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A Entidade Parte IV

Ao ser recebida por Ana, Lívia ficou chocada com a aparência dela. Sua amiga parecia ter envelhecido vários anos, desde o último encontro que tiveram.
- Puxa! Você está horrível. – Disse-lhe sem rodeios, ao vê-la segurando a porta entreaberta, como se estive incomodada com sua presença ali.
- Nossa! Que gentil! – Retrucou Ana, com uma ponta de ironia.
- Isso é sério. Você parece estar muito doente.
- Bobagem! Nunca me senti tão bem na minha vida. – Respondeu Ana, de modo apático. – Estou bem, acredite.
Em sua face, havia indícios sutis de alguém à beira da insanidade, mas Lívia fingiu ignorar. A aparência pálida e frágil de Ana era um indício claro de algo muito grave acontecendo, de modo que resolveu agir com cautela.
- Desculpe. Acho que esqueci os bons modos nos últimos dias.

A Entidade parte III

A ausência de Lívia se prolongou por vários dias, além do fim de semana. Ana interpretou isso como um sinal de que a viagem romântica de sua amiga havia se tornado algo mais gratificante. Ficou feliz por ela, mas não pôde evitar uma pontinha de ciúme, que logo foi esquecido no primeiro encontro que tiveram depois do seu retorno. Elas se reencontraram no mesmo bar onde retomaram a antiga amizade.
- Menina! Não acredito! Você teve outro sonho com o Poltergeist?
- Não sei se foi um sonho. A coisa toda pareceu bem real. 
- Nossa! Queria ter sonhos assim ... – Disse Lívia, revirando os olhos.
A gargalhada que se seguiu ecoou por todo o salão do bar, num momento improvável de silêncio, entre uma música e outra.
- Ops! – Exclamou Ana, constrangida.
Lívia apenas sacudiu os ombros, mas baixou o tom de voz quando perguntou:
- Você gozou, como da outra vez? Hum ... Pela sua cara, acho que não.
- Dessa vez, tive que terminar sozinha. Ele se foi, logo depois de ter me penetrado.
- Você acordou?
- Eu já estava acordada. Por isso acho que não foi um sonho. Agora que estou lhe contando, lembro de ter exclamado “Deus!”. Ele não gostou disso.

A Entidade Parte II

Elas riram juntas e depois pediram outra garrafa de vinho. A conversa entre as duas continuou de uma forma inesperada e, pela primeira vez desde que se conheciam, Ana reparou na boca de Lívia.
O tempo passou e os encontros furtivos de Ana e Lívia se tornaram cada vez mais frequentes, numa espécie de interlúdio necessário para suportar a pasmaceira de um casamento mergulhado em um processo rápido de falência múltipla de laços emocionais e físicos. A única coisa que ainda mantinha o casamento de Ana e André era o aspecto financeiro, compartilhado durante tantos anos. Ela sabia que essa questão certamente provocaria uma longa e cansativa disputa. Mesmo assim, Ana sentia que as questões legais do divórcio logo deixariam de ser um obstáculo intransponível, quando comparadas à liberdade que desejava cada vez mais.
A vontade de libertar-se não era tanto pelo envolvimento com Lívia. Não havia entre elas a intenção de entregarem-se plenamente a uma relação homo afetiva. Ambas sabiam que, além da forte amizade, o desejo que as unia se devia mais ao tédio momentâneo e à incompetência generalizada dos homens que permeavam suas vidas. Contudo, os encontros que mantinham nas tardes, antes solitárias, tinham o dom de acalmar os anseios sexuais de Ana, pelo menos por algum tempo. Ela não chegava a pensar explicitamente nesses termos, mas em algum canto de sua mente havia a convicção de que a experiência que estava vivendo era apenas um paliativo, e que algo mais estava por vir.

A Entidade Parte I


Tudo começou naquela noite, ela lembrava bem. Era sábado e a noite de chuva convidava à preguiça, mas Ana queria algo mais. Estava excitada e olhava para André, seu marido, cheia de esperanças. Há muito não tinham qualquer contato íntimo e isso a deixava frustrada e amarga. Então, naquela noite, Ana decidiu que seria diferente. Já havia planejado tudo, horas antes.
Ainda na tarde daquele sábado, enquanto André se esfalfava no campo de peladas do clube, ela foi às compras. Escolheu uma lingerie que nunca ousara usar e caprichou nos detalhes para ter uma noite perfeita com o marido. Gastou uma pequena fortuna naquele perfume caro, que levava o nome de uma estilista famosa que admirava. Não esqueceu nem mesmo aquele creminho, para proporcionar ao marido, e a si mesma, uma noite inesquecível.

Zaphir - Capítulo VII

O outro lado

Eles ficaram um longo tempo olhando a tela do computador. Hesitaram em continuar, depois que escolheram seus respectivos avatares. Michel preferiu continuar com o elfo. Parecia sentir uma afinidade especial com Bullit. Gabriela, entretanto, mudou mais uma vez. Desta feita ela escolheu Zaphira, a princesa guerreira.
O ambiente virtual daquele RPG se mostrava cada vez mais envolvente e sedutor a cada fase. De tal modo era interessante, que a realidade parecia ainda mais sem graça, à medida que iam avançando. Contudo, os garotos tinham consciência de que um simulador nunca substituiria a experiência real, por mais desinteressante que ela pudesse se tornar ao longo de suas vidas. A questão que se insinuava em suas mentes era para onde a experiência virtual os levaria e como isso os afetaria depois que a imersão total naquele jogo se completasse.
 - Pronta? – Perguntou Michel, após colocar o DVD na gaveta do leitor ótico. Gabriela aquiesceu com o olhar e ele empurrou o disco.

Crônicas da Cidade dos Mortos - Capítulo XIII

Levou um tempo para me refazer. Estava consciente, mas não conseguia me mover, nem falar. Também não ouvia nada. Tudo que eu podia sentir era a terrível escuridão a me envolver numa solidão angustiante. Sempre tinha sido assim. Desde que me entendo por gente, o cair da noite realçava meus temores atávicos, e tudo o que eu podia fazer era esperar pelo amanhecer. Desta feita, no entanto, eu sentia que o amanhecer não viria ao meu encontro.
Eu não compreendia ainda o que tinha acontecido. Já não estava no inferno, é certo, mas não conseguia me situar. Não havia referências na escuridão. Sentia apenas uma superfície sob meu corpo, mas em alguns momentos eu tinha a impressão de flutuar e girar sem controle, enquanto ouvia um zumbido intermitente. Haveria outra espécie de morte, no mundo além-túmulo? Outras dimensões para onde uma alma poderia ir? Era estranho pensar nessas questões, mas eu realmente sentia que havia morrido de novo. Nada mais havia, além daquela terrível sensação de solidão.

Zaphir - Capítulo VI

Foi uma manhã longa e cansativa, mas o dia na escola ainda não havia terminado. No início da tarde, Gabriela já estava na quadra de Vôlei treinando saques sob a orientação de um monitor. Atividades físicas sempre lhe eram prazerosas, mas nesse dia sentia-se indiferente ao treino, como se tudo lhe causasse um imenso tédio.
Após três erros de saques seguidos, o professor interrompeu o seu treino com um apito estridente e se aproximou com a cara fechada. Gabriela era sua aluna mais promissora e lhe desagradava vê-la com um olhar tão distante da quadra.
 - Posso saber onde você está?
- Como? – Ela perguntou confusa.
- Eu perguntei onde você está. Na quadra é que não é.
Então ela percebeu o estranhamento que lhe causava a própria realidade. Era como se realmente não estivesse ali. Tinha se sentido assim durante todo o dia e, por mais que se esforçasse, não conseguia evitar a sensação desconfortável de querer estar em outro lugar.

Crônicas da Cidade dos Mortos - Versão Beta - Capítulo XII


Depois do encontro com Belial, apressei o passo para alcançar Dante. Não foi difícil. Eu o encontrei sentado sobre uma pedra, a olhar placidamente na direção de onde eu vinha. Sua expressão era uma curiosa mistura de triunfo e orgulho. Acredito que isso se devesse à decisão que tomei, frente à proposta de Belial. De minha parte, não vi motivos para tanto, uma vez que minha decisão não poderia ser outra.
- Então, caríssimo, a proposta não foi do teu agrado? – Ele perguntou. Em sua voz havia um leve tom jocoso.
Dante parecia se divertir com aquilo e, para falar a verdade, eu também. Para mim era impossível evitar a satisfação que tive em ver a cara frustrada daquele aprendiz de Belzebu. Vingar-me de Belial era o primeiro item de minha agenda, quando ele me comunicou a condenação de Berenice ao mundo inferior.
- Na verdade, a proposta dele não foi muito boa. – Eu disse, não resistindo a tentação de provocá-lo.

Fábrica de mundos

A escritora Lívia Stocco iniciou um novo projeto no YouTube, para divulgação de técnicas narrativas, ambientação,  autores independentes e seus trabalhos. Sabe-se que nós, autores independentes ( e geralmente desconhecidos) somos carentes de atenção do público, dos críticos (Argh!) e dos leitores, mais especificamente. Sem leitor a magia não se realiza e o trabalho do autor cai no terrível limbo do esquecimento. Então a iniciativa de Lívia é muito bem-vinda. Se você é um desses sonhadores, prestigie a Fábrica de Mundos e assista no YouTube a edição que fala do meu trabalho, clicando aqui: Zaphir - A Guerra dos Magos

Crônicas da Cidade dos Mortos - Versão Beta - Capítulo XI

Olhei para as portas uma centena de vezes, sem conseguir ler as placas indicativas. Novamente, elas pareciam ter sido escritas em caracteres desconhecidos para mim, mas lembro de tê-las compreendido perfeitamente em outras ocasiões. Aparentemente, Belial ainda estava se divertindo às minhas custas.
- A saída é para lá. – Disse uma voz atrás de mim.
Era Estela. Ela apontava a porta de saída da Tumba, sem atentar para a razão de minha confusão.
- Mostre-me a porta que leva ao Mundo Inferior. – Pedi.
- Mundo Inferior? Para quê?
- Vou buscá-la.
Estela me olhou sem entender. Ela ainda não sabia que Berenice tinha sido condenada à danação eterna. Logo depois sua expressão mudou e indicava que tinha compreendido ao que eu estava me referindo.

Crônicas da Cidade dos Mortos - Versão Beta - Capítulo X

O tempo passou. Talvez não no ritmo que eu estava acostumado no mundo dos vivos, mas fluía em direção aos acontecimentos futuros, como deve ser, eu acho. Era difícil compreender isso sem os referenciais da matéria, das mudanças percebidas nas coisas e em nós mesmos. Um fantasma não envelhecia nem morria, já que era basicamente um amálgama de energia psíquica e ectoplasma, unidos pelo que conhecemos como alma. Então, a alma é, por assim dizer, a essência espiritual da entidade. Essa essência é que carrega a memória e a identidade como o fantasma se percebe. É como se mantém em todos os planos existenciais por onde passa, nos sucessivos ciclos de mortes e reencarnações. Isso é tudo o que compreendi até agora da existência no além-túmulo.

Crônicas da Cidade dos Mortos - Versão Beta - Capítulo IX


Com efeito, desventuras estavam para bater à porta. Certa noite, quando eu estava sozinho a matutar sobre minha existência sobrenatural, Estela apareceu diante de mim. Ela não veio andando, como gostava de fazer, mas apareceu de repente. Minha intuição me dizia que algo importante havia acontecido, ou estava em vias de acontecer no mundo além-túmulo. Se Isso tinha relação com voz cavernosa, significava que eu provavelmente não iria gostar do que estava por vir.
- Belial quer falar com você. – Ela disse num fôlego só, como quem despeja uma notícia ruim sobre um infeliz qualquer.
O recado em si já era uma novidade. Belial não costumava mandar recado. Ele não abria mão de intimidar seu interlocutor pessoalmente. Estela estava nervosa e isso queria dizer que tinha relação com ela e, talvez, comigo também.

Zaphir - Capítulo V

De volta ao mundo real



Após três erros de saques seguidos, o professor interrompeu o seu treino com um apito estridente e se aproximou com a cara fechada. Gabriela era sua aluna mais promissora e lhe desagradava vê-la com um olhar tão distante da quadra.
 - Posso saber onde você está?
- Como? – Ela perguntou confusa.
- Eu perguntei onde você está. Na quadra é que não é.
Então ela percebeu que sua mente realmente não estava ali. E não conseguia evitar a sensação desconfortável de querer estar em outro lugar.
- Desculpe professor. Acho que não tô me sentindo bem hoje.
 O professor conteve qualquer sinal de desagrado. Via aquilo com frequência nos adolescentes, especialmente nas meninas. Era evidente que Gabriela, sempre tão centrada nos treinos, não estava imune às alterações de humor que eram próprias da idade. Entretanto, tinha a impressão que havia algo mais no semblante cansado dela.
- Hoje você não está num bom dia, não é?
- Acho que não. – Disse ela, apática.
- Você precisa descansar. Continuamos o treino na próxima aula, está bem?
- Tá bem. Vou recolher o material, então.
- Pode deixar. Eu mesmo faço isso.

Crônicas da Cidade dos Mortos - Versão Beta - Capítulo VIII

Estela levou-me até a saída da Tumba. Parecia querer certificar-se de que eu sairia dali, como se pudesse ser de minha vontade permanecer nos domínios de Belial. Esse seria um desejo pouco provável, depois de presenciar aquela cena terrível de canibalismo ectoplásmico. O triste fim do coveiro ainda ressoava em meus pensamentos, de modo que suspirei aliviado quando me encontrei do lado de fora a contemplar a silhueta das lápides sepulcrais, recortada pela luz dos postes de iluminação.
Fora da Tumba, em meu pensamento havia somente a face de Berenice. Minha ansiedade por encontrá-la beirava a obsessão. Não conseguia mais pensar em qualquer outra coisa e apressei o passo. A chuva já havia parado, mas os relâmpagos ainda teimavam em riscar a escuridão, como rastros nervosos de espectros inquietos.