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Zaphir - Capítulo III

Um jogo muito estranho e perigoso.

Para Gabriela, o retorno à loja de livros usados não tinha sido muito útil. Pelo menos não no sentido de explicar o que estava acontecendo. Todavia, dera-lhe a confortável convicção de que não havia nada de errado com sua sanidade mental, uma vez que Michel também presenciara os estranhos acontecimentos naquele velho sobrado. Isso a livrava de um pesado fardo que se insinuara em sua mente há muito tempo. Desde a infância via e ouvia coisas que os outros não percebiam. Em algumas ocasiões animais falavam com ela, noutras eram os objetos que adquiriam vida e lhe falavam do outro mundo que aparecia em seus sonhos, de outra vida que ela havia vivido. Havia noites em que um homem alto, de barba negra e nariz adunco, surgia em seus sonhos e lhe falava de uma missão que ela devia cumprir num outro mundo. Quando tentava falar com mãe sobre isso, quase sempre ouvia algo uma referência à sua fértil imaginação. Com o passar do tempo, Gabriela resolveu que não falaria mais sobre qualquer coisa que não parecesse “normal”..

Os anos passaram e aquelas visões praticamente desapareceram. As lembranças que Gabriela tinha a respeito disso se tornaram fugazes e encobertas pelas brumas do tempo. A sua adolescência se iniciava e, com ela, os brinquedos e fantasias começaram a ceder espaço para outros interesses, até o dia daquele jogo de taco no terreno baldio. Então, ela começou a pensar que algo muito estranho acontecia em sua vida, e que provavelmente lidava com forças que estavam além de sua compreensão, ou do discernimento de qualquer outra pessoa. Mesmo temendo o que poderia advir de suas decisões, ela concluiu que a chave para descobrir o que estava acontecendo com ela poderia estar no jogo de videogame.
Eles não puderam rodar o jogo no mesmo dia que voltaram da rua do mercado velho. Chegaram atrasados em casa e suas mães logo descobriram que não estavam na biblioteca da escola, como disseram no telefone. Então ficaram de castigo, e só foram liberados três dias depois, num domingo.
O dia damanhecera nublado e ventoso. A manhã fria e cinzenta prenunciava o fim do veranico de maio. O outono tinha um humor volúvel. Em alguns dias parecia um verão renitente, noutros se apresentava como um inverno apressado.
Às sete da manhã, por força de hábito, Gabriela abriu os olhos e, com a dificuldade costumeira para pôr-se desperta, olhou para o relógio digital e maldisse o tempo por passar tão depressa quando ela estava dormindo. O display do aparelho brilhava na penumbra do quarto, emprestando um tom levemente avermelhado à coruja branca de cerâmica que ficava ao lado, sob o criado-mudo. Ainda sonolenta, ela se perguntou por que ele ainda não havia disparado o alarme, até que percebeu que não precisava acordar cedo nesse dia.
- Que ódio! – Exclamou, mas logo voltou a dormir.
Ao contrário dos outros dias, os pesadelos não voltaram desde que resolvera rodar o jogo no seu computador, mas por via das dúvidas cobriu o espelho e evitou olhar-se nele. Aparentemente, o estratagema havia dado resultado, a menos que sua decisão sobre o jogo tenha sido responsável por aquietar o demônio que a atormentava. Contudo, ela não chegou a pensar sobre isso.
Por volta das nove horas da manhã Gabriela acordou, insistentemente sacudida por outra espécie de pesadelo. Era Michel, impaciente ao vê-la dormindo.
- Levanta dorminhoca!
- Não acredito!
- Olha só o que eu trouxe! – Disse ele, não fazendo caso da sua indignação. Em sua mão brilhava o estojo do DVD.
Gabriela bocejou resignada. Piscou os olhos sonolentos e virou para o lado oposto, esperando que ele desaparecesse.
- O que você tá fazendo aqui de madrugada?
- Madrugada? Nem no Japão. São quase nove da manhã. – Anda! Levanta logo. Você não queria experimentar o DVD?
- Tá bom! Vai ligando o computador, enquanto acabo de acordar.
- Yes!
Gabriela levantou e encaminhou-se para o banheiro. Alguns minutos depois, quando já tinha retornado ao quarto, sua mãe a chamou para tomar café. Ela saiu rapidamente, puxando Michel pela gola do casaco.
- Ei! – Protestou ele.
- Você não tá sempre grudado em mim? Então vai descer também. – Completou, sem esperar resposta.
- Garotas! – Exclamou ele aos tropeções.
Dentro do banheiro, um par de olhos vermelhos surgiu no espelho semioculto pela toalha pendurada no cabide ao lado. Fitou por um momento a porta entreaberta e desapareceu em seguida.
Gabriela sentou-se à mesa, enquanto sua mãe trazia o bolo de fubá que estava esfriando no parapeito da janela. Ela olhou para a filha e analisou seu semblante, como fazia todas as manhãs. Aparentemente estava tudo bem. Os pesadelos e sonhos estranhos não a estavam perturbando mais. Esse indício, longe de tranqüilizá-la, a deixou mais inquieta. Há muito tempo, sua intuição materna trazia-lhe pensamentos inquietantes a respeito Gabriela. Ela parecia ter o dom de atrair coisas e acontecimentos estranhos, como um pára-raios numa tempestade.
- Vai tomar café também, Michel? – Perguntou, ao vê-lo postar-se em pé ao lado de Gabriela, indeciso.
- É o mesmo que perguntar se macaco quer banana. – Disse Gabriela Mordaz.
- Eu já tomei café em casa. – Disse ele belicoso. Michel era muito suscetível a qualquer menção ao seu enorme apetite.
- Tem certeza? – Provocou Gabriela, levantando uma fatia de bolo de fubá diante de seus olhos gulosos.
- Bem...
- Sente-se Michel. – Disse a mãe de Gabriela sorrindo. Ela não se surpreendia com o apetite dos adolescentes, mas Michel era um caso a parte. Apesar do seu tipo franzino comia como se fosse um atleta.
- Não sei como você consegue comer tanto. – Implicou Gabriela. – E nem tem músculos suficientes para queimar tanta caloria.
- É o meu cérebro. Tenho neurônios de alto desempenho. – Respondeu ele, abocanhando um sanduíche.
- Menos a parte que controla o apetite. – Ela retrucou, com azedume.
A mãe a observou com certo alívio. Aquele mau humor pela manhã era absolutamente normal. Talvez não houvesse motivos para preocupações, pensou, enquanto abria as venezianas da cozinha.
- O tempo mudou. – Comentou desnecessariamente, piscando os olhos para a claridade da manhã. – Está um ótimo dia para caminhar na praia, vocês não acham?
- Praia nesta época? – Replicaram os dois, sem muito entusiasmo.
- Sim, por que não? Na idade de vocês eu adorava ir à praia e catar conchas para minha coleção. Tinha um acervo respeitável, fiquem sabendo.
- Mamãe, às vezes você é patética!
Mal havia dito a frase, Gabriela percebeu que a palavra patética estava se tornando demasiado freqüente em seu vocabulário, assim como a tola presunção dos adolescentes mal educados e frívolos que ela evitava na escola.
- Não seja tão insolente mocinha. Há muito mais na vida que televisão e jogos de videogame.
- Desculpe. – Respondeu ela consternada. – Eu não sei por que falei desse jeito com você, juro.
A mãe de Gabriela nada respondeu. Ficou absorta em relembrar suas próprias mudanças de humor quando tinha a mesma idade. Teve a impressão de ter passado por momentos semelhantes, mas lhe pareceu também que havia algo mais nas atitudes da filha, como se de repente aflorasse outra personalidade. Mal pensou isso, repeliu a ideia. Devia estar imaginando coisas, pensou por fim.
- Está bem. – Disse a mãe de Gabriela. – Vamos esquecer o assunto. O que vocês vão fazer? Já que sair parece que está fora de cogitação.
- Nós vamos experimentar um novo jogo no micro. – Respondeu Michel afoito, para logo engolir as palavras. – Acho que não é uma boa idéia.
Gabriela olhou para a mãe. Desejava não ter lhe falado daquele jeito. A magoada expressão materna ainda a galvanizava por dentro. Contudo, mães amorosas são de um tipo especial. A mãe percebeu o conflito que se instalava no coração da filha e não hesitou em iluminá-la com o seu mais terno sorriso.
- Que jogo?
- É um jogo que ganhamos numa promoção. – Disse Gabriela timidamente.
- Compreendo. Espero que o conteúdo desse jogo não seja impróprio para a idade de vocês.
- Na verdade nós não conhecemos o jogo, mas eu queria ver se vale pena antes de decidir guardar ou jogá-lo fora.
- Não é mais um daqueles jogos sanguinários, cheio de demônios e bruxas?
- Yes! – Responderam em coro.
- Impressionante! Não sei como vocês não têm pesadelos com essas coisas.
- às vezes eu tenho. – Admitiu Gabriela, subitamente sombria.
- Quer falar sobre isso?
- Não é nada. – Respondeu Gabriela, mudando de assunto. – Anda Michel, vamos!
- Pô! Ainda nem acabei meu sanduíche.
- Você não acaba nunca. Podemos subir mamãe?
- Está bem. – Respondeu a mãe de Gabriela, suspirando. – Mas não façam barulho, nem bagunça no quarto.
- Tá. – Respondeu Gabriela, enquanto arrastava Michel escada acima.
- Tem mais uma coisa...
- O quê?
- A luz vai ser desligada às 11:00h para a troca de um transformador aqui na rua. Então, antes disso, vocês tem que desligar o computador, certo?
- Tudo bem. Quando chegar a hora a gente para o jogo. – Respondeu Gabriela entrando no quarto.
A mãe de Gabriela serviu-se de uma xícara de café. Pensativa, interrompeu o movimento circular da colher e concentrou-se na a velha e incômoda sensação de que algo ruim estava acontecendo com sua filha. Era uma sensação recorrente, que surgia com muita freqüência nos últimos dias. Talvez devesse ter uma longa conversa com Gabriela sobre seus pesadelos, filmes de terror e aqueles joguinhos horrorosos.
Alheia às preocupações de sua mãe, Gabriela acompanhava aflita as tentativas de Michel para fazer o DVD rodar no computador.
- Não adianta. Não tá lendo o DVD. – Disse ele desapontado. – Porcaria!
- Deixe-me tentar. – Falou ela, puxando-o da cadeira.
- Já fiz tudo que se podia fazer. Não adianta.
Sem responder, Gabriela continuou tentando acionar o DVD. Parecia tomada de um frenesi, como se aquilo fosse uma questão de vida ou morte. De repente a tela do monitor explodiu num caleidoscópio de cores, que giravam e se alternavam de forma hipnótica.
- Consegui! – Exclamou ela triunfante
- Não entendo... Eu fiz a mesma coisa! – Disse Michel contrariado. Ele não gostava de situações que colocavam em dúvida seus conhecimentos de informática.
O título do jogo surgiu na tela do monitor em caracteres góticos, seguido de várias telas apresentando a primeira fase, enquanto uma voz soturna despejava instruções e advertências aos jogadores.
- É um RPG. – Falou Gabriela excitada.
- Eu não disse? Agora vamos criar o clima. – Falou Michel, levantando-se para fechar as cortinas da janela e destapar o espelho da penteadeira.
- O espelho não! – Protestou ela.
- Por que não? Gosto de espelhos. Eles parecem uma porta para outra dimensão.
Para Gabriela eles eram mais do que pareciam e tinha medo disso, mas nada disse. Não esperava que ele compreendesse o que sentia.
- Tá. Agora senta aqui e fica quieto. Vou reinicializar o jogo para ouvir as instruções de novo.
Novamente surgiu o título do jogo na tela, acompanhado da estranha voz que desafiava os jogadores a enfrentar o desconhecido:


Esta é uma guerra entre tradição e a magia dos Magos Celestiais do reino de Antária e o conhecimento dos homens e suas corporações industriais do Reino de Céltica.
Escolham seu avatares para a primeira missão, jogadores, e decidam de que lado vão ficar.

- Como é que o jogo sabe que tem mais de um jogador? – Perguntou Gabriela, desconfiada. – Nós não escolhemos ainda a função multiplayer.
- Acho que ele reconheceu o segundo joystick.
Uma paisagem inóspita surge n tela. Ao longe aparece uma torre, cuja silhueta se recorta do céu iluminado por duas luas. Um efeito de zoom aproxima a imagem.

Esta é a torre oriental do reino de Antária. Nela está encerrado o demônio Zaphir, derrotado após uma dura batalha com os Magos Celestiais. Forças ocultas se movimentam para libertá-lo. Solto, o demônio torna-se novamente um flagelo e rompe o equilíbrio entre os reinos em guerra e promove a supremacia de Céltica e seus aliados.
Sua missão, Ó jogadores, é defender a torre ou libertar o demônio. Entretanto, cuidado!
Sua escolha, qualquer que seja trará conseqüências que podem ser devastadoras. Muitos são os perigos para aqueles que se aventuram neste mundo, e muitas são as recompensas para aqueles que triunfam. A vitória final, porém, pode significar a derrota. A derrota pode significar o triunfo, segundo a vontade e o humor dos deuses. Em ambos os casos, sua alma é o preço a pagar. Este é o momento da decisão, jogadores. Desejam continuar?

As duas opções apareceram na tela e piscavam impacientes.
- Uau! Que sinistro! – Exclamou Michel entusiasmado.
Após hesitar um momento, Gabriela confirmou a opção de continuar. Em seguida, uma lista de personagens daquela fase apareceu no vídeo. Encabeçando a lista, o demônio dos seus pesadelos a fitava com uma expressão de desafio.
Gabriela estremeceu quando o reconheceu.
- O que foi? Perguntou Michel, percebendo sua hesitação.
- Nada. Tive a impressão que já conhecia aquele personagem. – Respondeu ela, apontando o demônio.
- Zaphir... Parece o demônio que você desenhou outro dia na sala de aula. – Disse ele, displicente. – Bem, vamos jogar, não vamos?
Sem conseguir compartilhar do entusiasmo de Michel, Gabriela olhava para o monitor com a respiração ofegante, sem decidir-se. Quase em pânico, ela não compreendia sua reação. Era só um jogo, não era? De algum modo ela pressentia que aquele RPG parecia ser algo mais que isso. Possivelmente, aquele jogo envolveria coisas que ela desconhecia e não saberia como lidar.
- O que tá esperando? – Perguntou Michel, já impaciente.
- Não sei. Tô com uma sensação estranha na boca do estômago.
- Xi! Não vai dizer que...
- Tô com medo.
- Que besteira! Eu nunca vi você com medo de coisa alguma. E isso é só um jogo.
- Agora é diferente. Nunca vi um jogo assim. Parece que vou entrar nele.
- Que bobagem! Um jogo é só uma simulação. Nada ali existe de verdade. – Retrucou Michel, com uma lógica irrefutável.
- Tem razão. Acho que tô ficando velha e gagá. – Respondeu ela, confirmando a disposição de entrar no jogo. Ao seu comando abriu-se uma janela solicitando que escolhessem seus avatares.
Michel optou por Bullit, um elfo com poderes mágicos ligados aos quatro elementos da natureza: terra, fogo, ar e água. Gabriela fitou os personagens restantes. Um feiticeiro, um centauro guerreiro e o demônio Zaphir. Embora tenha ficado tentada a escolher Zaphir, no último momento ela se decidiu pelo centauro. Talvez assim pudesse combater o demônio e expulsá-lo de seus sonhos. Após ela ter confirmado a escolha de seu personagem, surgiu uma tela com uma planície de aspecto estranho, cuja vegetação rasteira era entremeada por árvores retorcidas e de aspecto sombrio. Ao longe, uma torre avançava sobre o céu iluminado pelas luas gêmeas do mundo de Azzura e marcava o início de uma densa floresta.
O jogo havia começado. No comando do seu avatar, Gabriela avançava por entre a vegetação em direção a uma clareira.
Oculto pelas sombras, o centauro Beron tentava perceber algo anormal. Havia recebido um aviso telepático do guardião da torre sobre a presença de estranhos na área. O fato em si nada tinha de excepcional, considerando que estava numa região de fronteira e ponto de passagem de muitas caravanas. Contudo, bullit não costuma se enganar. Além da capacidade telepática, o pequeno elfo tinha visões premonitórias com uma irritante freqüência de acerto. Era verdade que a criatura verde costumava usar suas habilidades para pregar peças nos centauros guerreiros que faziam parte da guarnição da torre. Entretanto, ele não brincava com um centauro em serviço, principalmente em situação de perigo iminente.
Logo adiante, por trás da copa das árvores, Beron podia enxergar a grande torre antariana. Erguida numa colina, a fortaleza tinha um aspecto imponente, ao refletir o brilho azulado do duplo luar. De suas ameias era possível ter uma visão de 360 graus de toda a região, desde as montanhas Celestiais, a leste de Antária, até os pântanos de Walka, situados no extremo oposto das planícies orientais. Sua localização fazia parte de uma linha de defesa do Reino dos Magos Celestiais, sempre ameaçado por inimigos da região das sombras e o belicoso reino de Céltica.
Em que pese sua importância estratégica, aquela torre tinha uma razão especial para existir. Nela estava encerrado o demônio Zaphir, uma entidade feroz e sanguinária, que tinha surgido logo após o desaparecimento de Zaphira, a implacável rainha guerreira, durante uma batalha com as forças místicas de Antária.
Apesar da ampla visão que tinha da região em torno da torre, Bullit concentrou-se em acompanhar a inspeção do centauro Beron pelas imediações. O que o centauro via, ele via também, graças ao elo mental que compartilhavam.
Guiando seu avatar, Gabriela circundou a clareira e caminhou pela mata, sem nada encontrar para o prosseguimento do jogo.
- Não acontece nada. – Falou impaciente. – Acho que este jogo tá com defeito.
- Não tô encontrando o meu personagem. – Disse Michel.
Eles já iam desistir do jogo quando, de repente, Gabriela “ouviu” o pensamento de seu avatar:
Acho que o elfo se enganou”.
Eu nunca me engano” Respondeu o elfo mentalmente.
- Achei! – Gritou Michel, apontando a diminuta figura quase invisível no alto da torre. Exultante, ele experimentou os comandos fazendo o elfo pular na ameia.
- Agora vai!
Aos poucos eles se deixaram envolver pelo enredo do jogo e não tardou para que se transportassem para o cenário na pele de suas personagens.

Volte para a clareira com cuidado. Eles estão próximos”. Tornou a ecoar a voz do elfo na cabeça do centauro.
Cale a boca”. Respondeu Beron, esquecendo que ouvia uma mensagem telepática de um superior imediato.
Ainda resmungando, como sempre fazia o ouvir uma ordem do elfo, o centauro retornou à clareira.
Quando se aproximou do local, ouviu o som abafado de passos furtivos seguindo em direção ao centro da clareira.
Avançando com cuidado, o centauro seguiu o som daqueles passos e não tardou a ver um pequeno grupo de homens armados, liderados por um velhote de estatura fora do comum. Era franzino e tinha a pele macilenta e ressequida, como se nunca tivesse se exposto à luz do sol. Não obstante sua aparente fragilidade, seu porte era altivo e destoava dos guerreiros que o acompanhavam. Esses tinham o porte físico robusto e atarracado. Eram criaturas peludas, com a aparência de um elo perdido na evolução humana. Isso lhes dava um aspecto grotesco e bestial. Suas vestimentas eram de couro reforçado com placas de metal no peito e nas articulações. A pesada vestimenta se complementava com pesados elmos ornados por pequenos adereços que lembravam asas de morcegos. Fortemente armados, eles portavam escudos e lanças, além das espadas que traziam na cintura.
Ao atingir o centro da clareira, o velhote parou. Os guerreiros sentaram-se ao seu redor e aguardaram em silenciosa expectativa.
O centauro ouviu o velhote sussurrar e aproximou-se um pouco mais para ouvir suas palavras. O esforço foi em vão, pois não conseguiu compreender a estranha língua utilizada.
Ele está falando em n’sualli, a língua dos deuses mortos. Acho que você encontrou um feiticeiro Tchala”, respondeu Bullit, antecipando-se à sua pergunta. “O que ele está fazendo aqui?”. A pergunta era meramente retórica. O elfo sabia o que o bruxo queria e tratou de preparar-se para o embate que se anunciava.
Boa pergunta! Por que não o convida para jantar’? Perguntou o centauro com a ironia costumeira”.
Não creio que ele goste do cardápio”. Respondeu o elfo no mesmo tom. “Continue observando, mas esconda essa bunda grande e faça o possível para que não o percebam”.
Beron mudou de posição, tentando ver melhor o que se passava. Quando o feiticeiro se voltou em sua direção, o centauro pode ver melhor seu rosto. Era uma caricatura de um rosto humano, com grandes orelhas de abano, que se projetavam da cabeça por entre uma cabeleira grisalha e desgrenhada. Na face encovada, um par de olhos negros, e sem pupilas, fitavam torre com uma expressão diabólica.
Silenciosamente, o estranho desenhou no chão um triângulo, com um símbolo místico em cada vértice da figura. Ao perceber, através dos olhos de Beron, a natureza dos símbolos desenhados pelo feiticeiro tchala, Bullit soltou um impropério. Ele identificava os preparativos para a conjuração de um antigo feitiço de destruição, capaz de neutralizar os encantos que protegiam a torre e, ao mesmo tempo, provocar sua destruição através de um efeito secundário, de natureza explosiva.
Beron mantinha os olhos fixos no feiticeiro. O centauro nunca tinha visto aqueles olhos, mas eles lhes eram estranhamente familiares. Lembranças de uma canção ouvida na infância vieram-lhe à mente, como a alertá-lo do perigo que corria. Sem tirar os olhos daquele grupo de invasores, Beron deixou-se levar pela lembrança dos versos, que em épocas passadas tinham-lhe causado tanta inquietação. Em muitas ocasiões havia suportado a zombaria dos mais velhos, diante da expressão de temor que não conseguia ocultar, quando a escuridão da noite chegava e invadia o seu coração infantil com um medo inexplicável.

Eis que surge novamente a noite,
com seu negro manto a ocultar
aqueles que se movimentam nas sombras,
longe dos olhos e do coração.

No escuro véu da noite calada
eles espreitam malignos e
seus olhos brilham como brasas
aguardando o silêncio das almas.

Eles têm a fome do medo
basiliscos vorazes de almas inocentes
que vagam por entre sonhos e pesadelos
gargalhando na escuridão.

Eles não possuem nomes nem passado
Não têm forma nem substância
Existem, no entanto,
no lado negro das mentes insanas.

Isso não é hora para lembrar cantigas de ninar! Preste atenção no velhote”. Falou Bullit, invadindo de novo a mente do centauro, que se irritou com a intromissão em seus pensamentos. A canção que ecoava em sua mente revivia antigos temores expressados no folclore de sua terra natal. Eram histórias de ataques sangrentos, sofridos por aldeias localizadas em regiões remotas de Antária. Todavia, o elfo tinha razão e ele fez um esforço para concentrar-se no que estava vendo.
Na clareira, o velho feiticeiro começou a entoar um cântico, quase tão antigo quanto a aurora do tempo.
Swamy rana af notibulum aramai. Sutur volcan luma af sussum corda. Swamy rana volcan ale et”. Declamava o feiticeiro, tomado de um estranho frenesi.
Swamy Rana”. Respondiam os soldados em transe, repetindo o refrão a cada verso entoado pelo seu mestre.
É um encanto de destruição! Saia já daí!!” Berrou Bullit em sua mente.
A ansiedade do elfo fez Beron compreender que algo muito grave estava acontecendo. Com efeito, uma bola de fogo surgiu acima do feiticeiro tchala. Ao seu comando, ela disparou em direção à fortaleza céltica e explodiu numa nuvem de poeira e fragmentos. O centauro olhou para o local da explosão e não percebeu nenhum dano significativo, mas o feiticeiro recomeçou o cântico e, pela força do primeiro impacto, a torre poderia ser destruída se o bombardeio continuasse. O centauro percebeu que devia neutralizar o feiticeiro o quanto antes. Desembainhou a espada e avançou em direção à clareira.
O que você está fazendo? Saia já daí!” Ordenou Bullit aflito.
Tenho que fazer alguma coisa, nanico. Você sabe que a torre não agüentará muito tempo.”
Os outros guerreiros já estão a caminho. Você não pode fazer isso sozinho.”
Ora! Você sabe que eles não chegarão a tempo. Agora pare de me aborrecer, que tenho trabalho a fazer.”
O elfo silenciou. Sabia que Beron estava certo. Pelo tipo de encantamento proferido pelo feiticeiro tchala, deu-se conta que iria precisar de toda a proteção que os centauros guerreiros pudessem proporcionar. Após dedicar uma prece ao amigo, ordenou à guarnição que voltasse à torre. Impedir a libertação de Zaphir era mais importante que tudo, inclusive a vida de um amigo ou a dele próprio.
Entre Beron e o mago havia sete guerreiros. Nada demais para ele, cuja força física e habilidade no combate corpo a corpo eram muito superiores as de qualquer um daqueles oponentes. Contudo, os guarda-costas do feiticeiro estavam muito próximos uns dos outros. Embora eles ainda estivessem em transe. Tinha que considerar ainda a reação do próprio feiticeiro. Como todo centauro, ele tinha um verdadeiro pavor de encantamentos e feitiçarias. Sua hesitação não era, como poderia se pensar, temor pela própria segurança, mas a convicção de que deveria ser bem sucedido, ou a torre seria destruída, abrindo um flanco para o inimigo. Não havia margem para erros, portanto. Seu último pensamento antes de atacar foi de que não sobreviveria. Não pensava nisso por medo. Era apenas uma simples e fria constatação que continha a costumeira dose de fatalismo que permeia o raciocínio de um guerreiro, preste a entrar em combate numa situação que não lhe é favorável. Para um centauro guerreiro, Thanatis, a deusa da morte era uma caçadora tenaz e implacável, mas tratava bem aqueles que caiam em combate, concedendo-lhes a honra de guerrear ao seu lado nas batalhas travadas além das estrelas.
Saindo da mata cerrada, o centauro avançou pela clareira num galope veloz. Com os olhos fixos no feiticeiro, ele não percebeu que um dos guerreiros mais próximos do seu alvo tinha saído do transe.
- Um centauro! – Exclamou a criatura, ao mesmo tempo em que erguia a espada. – Defendam o mestre!
Numa fração de segundos, os outros guarda-costas se posicionaram, enquanto o primeiro erguia sua espada e atacava o centauro. Num esforço, Beron ergueu suas patas dianteiras e aparou o golpe com os cascos e, em ato contínuo, esmagou o crânio do adversário. Na sua passagem, uma lança atingiu-lhe as costas. Apesar da dor lancinante, ele conseguiu abater mais um guerreiro com um coice certeiro. O feiticeiro estava próximo, mas já disparava a terceira bola de fogo. Apesar de estar concentrado em seus encantamentos, o tchala percebeu a aproximação do centauro e se preparou para enfrentá-lo. Beron decapitou o terceiro guarda-costa, mas uma segunda lança atingiu de raspão. Sem fazer caso dos ferimentos, ele deu um último salto e alcançou o velhote. Ia desferir o golpe fatal, quando fitou novamente aqueles olhos negros. De repente seu braço ficou pesado e a sua espada parecia descer com uma lentidão exasperante., enquanto mais um golpe o atingia pelo seu flanco direito. Nesse instante, Bullit invadiu novamente sua mente e o livrou daquele domínio. Então, sua espada desceu certeira, separando a cabeça do feiticeiro do resto do seu corpo. O tchala deu alguns passos grotescos, como se estivesse executando uma dança macabra. Em seguida, dobrou os joelhos e caiu silenciosamente.
O centauro não teve tempo de entoar seu canto de vitória. Logo tombava também, sob uma saraivada de golpes que pareciam vir de todas as direções. Ele podia sentir as lâminas penetrando sua carne e drenando sua energia vital. Contudo, não havia dor, mas apenas a certeza de que iria morrer. A vida ia se extinguindo em batimentos cardíacos que ressoavam em seus ouvidos como um tambor de guerra, que se tornava mais lento a cada instante em que suas forças se esvaiam pelos ferimentos a ele infligidos.
- Meu Deus! Ele tá morrendo! – Exclamou Gabriela, sentindo a agonia do seu avatar.
- E-eu também tô sentindo. – Gaguejou Michel, apavorado com as sensações que aquele jogo transmitia. – Desliga isso!
- Não consigo.
O derradeiro momento fez o centauro lembrar que não possuía descendentes, pois o caráter errante da vida militar o impedira de constituir família. Com pesar, percebeu naquele momento que sua linhagem se extinguiria com ele. Era um tanto irônico pensar naquilo justamente quando a vida lhe escapava. Pouco depois, sua mente mergulhou na escuridão.
Ainda sem fôlego, Gabriela demorou a perceber o que tinha acontecido. Olhou para Michel. Ao seu lado, ele ainda fitava o monitor como se estivesse hipnotizado.
- Faltou luz. – Balbuciou ela.
- Falou luz. – Repetiu ele, como um papagaio, ainda sem compreender.
Gabriela foi para a janela e viu um grupo de operários da cia. de eletricidade trabalhando na substituição de um transformador a uma quadra distante da sua casa. Pensativa, ela se voltou para Michel.
- Que jogo doido. Eu podia jurar que tinha me transformado no centauro.
- Eu também. Quero dizer.. Eu tava me sentindo um elfo. Isso é muito estranho.
- Estranho e perigoso. Acho melhor a gente não jogar mais isso.
- Tá - Concordou Michel, sem protestar. – E o que vamos fazer agora?
- Tenho uma idéia. Vamos descer.
Os dois saíram do quarto e desceram a escada correndo, atraindo o olhar reprovador da mãe de Gabriela.
- Ei! Devagar! Querem quebrar uma perna?
- Desculpe, mamãe. – Disse Gabriela, refreando sua vontade de escorregar pelo corrimão da escada. – Nós vamos à praia.
- É mesmo? Nada como um dia sem eletricidade. Acho que não vou mais pagar a conta da luz.
- Não exagera, mãezinha. É só hoje.
- E o que nós vamos fazer na praia? – Perguntou Michel, ao tomar conhecimento da idéia de Gabriela.
- Vamos catar conchinhas. Não é legal?
- Legal?! Fala sério!
Sem fazer caso do protesto de Michel, Gabriela o arrastou para fora de casa, sob o olhar atônito da mãe dela.
No quarto de Gabriela, a tela do monitor voltou a acender misteriosamente, apesar da falta de energia. O mesmo olhar maligno que apareceu no pesadelo de Gabriela surgiu novamente por breve um momento e desapareceu em seguida.