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O Fantasma de Ebenezer - Parte 1

Parte 1

Algum tempo se passou, sem que alguma alma penada me procurasse para contar sua história. Na verdade, tinha a nítida sensação de haver alguma relutância da maioria deles em compartilhar suas memórias, apesar da pressão quase explicita de Voz Cavernosa.
Eu esperava contar com o relato deles para o meu próprio projeto literário, mas já pensava em usar minha imaginação para isso, como sempre fiz em minhas histórias. O problema é que eu me encontrava vazio de ideias próprias. Na verdade, tinha a sensação de que minha capacidade criativa havia se exaurido, desde o momento em que fui induzido a compilar as histórias dos fantasmas que vagavam por entre as lápides do cemitério. A sensação era como se eu estivesse cumprindo uma pena e nada mais me restasse, além de relatar a jornada de cada um daqueles espectros sombrios. Algo que poderia render boas histórias, se eles se dispusessem a colaborar.

Felizmente não tardou para que meus receios se mostrassem infundados. Numa noite escura, eu estava a vagar por entre as tumbas, quando me deparei com o mausóleu que Berenice havia me mostrado quando conversamos pela primeira vez. A construção era realmente magnífica e logo fiquei entretido na apreciação dos ricos detalhes de acabamento que via. Foi quando ouvi o gemido arrepiante. Aquilo me causou um sentimento de pavor tão intenso, que mal pude conter o impulso de sair correndo. Era um medo inexplicável, devo dizer, uma vez que já estava acostumado com a convivência com entidades sobrenaturais.
Felizmente minha curiosidade foi maior que o medo e me fez entrar no mausoléu, ao notar que a pesada porta de carvalho estava apenas encostada. A luz do lampião que eu carregava mostrou uma escada para o subsolo. A Cripta fazia o Mausoléu parecer maior do que se poderia supor do lado de fora e essa constatação me fez pensar em voltar. Foi apenas um pensamento fugidio, mas confesso que a coragem nunca foi uma de minhas qualidades mais aguçadas. Naquele momento desejei que Berenice estivesse ali comigo. Ela tinha um caráter impávido e seria um bom contrapeso para minha falta de valentia. Sem ela, eu tinha que me virar sozinho com o que possuía de coragem. Não era muita, mas havia um mistério a ser esclarecido e eu não deixaria que o medo me fizesse recuar.
Cautelosamente coloquei o pé direito no primeiro degrau e levantei o lampião acima de minha cabeça para ver o fim da escada, mas me deparei com uma parede logo abaixo e a continuação da descida em uma curva de noventa graus. Eu teria que continuar descendo, se quisesse realmente descobrir a origem daquele gemido. Mal pensei nisso, o lamento ecoou na cripta. Aquele som congelou meu coração e meus joelhos tremeram descontroladamente por um bom tempo. Que alma penada teria um fardo tão grande, a ponto de gemer daquele jeito?
Respirei fundo e continuei a descer. Felizmente a escada era de alvenaria. Caso contrário, certamente rangeria com a tremedeira em meus joelhos. Logo que virei para continuar a descer, me deparei com uma cena inacreditável. Diante de mim, uma figura espectral pairava sobre um ataúde, a me olhar de modo ameaçador. A imagem que me veio à mente foi de um cão vigiando o osso.
-O que você quer aqui? Veio roubar meu ouro, como os outros? - Ele perguntou de modo belicoso.
Por um instante fiquei sem saber o que responder, ao perceber que o ataúde repousava sobre lingotes e moedas de ouro, caprichosamente empilhados de modo a formar uma base, onde foi assentado.
-Não fique olhando para o meu ouro, biltre. Vai gastar seu brilho. - Tornou a falar o fantasma, com um olhar delirante e velhaco. Ele tinha o aspecto de um velho pão duro, diretamente saído das páginas de Dickens. Eu ainda não sabia seu nome, mas em minha imaginação já o chamava de Ebenezer Scrooge.
-Nada sabia do ouro. - Respondi de modo belicoso. Nenhuma alma penada ia por em dúvida o meu caráter. - Estava admirando o mausoléu, quando ouvi um gemido.
-Ai de mim. - Gemeu novamente a figura taciturna, sem fazer caso do meu protesto. - Condenado a vigiar eternamente o meu ouro, tão custosamente amealhado.
Enquanto falava, ele tentava com sofreguidão pegar algumas moedas, mas suas mão passavam através do ouro, sem que lograsse êxito. Confesso que senti pena daquela patética demonstração de apego ao mundo material. Ele não estava entre os fantasmas que se apresentaram a mim na primeira vez, de modo que fiquei a imaginar quantos mais existiriam naquela necrópole, que não se submetiam aos desmandos de Voz Cavernosa.
-Com que propósito você vigia ouro, se nem ao menos pode tocá-lo?
-Porque é meu! Todo meu! Você está querendo me enganar?
-Não. Isso não tem valor para mim. Bem... Pelo menos não tudo isso.
-Eu sabia! Você veio aqui para me roubar, como todos os outros que vieram antes.
-Outros vieram aqui? - Perguntei, sem me deixar levar pelos sentimentos que ele tentava provocar.
O espectro pairou pela cripta, antes de responder.
-Muitos outros, mas eu espantei todos. O único que não correu foi você. Único, não. Tem aquela moça esquisita que vem aqui, vez ou outra. Mas ela não está interessada no meu ouro. Nunca tentou pegar nada.
Ele falava de Berenice, certamente.
-Os outros tentaram roubar seu ouro?
-Alguns deles. Aqueles que não correram depois de meus gemidos. Só fugiram depois que me manifestei. Ninguém vai roubar o meu ouro! Nem mesmo você...
Ele cuspia essas palavras com tal convicção e ódio, que quase tive dúvidas sobre minhas reais intenções ao ter descido até a cripta.
-Não quero seu ouro. - Disse-lhe. - Isso parece mais uma maldição. Há quanto tempo você está aqui, guardando isso?
-Desde que morri, é claro. Não faço ideia de quantos anos se passaram desde o meu passamento, mas faz bastante tempo. Fui um dos primeiros mortos a ser sepultado neste cemitério, isso é certo.
Não seria difícil descobrir a data exata, mas eu já sabia que o mausoléu tinha sido construído durante a década de 1940, de modo que patética figura espectral já estava vigiando seu ouro por mais de setenta anos. Por um momento fiquei a imaginar se Voz Cavernosa não teria algo a ver com essa punição, mas certos detalhes do Mundo Sobrenatural - que vim a conhecer mais tarde – negavam essa possibilidade.
Por hora, posso afirmar que Voz Cavernosa não controlava tudo, como cheguei a pensar, no princípio. Haviam regras e princípios de incertezas que até ele devia se submeter. Devo dizer que a conclusão que cheguei a respeito disso deixou-me um pouco mais seguro nas relações que eu ainda teria com essa entidade sobrenatural, apesar de logo descobrir que a mim também valiam as mesmas condições, apesar de estar vivo.
Enquanto esses pensamentos invadiam minha mente, o fantasma de Ebenezer pairava ao meu redor. Ao perceber seus movimentos fiquei um tanto apreensivo, mas não havia nisso nenhuma intenção belicosa, a princípio. Ele estava apenas curioso.
-Você não é um desencarnado. - Ele disse. - Está vivo!
-Sim, estou.
-Não gosto dos vivos. Todos os vivos que aqui vieram queriam roubar meu ouro.
-Não quero seu ouro, acredite. A riqueza é uma prisão que não me interessa.
-Tolice! A ganância faz parte da natureza do homem. Você não é diferente. Se não deseja apossar-se do meu ouro, o que faz aqui? O que você quer? - Ele perguntou, enquanto continuava irritantemente a me rodear.
-Quando entrei aqui, fui atraído por seu gemido, como lhe disse. Mas agora...
-Eu sabia! - Exclamou o fantasma. -Agora que viu meu tesouro, você o quer, não é?
-Não! - Gritei com ele.
Ebenezer parou de rodopiar à minha volta e se aproximou.
-Não? O que você quer, afinal?
-Sua história. Me conte sua história. - Pedi. Ele me olhou de soslaio, desconfiado, mas visivilmente envaidecido.
-Só isso? E por que razão, posso saber?
-Sou um escritor. Eu conto histórias e gostaria de contar a sua. - Respondi, não muito sincero. Naquele momento pensei que não seria uma boa ideia ele saber que Voz Cavernosa estava por trás disso.
-Pois, então, ouça minha história e depois vá embora!
-Aqui não. Preciso de minha máquina de escrever.
-Então traga ela para cá.
-Isso não é possível. Trata-se de uma máquina antiga e é muito pesada.
-Então nada feito. - Retrucou o fantasma de Ebenezer.
 - Não vou sair de perto do meu ouro.
-Mas poderíamos distribuir seu relato em sessões rápidas, com trinta minutos de duração. - Disse-lhe, tentando dar um tom casual para a sugestão.
-Não saio daqui nem por quinze minutos.
-Dez minutos? -Insisti. Não devia ter feito isso.
-Já disse que não! - Berrou ele, antes de se metamorfosear numa figura horrenda. - Vá embora!
Aquilo foi realmente assustador, mas o que me fez realmente ir embora foi o tremor que ele provocou na cripta. Parecia que tudo iria desabar. Então, realmente apavorado, bati em retirada.
Tempos depois, enquanto eu matutava uma forma de levá-lo até o local que Voz Cavernosa tinha me designado para trabalhar nas crônicas das almas penadas, soube que a tumba de Ebenezer tinha sido saqueada e todo o seu ouro havia sumido.
Neste ponto, seria lógico pensar que Voz Cavernosa tivesse algo a ver com a ação dos ladrões, mas jamais soube disso com certeza. Entretanto, estava escrito que o fantasma de Ebenezer viria até mim e contaria sua história, feita de acumulação de riqueza e muita solidão.