estavam para bater à porta. Certa noite, quando eu estava sozinho a matutar sobre minha existência sobrenatural, Estela apareceu diante de mim. Ela não veio andando, como gostava de fazer, mas apareceu de repente. Minha intuição me dizia que algo importante havia acontecido, ou estava em vias de acontecer no mundo além-túmulo. Se Isso tinha relação com voz cavernosa, significava que eu provavelmente não iria gostar do que estava por vir.
- Belial quer falar com você. – Ela disse num fôlego só, como quem despeja uma notícia ruim sobre um infeliz qualquer.
O recado em si já era uma novidade. Belial não costumava mandar recado. Ele não abria mão de intimidar seu interlocutor pessoalmente. Estela estava nervosa e isso queria dizer que tinha relação com ela e, talvez, comigo também.

Zaphir - Capítulo V

De volta ao mundo real



Após três erros de saques seguidos, o professor interrompeu o seu treino com um apito estridente e se aproximou com a cara fechada. Gabriela era sua aluna mais promissora e lhe desagradava vê-la com um olhar tão distante da quadra.
 - Posso saber onde você está?
- Como? – Ela perguntou confusa.
- Eu perguntei onde você está. Na quadra é que não é.
Então ela percebeu que sua mente realmente não estava ali. E não conseguia evitar a sensação desconfortável de querer estar em outro lugar.
- Desculpe professor. Acho que não tô me sentindo bem hoje.
 O professor conteve qualquer sinal de desagrado. Via aquilo com frequência nos adolescentes, especialmente nas meninas. Era evidente que Gabriela, sempre tão centrada nos treinos, não estava imune às alterações de humor que eram próprias da idade. Entretanto, tinha a impressão que havia algo mais no semblante cansado dela.
- Hoje você não está num bom dia, não é?
- Acho que não. – Disse ela, apática.
- Você precisa descansar. Continuamos o treino na próxima aula, está bem?
- Tá bem. Vou recolher o material, então.
- Pode deixar. Eu mesmo faço isso.

Crônicas da Cidade dos Mortos - Versão Beta - Capítulo VIII

Estela levou-me até a saída da Tumba. Parecia querer certificar-se de que eu sairia dali, como se pudesse ser de minha vontade permanecer nos domínios de Belial. Esse seria um desejo pouco provável, depois de presenciar aquela cena terrível de canibalismo ectoplásmico. O triste fim do coveiro ainda ressoava em meus pensamentos, de modo que suspirei aliviado quando me encontrei do lado de fora a contemplar a silhueta das lápides sepulcrais, recortada pela luz dos postes de iluminação.
Fora da Tumba, em meu pensamento havia somente a face de Berenice. Minha ansiedade por encontrá-la beirava a obsessão. Não conseguia mais pensar em qualquer outra coisa e apressei o passo. A chuva já havia parado, mas os relâmpagos ainda teimavam em riscar a escuridão, como rastros nervosos de espectros inquietos.

Crônicas da Cidade dos Mortos - Versão Beta - Capítulo VII

A noção do tempo na dimensão dos mortos era enganadora. Em muitas situações em que eu pensava ter se passado algumas horas, aqui poderia ser de dias ou meses. Talvez até mais, segundo eu podia notar por alguns indícios. O que parecia fazer o fluxo do tempo variar dependia do observador e do seu envolvimento nos acontecimentos. Einstein iria adorar essa minha digressão, mas faço essa observação pensando num eventual leitor dessa minha narrativa. Embora eu ainda não faça a mínima ideia de como meu relato chegará até os olhos de algum mortal, acredito nisso por algum motivo. Não deixa de ser irônico pensar assim, considerando que jamais acreditei verdadeiramente na possibilidade da existência após a morte.
Sempre fui um cético, mas agora vejo quão tolo eu era, por pensar somente em termos materialistas. Sim, eu sei que pareço estar me dispersando, mas não posso perder de vista o fluxo do tempo. Situá-lo corretamente me é indispensável para a compreensão dos fatos e a forma como os mesmos serão relatados por mim, já que neste plano há espíritos de várias épocas e lugares e, a cada um, parece haver um contínuo temporal que lhe é próprio. Para mim, por exemplo, parece que escrevi a história de Estela há vários dias. Essa sensação, no entanto, não está de acordo com a sequência dos acontecimentos e o tempo decorrido em cada um deles, segundo pude estimar pelo romper da aurora. No entanto, do ponto de vista de um mortal, depois que cumpri aquela tarefa e saí da Tumba, até o encontro com Berenice e a sequência de eventos que culminaram na interferência providencial de Voz Cavernosa e Estela, teriam se passado apenas duas horas.

Lilith - Noite Adentro Cap IV

Sai da fazenda como entrei, ou quase. Já não estava nua, embora isso não fosse um problema, a julgar pela escuridão que me envolvia. Naquele momento, tudo o que eu ouvia era o crocitar de sapos e grilos. Nenhum outro ser vivo cruzou meu caminho e consegui me locomover sem que ninguém notasse.
Voltei para a caverna carregando os sacos de ouro em pó. Ainda não tinha nenhum plano, e tudo o que podia fazer era reagir às circunstâncias da melhor forma possível. Nada podia ter me preparado para o que me aconteceu, exceto o que falou o feiticeiro. Infelizmente o velhote não era de muitas palavras, sem contar que metade do que ele dizia, eu não entendia.
Quando cheguei, ele estava sentado diante da fogueira, fumando seu cachimbo fedorento. Parecia estar mesma posição, desde que eu fui para a fazenda. Talvez estivesse mesmo. Sua figura magra, quase etérea, parecia flutuar a poucos centímetros do chão. Tive a impressão de que cochilava, mas ele me saldou com um “Hug!” e olhou com indiferença os sacos de ouro que joguei à sua frente.

Crônicas da Cidade dos Mortos - Versão Beta - Capítulo VI

Após várias noites de céu estrelado, o tempo mudou drasticamente. O gemido lúgubre do vento, passando entre os túmulos, era acompanhado pelo barulho da chuva que batia nas lápides. Poderia se dizer que era uma noite perfeita para os fantasmas se manifestarem, mas eu não sentia a presença de nenhum deles. Não ouvi nenhum ruído de correntes sendo arrastadas ou gemidos agoniados de algum espírito amaldiçoado. Todos pareciam estar recolhidos às suas tumbas, sem disposição para me assombrar. Talvez a noite chuvosa não fosse do agrado das almas penadas, afinal. Somente eu estava ali, naquele momento, a contemplar a escuridão. Aquela atmosfera sombria me lembrava os velhos filmes da Hammer, que eu assistia em tempos distantes. Eram noites passadas com os olhos pregados num televisor Zenith, com imagens ainda em preto e branco. Essas lembranças permanecem em minha memória de uma forma tão vívida, que parecem ter acontecido ontem, embora tenham se passado mais de três décadas.

Crônicas da Cidade dos Mortos - Versão Beta - Capítulo V


Por um instante fiquei sem saber o que responder, ao perceber que o ataúde repousava sobre lingotes e moedas de ouro, caprichosamente empilhados de modo a formar uma base, onde foi assentado.
- Não fique olhando para o meu ouro, biltre. Vai gastar seu brilho. - Tornou a falar o fantasma, com um olhar delirante e velhaco. Ele tinha o aspecto de um velho pão duro, diretamente saído das páginas de Dickens. Eu ainda não sabia seu nome, mas em minha imaginação já o chamava de Ebenezer scrooge.
- Nada sabia do ouro. - Respondi de modo belicoso. Nenhuma alma penada ia por em dúvida o meu caráter. - Estava admirando o mausoléu, quando ouvi um gemido.
- Ai de mim. - Gemeu novamente a figura taciturna, sem fazer caso do meu protesto. - Condenado a vigiar eternamente o meu ouro, tão duramente  amealhado.