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Crônicas da Cidade dos Mortos - Versão Beta - Capítulo I

Capítulo I

No plantão seguinte, o tempo havia mudado completamente. A noite apresentava um céu estrelado, com a lua crescente no horizonte a contemplar a escuridão. Devo dizer que minhas expectativas, baseadas nos acontecimentos insólitos da primeira noite, frustrou-se completamente naquela primeira semana. Nada aconteceu na segunda noite ou nas seguintes. Nada de invasores góticos ou ladrões de túmulos. Tampouco houve qualquer manifestação sobrenatural que eu pudesse ter notado, exceto pela sensação quase permanente de que eu não estava só. Todavia, eu creditava isso ao meu contumaz excesso de imaginação, que não precisava de muito estímulo para se fazer presente.
De outro lado, consegui aproveitar bastante aquelas noites insones. Dei sequência à novela que dormitava já há algum tempo num arquivo quase esquecido do meu notebook. Se conseguisse manter esse ritmo, em breve teria meu segundo romance disponibilizado nos sites que hospedavam literatura para leitura on-line. A perspectiva não era muito estimulante do ponto de vista financeiro. Provavelmente eu ainda continuaria no trabalho de vigia noturno por muito tempo. Era o jeito de garantir o pagamento das contas no fim do mês. É claro que o fato de ter um grupo de leitores seguindo minhas publicações contava bastante para a vontade de continuar escrevendo, apesar da quase ausência de retorno financeiro. Digo quase, porque descobri que tinha uma pequena quantia a receber do Google, por conta de um blog que eu mantinha na internet.

O Fantasma de Ebenezer - Parte 2

A descoberta do ouro no mausoléu do ouro de Ebenezer suscitou uma feroz disputa entre seus herdeiros. Ignoro o resultado dessa querela, mas o fato é que o ouro foi retirado e atraiu a fúria daquela alma penada sobre mim.
Logo depois da retirada do ouro, ele invadiu meu escritório na Tumba de Voz Cavernosa Seu aspecto era sinistro e ameaçador, como nunca imaginei que pudesse ser. Ante sua presença, a lâmpada do teto estourou e tudo ficou às escuras, até que uma vela se acendeu sobre a mesa. Eu nem havia notado antes a existência dessa vela, mas não tive tempo de pensar nisso. O ambiente de repente ficou gelado, enquanto um odor

Crônicas da Cidade dos Mortos - Versão Beta - Prelúdio

Crônicas da Cidade dos Mortos

Prelúdio

Depois de um longo e cansativo processo, que incluiu diversas entrevistas, teste psicotécnico e exame médico, recebi a confirmação de que havia sido admitido no novo emprego. A entrevistadora deu-me a notícia de um jeito que me fez pensar que eu havia ganho na loteria. Sem saber ainda como deveria me sentir, correspondi ao seu sorriso de boas-vindas.
- Bem-vindo à nossa "família". - Ela disse com aquele jeito estranho. Depois dessa introdução, a mulher deu-me um manual de procedimentos da empresa e informações gerais sobre o trabalho que eu iria realizar. Havia sido admitido numa empresa de serviços terceirizados de vigilância e poderia ser mandado a prestar serviço em qualquer local da cidade. Aquilo não me agradou, mas precisava do emprego e abanei o rabo como um cachorro obediente. Depois respirei fundo e perguntei onde seria o meu local de trabalho.
- O Senhor vai trabalhar como vigia noturno no Cemitério Municipal, não é interessante?
- Muito. - Respondi, quase gaguejando. Não que eu tivesse qualquer problema com cemitérios, mas aquilo era tão inesperado que conseguiu me surpreender.
- Algum problema co

Os Lobos - Parte Três

Ela acordou horas depois à beira de um regato. Levantou-se num pulo e a luz do dia feriu seus olhos. Assustada, quase não percebeu a carcaça da corça ao seu lado. O animal tinha sido parcialmente devorado. O que restava de suas entranhas estava espalhado ao redor e o fígado havia desaparecido. Aos poucos, sua mente entorpecida se deu conta de todo o horror do que havia feito, embora ainda se recusasse a acreditar.
Havia perpetrado aquela matança, mas o que mais lhe chocava era a lembrança do prazer que havia sentido, desde que rastreara a presa até o desfecho da sua primeira caçada. Lembrou-se do cheiro do medo e o ruído descompassado do coração acelerado da pobre criatura. Seus sentidos estavam tão aguçados que isso a desnorteou por um momento. A presa quase lhe escapou, mas essa possibilidade foi apenas um frágil fio de esperança para o animal perseguido. Esse fio logo se partiu, junto com as cartilagens de sua garganta, estraçalhada por uma ferocidade muito além do que seria necessário.

Os Lobos - Parte dois

Em meio a um trecho especialmente denso da floresta, o lobo cortava caminho e se aproximava rapidamente da cabana. Ele ainda ansiava por ela, mas tinha um ritual a cumprir antes do derradeiro encontro.
O lobo chegou ao seu destino rapidamente, junto com a noite que já lançava suas sombras sobre a mata. Olhou para a silhueta da cabana recortada na penumbra pelo brilho da lua cheia que surgia e buscou na memória as lembranças que aquela visão lhe evocava. Muitas estações haviam se passado, desde a última vez que estivera com a mulher. Ela deveria estar velha e gasta, pensou. O tempo não costumava ser complacente, e era especialmente cruel com alguém que já trilhara um longa jornada.
Há muito, ela já deveria ter ido ao encontro de seus ancestrais. Contudo, eventos inesperados a retiveram neste plano por mais tempo. Sua sucessora havia se rebelado e se negado a cumprir o destino que lhe cabia na tradição do clã.

Lilith - Noite Adentro Cap III

Eu bem que tentei, mas não consegui ficar sem procurar uma presa mais que alguns dias. Estava decidida a manter-me oculta em minha volta à cidade, uma vez que deveria ser uma visita breve, mas estava enganada em dois aspectos: meu tempo de permanência na cidade estava longe de qualquer previsão, e minha fome era muito maior do que eu poderia suportar. É nesse estado, faminta, que eu flutuo na corrente de ar quente que se desprende do solo aquecido pelo dia ensolarado. 
Às onze da noite, eu desisto de tentar encontrar uma presa em algum local isolado e me dirijo ao centro da cidade, planando sobre o campus da universidade. Ali seria um bom local de caça, mas as aulas do período noturno já acabaram há uma hora. Seria muita sorte encontrar algum retardatário vagando pelo estacionamento vazio. Digo seria, porque logo que penso nisso, escuto o choro. Eu me deixo escorregar entre as camadas de ar e desço lentamente. Apuro os ouvidos e percebo que o som vem da direção de um cipreste curiosamente esculpido. Eu me aproximo e escuto uma súplica. 

Zaphir - Capítulo IV

O Jogo dos deuses


Os garotos discutem os riscos de continuar o jogo. Até pensam em desistir, mas a curiosidade fala mais alto e decidem ir em frente. A fase seguinte introduzia outros personagens à galeria de avatares disponíveis. Novamente Gabriela sentiu-se atraída pelo demônio, mas decidiu ignorá-lo até saber mais sobre o jogo. Ficou em dúvida entre Zaphira, uma princesa guerreira e um jovem centauro chamado Kilt. Por fim decidiu-se pela opção que lhe parecia mais segura e clicou novamente na figura de um centauro. Esperava que, dessa vez, o personagem escolhido não morresse. Michel escolheu Bibbo, uma ave semelhante a um papagaio. Uma escolha baseada mais na possibilidade de voar através dele, do que pelo papel que a criatura poderia ter na trama.
Como da outra vez, à medida que se envolvia com o enredo, Gabriela tinha a sensação de se transpor para o personagem e se apropriar de seus pensamentos. Entretanto, desta vez a imersão aconteceu de uma forma desconcertantemente realista e ainda mais intensa.

O Fantasma de Ebenezer - Parte 1

Parte 1

Algum tempo se passou, sem que alguma alma penada me procurasse para contar sua história. Na verdade, tinha a nítida sensação de haver alguma relutância da maioria deles em compartilhar suas memórias, apesar da pressão quase explicita de Voz Cavernosa.
Eu esperava contar com o relato deles para o meu próprio projeto literário, mas já pensava em usar minha imaginação para isso, como sempre fiz em minhas histórias. O problema é que eu me encontrava vazio de ideias próprias. Na verdade, tinha a sensação de que minha capacidade criativa havia se exaurido, desde o momento em que fui induzido a compilar as histórias dos fantasmas que vagavam por entre as lápides do cemitério. A sensação era como se eu estivesse cumprindo uma pena e nada mais me restasse, além de relatar a jornada de cada um daqueles espectros sombrios. Algo que poderia render boas histórias, se eles se dispusessem a colaborar.

Zaphir - Capítulo III

Um jogo muito estranho e perigoso.

Para Gabriela, o retorno à loja de livros usados não tinha sido muito útil. Pelo menos não no sentido de explicar o que estava acontecendo. Todavia, dera-lhe a confortável convicção de que não havia nada de errado com sua sanidade mental, uma vez que Michel também presenciara os estranhos acontecimentos naquele velho sobrado. Isso a livrava de um pesado fardo que se insinuara em sua mente há muito tempo. Desde a infância via e ouvia coisas que os outros não percebiam. Em algumas ocasiões animais falavam com ela, noutras eram os objetos que adquiriam vida e lhe falavam do outro mundo que aparecia em seus sonhos, de outra vida que ela havia vivido. Havia noites em que um homem alto, de barba negra e nariz adunco, surgia em seus sonhos e lhe falava de uma missão que ela devia cumprir num outro mundo. Quando tentava falar com mãe sobre isso, quase sempre ouvia algo uma referência à sua fértil imaginação. Com o passar do tempo, Gabriela resolveu que não falaria mais sobre qualquer coisa que não parecesse “normal”..

Zaphir - Cap. II

Sobre garotas, maus perdedores e mais acontecimentos insólitos.

Os dias passaram rápido. Sob a orientação e proteção de Gabriela, a existência de Michel na escola tinha se tornado um pouco mais calma. Já havia aprendido os códigos não escritos de convivência com os valentões e os evitava com mais habilidade, embora ainda contasse com ela, cuja presença era suficiente para manter os mais encrenqueiros afastados, pelo menos por algum tempo.
Certo dia ele apareceu na casa dela todo agitado. Trazia um pequeno envelope na mão e o agitou diante Gabriela quando ela abriu a porta.
- Adivinha o que é.
- Não faço a mínima ideia. – Respondeu ela impaciente. – O que é?
- Um convite para você. Também recebi um.
- Um convite para mim? – Ela arrebatou o envelope da mão dele e o abriu sem muito cuidado.
- É um convite para a festa de aniversário da Valéria. Não é legal?
- É estranho. Essa garota nunca falou comigo, apesar de a gente estar no mesmo time de vôlei da escola.
- Acho que sei por que.
- Então me explica sabidão.
- Você é uma espécie de celebridade na escola. É a estrela do time de vôlei, boa aluna, líder... É isso.
- Fala sério. – Disse ela surpresa. – Você pirou de vez. Posso contar nos dedos as pessoas que realmente gostam de mim.

Lillith - Noite Adentro - Cap. II

Eu morri no início do século XIX. Mais exatamente no dia 21 de abril de 1808. Os acontecimentos que culminaram em meu triste infortúnio foram erigidos alguns dias antes, quando fui levada por meu pai à fazenda de Bartolomeu Bueno Ferraz, o homem mais poderoso do Arraial de São Vicente. Eu era o pagamento de uma antiga dívida, contraída a juros exorbitantes.
Com vinte e seis anos, eu era velha demais para o mercado do matrimônio. Na verdade, o destino desejado pelas mulheres de minha época não fazia parte de minhas ambições pessoais. Desde cedo, aprendi a afastar os pretendentes que se apresentavam, para o desgosto de meu pai, que veria com bons olhos qualquer um que o livrasse do ônus do meu sustento.