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Zaphir - Capítulo III

Sobre perdas e Novas descobertas

Gabriela já estava na sala de aula e o percebeu assim que ele entrou. Entretanto, Michel não a viu. O professor designou-lhe um assento no outro lado da sala e ele fez o possível para não olhar para ninguém. Só queria sentar-se e permanecer invisível, como sempre fazia. Mas isso não aconteceu.
A aula era de ciências e o professor fez uma pergunta dirigida a Jorjão, o arqui-inimigo de Michel, que o havia elegido a saco de pancadas predileto e que havia tentado fazê-lo tropeçar quando passou perto.
— Já que você está tão cheio de energia hoje, poderia nos explicar o que é sublimação?
— Eu?
— Sim. Você, que parece só saber usar o cérebro que a natureza lhe deu para fazer asneiras e desrespeitar minha aula.
A sala ficou quase em silêncio, exceto por algumas risadinhas.
O garoto ficou vermelho e procurou apoio entre seus companheiros de travessuras. Tudo o que encontrou foram olhares desencontrados.
— Responda à pergunta, por favor.
Como o moleque permaneceu calado, o professor se dirigiu à classe.
—Alguns dos senhores aqui presente teria a gentileza de contribuir com a nossa aula compartilhando seu vasto conhecimento conosco?

O professor fitou cada um dos alunos e todos baixavam o olhar, para sua tristeza e frustração. De repente, voltou-se para Gabriela, esperançoso. Ela nunca o decepcionava e saberia responder.
— Talvez você possa responder à minha pergunta.
Gabriela, entretanto, não gostava de chamar atenção para si e sabia que não deveria contribuir para aquela situação, embora não gostasse de Jorjão e lhe agradasse vê-lo fazendo papel de bobo.
— Não sei professor, desculpe.
O mestre a olhou por um breve instante. Estava decepcionado, mas nada disse.
— Alguém sabe responder à pergunta que fiz ao Jorjão? — Perguntou novamente. Sem resposta, consultou a lista de chamada.
— Quem é Michel?
Quase imediatamente todos os olhos se voltaram para ele.
 — Talvez você possa nos agraciar com um pouco do seu conhecimento. Você sabe responder à pergunta?
Sublimação é a passagem do estado sólido para o gasoso sem passar pelo estado líquido. — Respondeu Michel, já se arrependendo do que tinha feito ao ver o olhar de ódio de Jorjão sobre si.
— Muito bem. Parece que ainda há esperança para a humanidade, afinal. — Disse o professor satisfeito com a resposta de Michel.
O sinal do intervalo soou e todos os alunos se levantaram imediatamente, aliviados em sair da sala de aula. Gabriela procurou Michel depois de arrumar seus cadernos, mas ele já havia sumido de vista.
Uma confusão se instalou no pátio da escola, quando alguns garotos cercaram um dos alunos. Gabriela se aproximou e viu Michel ser espancado e jogado de um lado para o outro, pisoteando o conteúdo de sua própria mochila espalhado no chão.
— Olha só o espertalhão. Tá ficando tonto. — Disse um dos garotos, empurrando-o para Jorjão.
Michel foi agarrado pelo colarinho e sacudido como um boneco.
— Não vai se defender, Mariquinha? — Falou o moleque, erguendo o punho fechado.
Ele não chegou a desferir o golpe. Levou um violento tapa na orelha. Ainda zonzo e incrédulo, virou-se para o seu agressor. Deu de cara com Gabriela, mas não teve tempo de reagir e se proteger do violento soco no estômago.
Os outros garotos fizeram menção de atacar, mas o olhar feroz dela os conteve por tempo suficiente para chegada de alguns professores. Michel foi levado para a enfermaria e, felizmente, os hematomas eram mais feios do que graves. Todavia, os pais dele não se conformaram em ver o filho agredido e exigiram uma punição severa para os agressores, que foram todos suspensos por quatro dias e obrigados a prestar serviços de limpeza e manutenção na escola. Quanto à Gabriela, ela recebeu um dia de suspensão por ter se envolvido na briga.
 Quando Gabriela saiu do gabinete da direção da escola, as aulas já haviam acabado. Ela pegou seu material escolar e saiu pelo corredor deserto. Ao passar por uma samambaia, pensou ter ouvido um chamado. Voltou-se rapidamente, mas não viu ninguém. Virou-se para ir embora e, novamente, ouviu uma voz. Ela girou novamente o corpo, mas a única coisa que viu foi a samambaia.
— Quem está aí?
Não houve resposta.
— Essa brincadeira não tem graça. — Disse ela, irritada.
Foi então que ouviu uma risadinha. Contendo sua apreensão, ela se aproximou. esperava encontrar o engraçadinho, embora a samambaia não fosse grande o bastante para ocultar alguém. Também não parecia haver nada de errado com a samambaia, mas Gabriela tinha quase certeza de ter ouvido uma voz. Gostaria de procurar o engraçadinho, mas já estava encrencada demais para se envolver em outra briga e desistiu. Foi embora com pensamentos sombrios e inquietantes em sua mente. Não era a primeira vez que coisas estranhas lhe aconteciam.
Por conta da agressão sofrida, Michel ficou também dois dias em casa, enquanto seus pais cogitavam a possibilidade de levá-lo para outra escola. Essa intenção não se concretizou porque ele insistiu que desejava continuar lá, embora se negasse a dizer o motivo.
Quando Gabriela chegou à sua casa encontrou sua mãe a esperando na sala. Aparentemente alguém da direção da escola já a havia colocado a par do ocorrido.
— Você tem algo para me contar? — Perguntou a mãe, olhando fixamente para ela. Havia no seu olhar uma expressão que indicava decepção e desagrado.
Gabriela desviou o olhar. Ela nunca se sentia plenamente à vontade com a mãe. Parecia que a forte ligação e afinidade com seu pai tinham tornado sua mãe um parente distante.
 — Tem uma carta para você. — Disse ela, esquivando-se da pergunta.
A mãe pegou a carta da escola e leu em silêncio. Gabriela tentou decifrar sua expressão durante a leitura, mas nada pode concluir. Ela se mostrava fria e distante como sempre tinha sido.
— Você bateu num colega de aula para defender outro?
— Sim, mas...
A mãe a interrompeu secamente.
— Você não poderia ter resolvido isso de outra maneira? Seu pai nunca foi muito sensato, mas se esforçava para lhe passar a forma correta de lidar com situações como essa, não é mesmo?
A menção ao pai a entristeceu, embora não acreditasse que tivesse realmente feito algo de errado, como sua mãe parecia crer. Mesmo assim tentou se explicar.
— Não havia tempo para conversa. Michel já estava sendo espancado quando eu cheguei. Eram quatro brutamontes contra um menino magrinho e ele já estava bem machucado.
— Por que não chamou um segurança da escola?
— Segurança? A escola só tem um velhote que se esconde em algum lugar quando há problema.
A mãe ficou em silêncio por um momento. Parecia refletir sobre suas explicações.
— Você fez o que devia ter feito, então. Como está o garoto que apanhou de você? Ficou muito machucado?
— Só no orgulho, eu acho. Ele é muito grande e gordo... Não é fácil acertar um bom golpe. – Respondeu Gabriela em dúvida se deveria ter respondido à pergunta. – Exceto pela orelha que deve estar ardendo até agora.
A mãe não fez nenhum comentário sobre o que ela tinha falado. Ao invés disso, fez-lhe outra pergunta.
— Como Michel está, depois de tudo isso?
— Não sei. Perdi-o de vista quando o levaram para a enfermaria.
— Você ficará de castigo por três dias, sem videogame e sem sair de casa.
— Mas eu queria ver como está o Michel.
A mãe sabia que a filha tinha uma preocupação genuína com o amigo e, intimamente congratulou-se por isso. Gabriela tinha um senso de responsabilidade raro para sua idade e isso a orgulhava, embora não demonstrasse abertamente para ela.
— Está bem. Amanhã você vai até a casa dele e me traz notícias do seu estado. Mas não demore e volte diretamente para casa.
— Obrigado mamãe.
—- Não me agradeça. Depois você ainda vai cumprir o castigo. — Disse a mãe, saindo da sala.
No dia seguinte ao acontecido, Gabriela foi visitar Michel. Ele ficou radiante. Geralmente, além de seus pais, ninguém costumava se importar com ele.
— Obrigado pela ajuda. — Disse ele, num agradecimento sincero.
— Não foi nada. Eu costumo espancar aqueles garotos na hora da pausa. Acho que eles gostam disso.
Ele a olhou em dúvida.
— Brincadeirinha. — Disse ela, rindo de sua expressão interrogativa. — Então, como você está?
— Tô bem. Só dói quando levanto a sobrancelha.
Ela riu de novo. Gabriela não era exatamente uma menina bonita, mas tinha um sorriso lindo, pensou ele um tanto embaraçado.
— Você sabe por que aquele idiota bateu em você?
— Não lembro direito. Acho que começou quando um deles pegou minha mochila e outro o meu lanche. Depois disso só levei pancada de todo lado, até que você chegou.
— Ele se sentiu humilhado porque você respondeu à pergunta que ele não soube responder. De agora em diante guarde seus conhecimentos para as provas e evite chamar muita atenção em sala de aula.
— Era o que eu estava tentando fazer, mas o professor cismou comigo.
— Bom, com aqueles que te bateram acho que você não precisa mais se preocupar dentro da escola, mas tome cuidado quando voltar para casa.
Michel encolheu-se no sofá. Enfrentar novamente aqueles moleques arruaceiros não era uma perspectiva muito animadora, mesmo para alguém acostumado a ser saco de pancadas.
Para Gabriela, Michel era um tanto petulante demais para o mundo hostil em que viviam, mas era seu amigo, a despeito daquele jeito nerd de ser. Ele não era como os garotos estúpidos com os quais estava acostumada a lidar e que sempre tentavam boliná-la durante os jogos de futebol, apesar das bordoadas que distribuía com uma generosa dose de maldade. Michel era diferente, tinha um olhar inocente e íntegro, que se manifestava na forma como a tratava. As vezes ele parecia um cavaleiro andante, apesar de ser ela que o defendia e não o contrário.  Assim se formou uma sólida amizade entre os dois. Ele ia frequentemente à sua casa e se juntava a ela e seu pai nos fins de semana para longas sessões de leitura de gibis. Nessas ocasiões, o pai de Gabriela se surpreendia com os comentários daquele moleque franzino a respeito de gibis que já haviam saído de circulação muito antes de ele nascer.
— Eu não entendo por que um objeto não poderia se deslocar em velocidade superior à da luz. — Disse Gabriela, ao concluir a leitura de um livro de ficção científica cujo tema era a viagem espacial.
O pai dela interrompeu sua própria leitura e se esforçou para reunir numa explicação simples o que sabia a respeito da teoria da relatividade. Entretanto, Michel se antecipou e respondeu rapidamente.
— De acordo com Einstein, à medida que cresce a aceleração de um objeto, maior é sua massa e mais energia é necessário para manter a aceleração. Então, ao atingir a velocidade da luz a massa do objeto seria infinita e a energia para continuar a acelerá-lo teria que ser também infinita, o que seria impossível.
— Puxa! — Exclamou Gabriela com admiração.
— É isso aí, garoto. — Concordou o pai dela. — Talvez um dia seja você quem encontrará os princípios que levem à resolução desse dilema.
— Acho que não. — Respondeu ele, modesto. — Eu apenas sou curioso e leio de tudo um pouco. Acho que vou ser escritor.
— Então um dia vamos ter o prazer de ler suas histórias. — Disse o pai de Gabriela com um sorriso.
— Comece a escrever, garoto. — Falou ela. — Agora já tem dois leitores.
—Puxa! Quanta responsabilidade. — Respondeu ele erguendo uma sobrancelha, num gesto bem característico, quando tecia um comentário irônico sobre si mesmo.
Gabriela e o pai soltaram uma sonora gargalhada.
Dessa forma, uma sólida amizade foi se formando ao longo do tempo, consolidada na camaradagem, solidariedade e interesses comuns. Para eles parecia não haver nuvens negras no horizonte de suas vidas. Mas infelizmente elas estavam lá. Pouco antes do aniversário de 13 anos de Gabriela, seu pai faleceu. Então, um mundo que parecia perfeito e radiante tornou-se sombrio. Michel viu sua amiga murchar como uma flor arrancada da planta. E por mais que se esforçasse sentia que Gabriela se afastava dele e se encerrava em si mesma. Aos poucos a calorosa amizade já não parecia tão intensa. Ainda iam para a escola juntos. Entretanto, as brincadeiras nos terrenos baldios do bairro já não tinham tanta graça. Gabriela, mesmo perto dele parecia distante. Ele compreendia sua dor e, pacientemente, esperava que passasse. Queria sua amiga de volta, mas sentia-se impotente para lidar com o sentimento de perda que a envolvia.
Os dias de tristeza pela perda do pai de Gabriela se arrastaram em sua vida. Eram dias longos e vazios e pareciam jamais ir embora, até que a dor foi cedendo lugar à saudade e a conformação, como era de se esperar. Se não voltou a ser plenamente o que era, Gabriela parecia estar de volta ao convívio com os amigos e Michel pensou que tudo seria como antes. Entretanto algumas coisas jamais voltariam a ser o que eram, embora ele não se desse conta disso naquele momento.
Mesmo Gabriela não compreendia plenamente o que se passava com ela. Em alguns momentos sentia-se bem, quase normal. Em outros, parecia que seu estado de ânimo parecia mergulhar num abismo profundo.
Ao perceber o que se passava com a filha, sua mãe a chamou para uma conversa.
— Acho que temos algumas coisas para conversar.
— Temos? — Perguntou Gabriela não muito à vontade. Sabia que sua mãe a observava e parecia preocupada, mas a ideia de discutir com ela o que se sentia não lhe era muito confortável. A mãe sempre lhe pareceu uma incógnita no âmbito de suas relações afetivas.
— Eu percebi que há coisas perturbando você de uns tempos para cá, não é verdade?
— Não sei. Eu não entendo do que você está falando. — Respondeu Gabriela dando de ombro.
A mãe a olhou longamente. A convivência com o pai e os garotos do bairro havia moldado seu caráter. Ela era durona e não seria fácil chegar onde queria.
— Mas eu sei querida. Ou pelo menos acho que sei. Eu já tive a sua idade e, também, já tive minhas perdas. Seu pai não foi a única delas.
— Não acredito que você possa entender.
— Não sei se o que vou lhe falar vai ser proveitoso para você, mas não é de seu pai que quero falar.
Gabriela ficou calada. Ainda não sabia onde a mãe queria chegar e tinha dúvidas se queria ouvi-la, mas ela estava ali e isso, por si, já indicava algo incomum entre elas. Então esperou que encontrasse as palavras.
— Você fez treze anos há pouco tempo. Seu corpo está mudando e isso perturba você, não é mesmo? Já não se sente uma menina, mas ainda não é uma mulher. Sente alguma dor?
— Às vezes meus peitos doem. Também sinto dores aqui. — Disse Gabriela, com a mão sobre o ventre.
— Você está se aproximando da primeira menstruação e, junto com ela vem a puberdade. É quando os hormônios fazem uma verdadeira bagunça no corpo e na mente da gente. Você deve estar se perguntando o que está acontecendo consigo, não é mesmo? A mudança de humor é tão frequente e repentina que às vezes não consegue suportar nem a si mesma, estou certa?
— Acho que você acabou de me descrever. — Disse Gabriela, surpresa com as palavras de sua mãe. Elas nunca foram tão próximas, e conversação que costumavam manter pouco ia além do trivial. — Como consegue isso?
— Fácil. Também já fui adolescente querida. E acredite, sei o que você está passando e lembro bem o quanto é desagradável. Talvez não sirva de consolo, mas neste momento milhões de garotas estão passando o mesmo que você.
— Obrigada. Isso realmente já não me faz sentir tão só. — Respondeu Gabriela com uma ironia sutil que não passou despercebida à sua mãe.
— Vejo que você já está realmente se sentido melhor.
— Melhor?... Nunca me senti tão desengonçada e feia.
Gabriela não era de reclamar e geralmente guardava para si suas próprias angústias. Contudo, não estava imune às observações maldosas ditas em surdina à sua passagem. Epítetos como “perereca musculosa”, “sapatão”, e “lisa como uma tábua”, a magoavam bastante, embora se esforçasse para não deixar transparecer o que sentia.
Naquele momento, quando pareciam estar tão próximas uma da outra, a mãe percebeu o quanto sua filha parecia frágil e precisava dela.
— Esse desconforto que você sente com o próprio corpo é só uma fase. Vai passar.
— Vai? Como vou deixar de ser isso? — Perguntou Gabriela apontando o próprio corpo. Pareço um garoto e todos me tratam como se eu fosse uma criatura mutante.
A mãe sorriu carinhosamente. A filha precisava dela e isso seria bom, se não fosse o sofrimento que transparecia em seus olhos. Ela via que Gabriela segurava as lágrimas com muito custo.
— Mas você é uma criatura mutante minha filha. — Disse-lhe, escolhendo bem as palavras.
— Não... Até você, mãe?
— Venha.
Pegou suas mãos e a levou até um espelho de parede.
— O que você vê?
— Uma piada da natureza.
— Não, bobinha. A natureza não tem senso de humor, embora possa parecer cruel e injusta às vezes. O que você vê é seu corpo em mutação. Em breve ganhará curvas e tudo estará no lugar certo e você se verá diferente. As pessoas lhe verão de outra forma, inclusive os garotos.
— Será, mamãe? As garotas da minha idade já usam sutiã e eu, se não usar ninguém percebe.
— Cada pessoa tem seu próprio tempo para desabrochar. Espere e verá.
— Espero que você tenha razão. — Respondeu Gabriela, fazendo um esforço para acreditar.
— Também já passei por isso e sei o que estou falando, acredite.
Era a primeira vez que Gabriela conversava com sua mãe coisas que há muito queria perguntar, mas não se sentia encorajada.
— Está se sentindo melhor? — Perguntou a mãe, carinhosamente.
— Sim. Obrigada mamãe.
— Não agradeça, minha querida. Eu deveria ter percebido antes o que estava se passando com você, mas estava ocupada demais com as minhas próprias dores. Agora vou cuidar mais de você, prometo.
— Tá bom. — Respondeu Gabriela, tentando sorrir.
— Ótimo. Então agora vamos sair.
— Para onde?
— Temos que comprar algumas coisinhas que você vai precisar.
E assim, mãe e filha redescobriram o encanto que pode envolver a cumplicidade entre elas.
A percepção e a disponibilidade da mãe para suas angústias, fez Gabriela olhá-la de outra perspectiva. A ligação que sentia agora entre elas era de outra ordem, originada em referências que só mãe e filha podiam compartilhar.
A mãe, por sua vez, encontrou nos cuidados com a filha, o propósito que deu sentido à sua própria vida e minimizou a opressiva sensação de solidão que a acompanhava desde a morte do marido.
Aos poucos tudo parecia se acomodar na vida de Gabriela. A dor pelo falecimento do pai deu lugar à saudade. A amizade com Michel e a reaproximação com sua mãe tornavam seu pequeno mundo satisfatório e até feliz, como ela de repente se deu conta.
A lembrança de Michel a fez perceber que ele andava sumido e sentia sua falta. Então, como se ouvisse seus pensamentos, ele apareceu em sua casa. Estava tão agitado, que ela pensou que ele estava sendo perseguido pelo seu costumeiro desafeto. Trazia um pequeno envelope na mão e o agitou diante dela quando abriu a porta.
— Adivinha o que é.
— Não faço a mínima ideia. O que é?
— Um convite para você. Também recebi um.
— Um convite para mim? – Ela arrebatou o envelope da mão dele e o abriu sem muito cuidado.
— É um convite para a festa de aniversário da Valéria. Não é legal?
— É estranho. Essa garota nunca falou muito comigo, apesar da gente estudar na mesma escola.
— Acho que sei por que ela te convidou, então.
— Então me explica sabichão.
— Você é uma espécie de celebridade na escola. É a estrela do time de vôlei, boa aluna, líder... É isso.
— Fala sério. — Disse ela surpresa. — Você pirou de vez. Posso contar nos dedos as pessoas que realmente gostam de mim.
—- Não tô falando de gostar, mas de prestígio. É isso que ela deve tá querendo para a festa dela.
— Então, ela que vá se ferrar. Não vou.
— Puxa! Eu ia até ganhar uma roupa nova para ir à festa da Valéria.
Gabriela deu de ombros.
— Você foi convidado. Por que não vai?
— Tá brincando? Só fui convidado porque sou seu amigo. Se não fosse por isso, eu seria invisível e ninguém se lembraria de mim. Muito menos uma gata daquelas.
Gabriela olhou para ele, pensativa. De repente se deu conta do quanto era importante para Michel ir àquela festa
— Tá bom. Eu vou com você
— Yes! — Respondeu ele, com entusiasmo.
A mãe de Gabriela chegou naquele momento e ficou curiosa com o entusiasmo de Michel.
— Posso saber o motivo dessa alegria toda?
— Fomos convidados para uma festa de aniversário. — Respondeu Gabriela sem muita vontade de falar sobre aquilo.
— É da Valéria. Uma menina lá da escola. — Completou Michel.
— Que ótimo. Precisamos comprar uma roupa nova para você. — Disse a mãe de Gabriela.
— Para quê? Eu já tenho roupa suficiente.
— Uma festa de aniversário é uma ocasião especial e tenho certeza que você gostaria de estar bonita no dia.
— Não preciso disso, mamãe. É só uma festa idiota.
— Precisa, sim. Amanhã nós vamos às compras. – Retrucou a mãe. — Vai por mim. Você vai querer arrasar.
Então, mesmo contra a vontade, Gabriela preparou-se para ir a uma festa de aniversário. Seria a primeira de sua adolescência e ela já estava decidida a detestar. No dia seguinte, levada pela mãe, percorreu diversas lojas de um shopping. Depois de muito experimentar, escolheu um vestido florido de alcinha.
— Perfeito! — Exclamou sua mãe quando ela saiu do provador. — Você ficou linda.
A aprovação materna lhe inspirou um pouco mais de confiança, principalmente porque sabia que sua mãe não era de fazer elogios à toa. Nesse quesito ela era constrangedoramente franca.
— Então podemos ir para casa agora? — Perguntou a menina, cansada daquela maratona.
— Ainda não. Você vai precisar de sapatos que combinem com o vestido e mais algum acessório.
— Ai! — Exclamou ela, com resignação.
Sua mãe riu de sua expressão entediada e, depois de pagar o vestido, puxou-a para mais uma jornada pela galeria de lojas de sapatos e acessórios.
A preparação de Michel para ir à festa de Valéria foi mais simples. Ganhou tênis, calças jeans e camiseta de uma marca famosa. Tudo escolhido em alguns minutos em cada loja. Ao contrário das mães que tinham filhas, a mãe de Michel podia ser prática e objetiva, pois garotos eram mais simples de vestir. A única concessão foi um corte de cabelo mais elaborado, inspirado num jogador de futebol famoso.
No dia da festa, Michel chegou à casa de Gabriela bem antes da hora marcada pela mãe dela para levá-los. Estava ansioso, mas teve que esperar quase uma hora até que ela descesse a escada pronta para sair.
— Nossa! —– Exclamou ele, quando a viu descer a escada. — Você está... Quase linda.
— Isso foi quase... Um elogio, eu acho. — Respondeu ela com uma careta. — Você também não está mal, exceto por esse corte de cabelo esquisito. Parece que você levou um choque elétrico.
— É a última moda.
— Sei...
— Puxa! Pensei que ia arrasar.
Ela riu do seu jeito desapontado.
— Brincadeirinha! Você está ótimo assim.
Meia hora depois, a mãe de Gabriela os deixou no clube onde a festa se realizava.
 Nenhum dos dois confessou, mas ambos estavam nervosos e pensaram em voltar para casa antes mesmo de entrar. Entretanto, respiraram fundo e foram em frente para o primeiro compromisso social de suas vidas. O receio inicial logo se mostrou infundado, quando a dona da festa os recebeu no hall de entrada do clube.
— Que bom que vocês vieram. — Disse ela com simpatia. — Já conhecem o clube? O salão da festa fica em frente e, ali ao lado, fica a sala dos pais, mas não se preocupem com isso. Eles logo estarão bêbados ou entediados demais para ficar controlando a gente.
Valéria pegou a mão dela e a levou para o salão. O toque de sua mão era quente e afável e fez Gabriela de repente se descontrair. Michel as seguiu um pouco atrás, depois de distrair-se olhando as meninas que chegavam. Ao entrarem ouviram os acordes iniciais de Be my baby, uma música que fez sucesso antes de seus pais nascerem.
— O tema da festa é Anos Cinquenta. Foi uma ideia de minha mãe. — Explicou Valéria. — Ela disse que foi essa música que ela dançou com papai quando eles se conheceram. Pelo que sei já era uma música antiga na época deles, mas eu gostei da sugestão. Não entendo a letra, mas parece tão romântica.
— Eu gostei. — Disse Michel, imaginando se teria coragem de tirar uma menina para dançar.
Ainda segurando a mão de Gabriela, Valéria os conduziu até as mesas onde estavam seus amigos da escola.
— Agora vou receber outros convidados e dar uma circulada, mas depois eu volto. — Disse ela, sorrindo. — Fiquem à vontade.
A princípio Michel não teria motivos para ficar à vontade naquele grupo. Em sua maioria era formado pelos mesmos garotos que o esnobavam na escola, mas eles pareciam diferentes de como se mostravam na sala de aula. Em alguns minutos relembravam com bom humor a surra que Jorjão levou de Gabriela, enquanto algumas meninas olharam para Michel com admiração por algum motivo que ele não compreendeu, mas estava adorando.
Gabriela também estava diferente. Estava feliz com o efeito que parecia causar nos garotos quando dançava aquelas músicas antigas. Nem mesmo ela sabia que podia gostar daquilo e acabou descobrindo que era bom não parecer um menino. Valéria voltou logo depois e sorriu para ela, juntou-se ao grupo da escola e caiu na dança.
O tempo passou sem que eles percebessem e o salão começou a esvaziar. Logo estou apenas o grupo da escola e a música cessou por força do regulamento do clube para festas de aniversário de adolescentes. Era o fim da festa, mas os pais presentes na sala ao lado não pareciam ter pressa de ir embora. Então alguém sugeriu que brincassem de “Salada Mista”. Era uma brincadeira onde cada fruta tinha um significado. Pera significava um simples aperto de mão, uva um abraço, maçã um selinho e salada mista um beijo bem mais ousado. Os participantes ficavam em círculo e uma das pessoas ficava no meio com o braço esticado e olhos fechados e era girada por alguém. Quando o giro cessava, a pessoa ainda de olhos fechados e sem saber para quem estava apontando, tinha que escolher uma das frutas ou salada mista. Ela podia se dar bem, quando acertava quem desejava ou muito mal, quando a ousadia da escolha caia sobre a pessoa errada.
A primeira a ficar no centro foi Marina, uma moreninha espevitada de olhos amendoados. Era uma das meninas que olhavam Michel com insistência no início da festa. Esperta, ela memorizou sua posição antes de fechar os olhos e contou os giros que dava. Ao parar, ainda de olhos fechados, apontava certeira para ele.
Ao perceber que tinha sido escolhido, Michel começou a torcer mentalmente: “salada mista, salada mista!”.
— Maçã. — Disse ela.
“Droga!”.
— Vai, Marina! Pega ele! Gritaram os demais participantes em coro.
A menina se aproximou olhou-o nos olhos e deu-lhe um beijo estalado na boca, sob os aplausos da torcida organizada.
“Bem, pelo menos não sou mais BV”. Pensou ele resignado. Na linguagem dos adolescentes, BV significava Boca Virgem, um atributo não muito meritório.
Mais duas pessoas foram para o círculo até que Valéria foi sorteada. Ela girou várias vezes, até que parou apontando para Gabriela.
— Salada mista! — Escolheu Valéria ousada. Ela tinha feito quinze anos e havia decidido que aquela noite seria memorável.
— Não! — Exclamou Gabriela do alto dos seus 13 anos completados há poucos meses. — Não era para mim que ela queria apontar. Eu mudei de lugar.
— Vai amarelar agora, Gabriela? — Gritou um dos participantes.
Outros protestos se fizeram ouvir e Gabriela não soube o que fazer para sair daquela enrascada. Valéria se aproximou e a incentivou a continuar a brincadeira.
— É só uma brincadeira, Gabi. Não vai doer. — Ela disse com uma expressão maliciosa no olhar.
Gabriela não se moveu e ficou um momento em silêncio. Achava aquela situação esquisita e queria sumir dali, mas também não iria amarelar na frente de todo mundo.
— Tá. Vai logo com isso.
As bocas se encontraram e Gabriela sentiu a língua de Valéria se insinuando entre seus dentes. Aquilo lhe provocou uma sensação estranha, quase uma vertigem. Seu coração disparou e ela entreabriu a boca e permitiu que as línguas se encontrassem. Tudo não passou de um breve momento, mas foi o suficiente para lhe causar uma impressão profunda e de natureza desconhecida e perturbadora.
— Eu sabia onde você estava. — Disse Valéria em voz baixa, enquanto se afastava.
Gabriela não soube o que dizer. Estava confusa, mas certamente iria se lembrar dessa festa durante muito tempo.

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